Brasil

16/02/2015 | domtotal.com

O país dos pequenos Bolsonaros

Não é só pelo calor, mas parece que estamos a respirar um ar mais do que pesado.

Cada segmento tem o Jair Bolsonaro que merece.
Cada segmento tem o Jair Bolsonaro que merece.

Por Ricardo Soares*

Cada segmento tem o Jair Bolsonaro que merece. Na mídia e no jornalismo atual, eles pululam sem a menor vergonha de mostrar seus caninos raivosos sedentos de golpes, impeachments, terceiros turnos. O ano mal começou e a chapa está mais do que quente. Noves fora o calor paranormal que nos transporta ao inferno climático com poucas chuvas para ocultar a incompetência dos governantes para com o abastecimento, digamos, que os corações e mentes parecem estar fundamentalmente alterados, propensos a temperaturas e humores de derreter termômetros. Tolerância zero entre contrários, falta de educação no trato virtual e real. Estamos mesmo em tempos de circo romano onde a patuléia quer mais é sangue correndo e onde idéias não se discutem, se digladiam.

Brasília  continua a  desandar em onda quente de violência e corrupção, o Rio derrete cadáveres nas vielas dos morros, a polícia paulista esgrime sua truculência desmedida e incontida e  ônibus ardem nas ruas, pessoas se engalfinham em brigas de trânsito Brasil afora e se estapeiam virtualmente por suas preferências políticas numa virulência que deixa longe o conceito do “brasileiro cordial”.

Não é só pelo calor, mas parece que estamos a respirar um ar mais do que pesado. Chumbo grosso. Mormaço sem refresco. Sensação de sufocamento onde se afogam as boas idéias, a racionalidade, o equilíbrio. Tanto que nem causa a espécie que deveria causar a confusão entre liberdade de opinião e pensamento com incitação à barbárie e violência que é apregoada por gente desqualificada que faz uso irresponsável de uma liberdade de expressão que jamais lutou pra conquistar. Repetem  as estultices que  encontram eco e são comentadas país afora, revelando a falta de conhecimento histórico tanto desses “articulistas” como de seus desinformados leitores. A mídia ergue seu estandarte de verão nas figuras abjetas de uma plêiade de golpistas.

A tolerância zero, o rancor exposto como um nervo de dente ecoa fácil, solto pelo país afora, e solapa ainda mais nossa civilidade já há muito solapada. Infratores espancados e amarrados a postes, reencarnações de pelourinhos passados não são vistos como aberrações mas aceitos com aplausos pela boa e velha "gente de bem" que sempre usa a desculpa da falência do Estado para justificar o linchamento, o assassinato sumário, a extinção da Justiça. Os argumentos são tão toscos que dá até preguiça de aqui enumerá-los. Sem paranoia, algo e muito sólido parece estar se formando no ar. Como uma imensa pedra no rim. Urge bombardeá-la antes que fique tão espessa que leve à falência dos múltiplos órgãos que regulamentam a democracia.

*Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, roteirista e jornalista. Foi cronista dos jornais "O Estado de S.Paulo", "Jornal da Tarde" , "Diário do Grande ABC" e da revista "Rolling Stone". Autor do romance "Cinevertigem", editora Record, 2005.

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