Saúde

23/09/2015 | domtotal.com

Os riscos da trombofilia na gestação

Mães com casos de aborto de repetição e morte fetal devem ter cuidado redobrado.

Gestantes com trombofilia devem fazer acompanhamento rigoroso de pré-natal.
Gestantes com trombofilia devem fazer acompanhamento rigoroso de pré-natal.

Por Michelle Santirocchi 
Repórter Dom Total

Receber o resultado positivo é sempre um momento emocionante para os pais que estão planejando ter um bebê. Porém, em alguns casos, pode ser o início de uma luta que vai durar os nove meses de gestação.  Serão injeções diárias de anticoagulante, exames e mais exames, ultrassonografias com doppler (para verificar o fluxo sanguíneo) e um pré-natal acompanhado de forma muito mais rígida para garantir que mamãe e bebê estejam saudáveis. Tudo isso por causa das trombofilias. 

As trombofilias são caracterizadas por promoverem alterações na coagulação sanguínea. O risco é que os coágulos obstruam os vasos sanguíneos, causando o entupimento das veias dos pulmões, coração e cérebro materno, como também obstruindo a circulação na placenta.

A trombofilia pode ocorrer por mutações ou deficiências dos fatores de coagulação e pode ser hereditária ou adquirida. Durante a gravidez já ocorre naturalmente um estado de hipercoagulabilidade do sangue materno. Com isso, muitas mulheres portadoras de trombofilia só descobrem a doença após alguma complicação na gestação.

 

Alto risco

A médica ginecologista e obstetra Valéria Moysés Paolucci lembra que a gravidez é de alto risco e é necessário um acompanhamento bem feito. “É muito importante uma anamnese bem feita, considerar a história familiar positiva, a deficiência de proteínas C ou S, heterozigotas para fator V de Leiden com ou sem TVP (trombose venosa profunda) prévia, pré eclampsia grave ou abortos de repetição e próteses cardíacas”, disse.  Ela também falou que, se possível, é bom que a grávida seja acompanhada também por um hematologista. 

Para o médico hematologista Caio César Oliveira dos Santos Ribeiro, as pacientes sabidamente portadoras de trombofilia devem comunicar-se imediatamente com o seu obstetra e hematologista quando existir suspeita ou confirmação de gravidez. “Essas pacientes necessitam acompanhamento rigoroso durante todo o pré-natal para as complicações que possam ocorrer”, completou.

Já as mulheres com histórico de abortos recorrentes devem pesquisar a possibilidade de ter a trombofilia. “Em casos de pacientes gestantes, a trombofilia deve ser pesquisada em mulheres com três ou mais abortamentos espontâneos com menos de 10 semanas de gestação ou um ou mais abortamentos espontâneos com mais de 10 semanas de gestação, em casos de pré-eclâmpsia, crescimento intra-uterino retardado e descolamento de placenta”, disse Caio. A melhor forma de diagnóstico é através de amostras de sangue, onde serão pesquisadas as alterações mais comuns conhecidas. 

É preciso muito cuidado durante a gestação. O hematologista lembra que as gestantes com diagnóstico de trombofilia apresentam risco de pré-eclâmpsia, eclâmpsia, trombose venosa profunda ou tromboembolismo pulmonar. “Estes riscos são variáveis de acordo com o tipo de trombofilia que a mulher apresenta”, falou. Para o bebê existe o risco de morte fetal, crescimento intra-uterino retardado e descolamento prematuro de placenta. “A grávida deve passar uma anamnese minunciosa, exame físico, duplex-scan  (também conhecido como dopller, é um exame derivado da ultrassonografia, bastante utilizado na avaliação dos vasos sanguíneos e suas doenças) e ultrassonografias mensais”, disse a ginecologista. Para prevenção, o indicado é o uso de injeções de enoxoparina durante toda a gestação e após o parto. 

Na hora do parto, doutora Valéria acredita que o melhor para a gestante é o parto normal, já que os riscos são menores. Mas é necessário manter o uso das injeções de anticoagulantes por um tempo determinado pelo médico. 

Doutor Caio, por sua vez,  contou que as trombofilias geralmente são hereditárias e não há cura, porém existe a possibilidade de prevenção de trombose em situações de risco, onde são usados anticoagulantes em doses profiláticas. “No caso específico da paciente gestante com trombofilia, o assunto ainda é extremamente controverso quanto ao uso de anticoagulantes profiláticos e o caso sempre deverá ser analisado pelo médico especialista, que poderá avaliar individualmente os riscos e benefícios de alguma terapia preventiva”, finalizou.

 

Os tipos mais comuns de trombofilia:

1 – Deficiência de antitrombina: A deficiência de anti-trombina III é a trombofilia que apresenta maior risco para trombose, mesmo quando heterozigoto. Cerca de 70% das pacientes com deficiência de anti-trombina III irão apresentar trombose venosa durante a gestação. Estudos mostraram elevado risco para aborto e um risco 5 vezes maior de natimorto.

2 – Mutação do Fator V de Leiden: O gene mutante, localizado no cromossomo 1, promove uma alteração no Fator V tornando-o mais resistente à ação da proteína C (anticoagulante natural). 
É a trombofilia mais comum, risco moderado.

3 – SAAF (Síndrome do Anticorpo Antifosfolípede): é a trombofilia adquirida de maior importância na gravidez. Responde por 16% dos abortos de repetição. 

4 – Mutação do gene da protombina: A mutação no gene da protombina é encontrada em cerca de 1 a 3% da população normal (sem história de tromboembolismo) e em até 6% de pessoas com história de trombose venosa. É responsável por até 18% das trombofilias hereditárias. Portadores da mutação do Fator II apresentam uma elevação no risco de trombose em cerca de 2 a 5 vezes. É a trombofilia de menor risco.

5 – Deficiência de proteína C: A Proteína C é um inibidor da coagulação. Os indivíduos com deficiência de Proteína C têm um risco de trombose venosa superior ao da população em geral e este risco aumenta durante a gravidez.

6 – Deficiência de proteína S: O diagnóstico é baseado na quantificação dos níveis de antigênico da proteína S (proteína S total ou proteína S livre) e atividade anticoagulante.  Risco moderado.

7 - Mutação da enzima metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR): O diagnóstico dessa mutação é realizado com a detecção da mutação e determinação do nível de homocisteína no sangue. A suplementação vitamínica pode reduzir os níveis de homocisteína e reduzir o risco de trombose. 

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