SuperDom Periscópio

13/05/2019 | domtotal.com

Laços históricos desfeitos

Foi preciso um ciclone para revelar o estado em que se encontra a relação Brasil-África.

A Beira, terra natal de do escritor Mia Couto, de Moçambique, destroçada pelo ciclone Idai.
A Beira, terra natal de do escritor Mia Couto, de Moçambique, destroçada pelo ciclone Idai.

Por Marco Lacerda*

A passagem do ciclone Idai por Moçambique foi uma catástrofe humanitária completa, e a cifra oficial de mortos – 500, além de 200 desaparecidos – aumenta à medida que são acessadas as zonas aonde não se conseguia chegar por causa da devastação. Existem áreas onde não há água potável nem eletricidade, estradas interrompidas, transportes paralisados, escolas fechadas, comunicação ocasional e deficiente. O preço dos alimentos subiu 600% e os serviços de saúde permanecem paralisados. Calcula-se que, até o momento, 1,8 milhão de pessoas tenham sido afetadas.

Em sua recente passagem pelo Brasil, para uma série de palestras sobre “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, o escritor moçambicano Mia Couto confessou seu pânico ao ser informado sobre o ciclone. Pensou ter perdido o seu lugar de infância, a Beira, cidade onde nasceu, por estar situada no epicentro da catástrofe. Ao chegar ao local, percebeu que não. Que uma cidade é feita de pessoas e os sobreviventes estão lá, lutando, reconstruindo as casas e ainda com capacidade de contar histórias como as que alimentaram sua literatura desde o início.

Mas viu-se forçado a repensar o novo romance que já começou, movido por um certo pudor de se aproveitar da circunstância dramática. “Quando o sofrimento é tão intenso, acho que não tem cabimento meu papel como escritor. Se eu faço qualquer coisa em relação a esse tema, será como cidadão, ajudando os outros, sem interesse literário”, disse em entrevistas. Em vez de prosseguir com seu romance, Mia Couto está fazendo um registro daquelas pessoas que foram heróis, que salvaram, que se entregaram, que arriscaram a vida e que nunca terão protagonismo. Trata-se de um livro com depoimentos dessas pessoas, para contar aos jovens que há gente que não tem rosto nem nome, mas que é capaz de gestos como esses.

Mia Couto não escondeu seu desapontamento com a ajuda destinada pelo Governo brasileiro à Moçambique depois da tragédia, considerando os laços culturais e históricos entre ambos países. Considerou-a pequena. Além de uma ajuda financeira equivalente a 100 mil euros, o Brasil enviou 40 bombeiros que atuaram no desastre de Brumadinho. “Pode parecer que é pouco polido da minha parte, estando Moçambique a receber e eu a dizer que é pouco. Mas realmente esperávamos mais do Brasil, porque eu recebia tantos contatos de tanta gente que queria ajudar que me parece que uma pequena fração dessa gente que telefonou e escreveu já cobriria os 100 mil euros enviados pelo Governo brasileiro”, disse o escritor.

Para ele, mais grave até do que o Governo dar pouco, foi como a notícia chegou tão tardiamente aqui. “Falei com amigos brasileiros que só uma semana depois da tragédia acordaram para uma coisa que, em outros países, a BBC e a Al Jazeera, por exemplo, já era notícia amplamente divulgada. Doeu perceber como África e Moçambique ficaram tão distantes do Brasil. Já estivemos mais próximos. A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”.

“O Brasil não se reconhece nem na América Latina”

A obra de Guimarães Rosa foi a ponte que trouxe o escritor Mia Couto ao Brasil

Quando chegou ao Brasil pela primeira vez, há 15 anos, recorda Couto, “a África ainda era muito mistificada, mas isso mudou com políticas de aproximação do passado. Por outro lado, o próprio Brasil é muito grande para perceber o que está a acontecer fora. O Brasil tem tanto dentro que é difícil olhar para fora, e esse fora tem um critério, obviamente: estar mais próximo dos Estados Unidos e da Europa. O país não se reconhece nem na América Latina, algo que é estranho para nós, porque a África vive a si própria como uma entidade. Os africanos cantam a África como se fosse uma espécie de grande nação. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente”.

Mia Couto recorda também seus laços pessoais com o Brasil:

- Em 1985, quando Moçambique vivia uma guerra civil que nos fechava para o mundo, eu não conseguia ter ligação com o Brasil, mas um amigo trouxe-me uma fotocópia de ‘A terceira margem do rio’, de Guimarães Rosa. Eu estava no processo de criar meu segundo livro de contos, e aquilo foi como se eu tivesse descoberto a própria vocação de escrever. Esse foi meu primeiro grande contato com Guimarães. Depois, fiquei anos tentando voltar e encontrá-lo em livros e mais tempo ainda demorei em chegar a ‘Grande Sertão: Veredas’. E, quando cheguei a ele, mesmo tendo passado pelos contos, o primeiro encontro não foi fácil. Eu acho que tinha medo, continuo tendo. É como se de repente houvesse uma revelação, não sobre o que ele estava contando, mas sobre mim próprio.

“O que o Guimarães fez foi uma abertura de caminho, uma espécie de luz verde, uma autorização, dizendo ‘você pode ir por este caminho, pode-se fazer literatura assim’, deixando que as vozes chamadas não cultas, que as vozes das pessoas do campo pudessem remexer na história e no próprio narrador. Quando cheguei a Grande Sertão, eu já estava embriagado dessa literatura. Acho que tudo o que Guimarães faz é quase um milagre, principalmente tendo o pé em uma coisa muito perigosa, que é o pitoresco, que pode ser considerado regionalista, e, ao mesmo tempo, debruçando-se sobre os grandes temas do mundo, as grandes interrogações da humanidade”.

De fato, Brasil e África já estiveram mais próximos, como diz o escritor Mia Couto, na qualidade de um africano branco. O mesmo vale para as relações Brasil-EUA. Durante os anos de governo do PT, o Brasil virou as costas para o vizinho do Norte, dando preferencia a uma vizinhança bolivariana hoje reduzida a pó. Os americanos agora reagem à altura, sob a ótica descabelada de Donald Trump por quem o presidente Jair Bolsonaro, um brasileiro branco, nutre incontida simpatia.

Em sua recente visita a Washington, Bolsonaro abriu mão do Tratamento Especial e Diferenciado em acordos da Organização Mundial do Comércio, que nos dava prioridade econômica, isentou americanos de visto para entrar no Brasil e cedeu a Base de Alcântara para os americanos. Em troca não levou nada, nem o visto, nem o prêmio em Nova York, nem um tweet de apoio de Trump, nem uma vaga na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Bolsonaro deve gostar mesmo do Trump, porque até agora vantagem nenhuma.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

COMENTÁRIOS
Instituições Conveniadas