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19/08/2019 | domtotal.com

A Amazônia que fala chinês à força

Operações de mina de cobre chinesa agridem a floresta, rios e tribos indígenas.

Indígenas da tribo Shuar são os mais afetados pelo projeto Mirador.
Indígenas da tribo Shuar são os mais afetados pelo projeto Mirador.

Por Luisa Rabolini*

Guindastes monumentais agridem a montanha. Um lado é coberto por uma pesada camada de cimento que tenta, com dificuldade, manter sob controle o caos impetuoso da floresta. O canteiro da mina está em plena atividade: a extração está programada para começar no final do ano. Uma placa tranquiliza: "A nova era do cobre está às portas". A escrita é traduzida para o chinês, a língua mais difundida atualmente em Tundayme. Não há placa que não seja ilustrada em ideogramas e adornada com lanternas vermelho-Pequim.

No entanto, esse vilarejo de menos de mil habitantes está incrustado no coração da Cordilheira do Condor, na Amazônia equatoriana. Pelo menos no papel. Tudo aqui - economia, sociedade, política, lazer - gira em torno da "nova era do cobre" e seu artífice: a Ecua Corriente SA, mais conhecida por sua sigla, Ecsa, subsidiária do consórcio estatal de Pequim, a Tonling-Crcc.

Rosário não havia entendido a frase de forma literal. Até que, em 30 de setembro de 2015, os guardas particulares da empresa e policiais armados apareceram à sua porta. "Batiam como loucos. Eles me deram cinco minutos para sair. Como você sai de casa em cinco minutos?" Aos 73 anos, Rosário teve que começar de novo. "Você sabe que finalmente tinha conseguido comprar o espremedor? Aos poucos, meu marido e eu tínhamos conseguido todos as comodidades: luz, telefone, televisão. Por fim, tínhamos comprado o espremedor. Não tive tempo de tirar nada ...”, relata a idosa, agora obrigada a morar num barraco, entre sacos de areia, gatos e uma miríade de borboletas azuis pousadas sobre os poucos muros construídas.

Rosário - pele queimada pelo sol, mãos grandes calejadas e olhar combativo - é um dos 116 "desalojados da mineradora", mais de dez por cento da população. Habitantes do distrito de San Marcos de Tundayme

que - com base no princípio de servidão de mineração - tiveram que abrir mão de suas propriedades para a Ecsa para construir a Mirador, a primeira mega-mina a céu aberto da história do país latino-americano.

A extração de cobre ainda não começou, mas o impacto no meio-ambiente já é visível.

"Resistimos à mineração há vinte e cinco anos, ao contrário do resto da região. Depois, com Rafael Correa, chegaram aqui também”, explica Gloria Chicaiza, presidente da Acción ecológica e uma das ambientalistas mais famosas do país. As intenções de colonização da Cordilheira, na realidade, começaram nos anos 1990, com as explorações da sul-africana Gencord Ltd, da gigante australiana-britânica Bhp Billiton e da canadense Corriente Resources. No entanto, foi Correa que concedeu o sinal verde histórico ao consórcio chinês, em troca do compromisso de pagar 100 milhões de royalties.

Uma aparente contradição. O ex-presidente de centro-esquerda promoveu a inovadora Constituição de 2008, a primeira a proteger explicitamente os "direitos da natureza". Seu governo, no entanto - como seus antecessores - baseou seu projeto de desenvolvimento - neste caso, redistributivo - na exportação de matérias-primas. Incluindo recursos subterrâneos, dado o boom nos preços internacionais. Por isso, a rápida expansão da fronteira da mineração assumida até mesmo pelo executivo subsequente, liderado pelo ex-amigo e agora rival, Lenín Moreno. "Atualmente, 6% do território nacional já foi distribuído ou está prestes a ser", enfatiza Chicaiza.

Vinte e seis autorizações para mega-estruturas de extração estão nas mãos de empresas chinesas, canadenses e australianas”. Cinco destas são definidas como estratégicas. Três estão na Amazônia, como Mirador. Uma Amazônia particular, certamente. Uma "floresta vertical".

Manuel, indígena Shuar, aponta o lugar onde ficava sua casa antes do despejo.

As árvores escalam as encostas das montanhas, transformando-as em intensas pirâmides verdes, perpetuamente envoltas por nuvens. A umidade explode em uma infinidade de riachos que, então, se juntam para criar uma multiplicidade de rios. Afluentes, por sua vez, do rio Maranhão e, portanto, do rio Amazonas. O Tundayme, o Wawayme e o Quimi - que banham o vilarejo de Tundayme - estão entre eles. Seu equilíbrio, portanto, afeta a bacia amazônica. Agora esta, como suposto pelo próprio plano ambiental de Mirador, parece alterada.

Em seus leitos, a água cristalina foi substituída por uma lama marrom. "É a lama da mina. A terra tirada para construir a infraestrutura acabou nos rios. Não podemos mais utilizá-los, nem os animais se banham neles", diz María Aucai, parteira e ativista. A situação poderia piorar com o início da extração. Ou seja, quando a mina usará 1.950 litros de água por segundo, obviamente retirada dos rios de Tundayme - para processar 60.000 toneladas de rocha por dia.

Anciã Shuar com mais de 100 anos foi despejada a força de sua casa.

Os resíduos se acumularão na grande bacia de coleta construído onde antigamente ficava San Marcos. O enorme aparato engoliu a escola, os campos de Jacarande e a igrejinha. "Os quatro hectares de terra foram doados à comunidade por Políbio Arévalo Pacheco - conta Marialgel Marco, religiosa ursulina que acompanha a comunidade e colaboradora da Rede eclesial Pan-Amazônica (Repam) há muito tempo -. Infelizmente, este último não tinha formalizado a concessão. Na época a palavra era suficiente".

Por sua vez, quando cedeu sua propriedade para a Ecsa, Arévalo Pacheco não se preocupou em colocar por escrito a garantia de que San Marcos fosse protegida. Foi assim que chegaram as ordens de despejo, a partir de 2013 e depois as escavadeiras. “No início, em Tundayme, muitos eram a favor da mina. Pensaram que isso traria o "progresso".

Lentamente, no entanto, as promessas foram desmentidas pelos fatos. O ponto de virada foi a demolição da capela. Para os habitantes, a igrejinha arrasada a golpes de escavadeira representou um choque", acrescenta a freira. Em vez de paralisá-los, no entanto, a dor de perder os símbolos de sua memória comum tornou-se o motor da luta pacífica. Com o nascimento da Comunidad amazónica de acción social Cordillera del Cóndor Mirador (Cascomi), uma associação local que lidera a resistência à mineradora.

O projeto Mirador não trouxe nenhuma melhoria para os índios Shuar.

"Quais melhorias trouxeram a empresa para os habitantes? Nenhuma. Pelo contrário, a situação piorou", afirma o vigário apostólico de Zamora, monsenhor Walter Heras. "A Ecsa havia prometido criar 6 mil empregos, dos quais mil 3 mil eram diretos e o restante indiretos - ecoa Salvador

Quispe, prefeito da província onde fica Tundayme -. Nós nem sequer chegamos a um terço. Além disso, destes, quase mil foram confiados a pessoas da província. As condições de trabalho, inclusive, segundo o que vários funcionários nos relataram, são bastante precárias".A repórter desta matéria foi pessoalmente ao acampamento base da Ecsa para ouvir a versão da empresa. Nem no local nem com e-mails e telefonemas subsequentes, no entanto, obteve alguma resposta. Insensíveis, os guindastes continuam agredindo a encosta da montanha. "A nova era do cobre está às portas".

*A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada pelo jornal italiano Avvenire. A tradução é de Luisa Rabolini.

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