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28/11/2019 | domtotal.com

Política: paixão sem grandeza

Um abismo divide hoje a nação em duas margens ideologicamente rasas e inconsistentes

"Não há na pátria um só cidadão capaz de silenciar os idiotas e falar ao coração das massas"

Jorge Fernando dos Santos*

A maioria dos dicionários define o termo política como a ciência do governo dos povos e dos negócios públicos. A palavra vem do grego, pólis, que significa cidade-estado ou um pequeno território localizado no ponto mais alto de uma região. Seu surgimento foi um influente aspecto do desenvolvimento da civilização grega na antiguidade.

No entanto, porém, todavia, contudo, há que se lembrar a frase do saudoso Nelson Rodrigues: “Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem”. A política, na verdade, deveria ser exercida com a razão, jamais com o fígado.

Na maioria das vezes, ela se revela pantanosa, referindo-se ao modo de se conviver socialmente ou de manipular a verdade em benefício próprio. Maneira hábil de agir e tratar com os outros, ainda que de forma hipócrita. No Brasil dos políticos, o que geralmente existe é a politicagem, a reles política dos homúnculos.

“Política é a única paixão sem grandeza, a única capaz de imbecilizar o homem”.“Política é a única paixão sem grandeza, a única capaz de imbecilizar o homem”.Não bastasse isso, na era do politicamente correto ser político tornou-se sinônimo de estar na moda, de saber fingir aquilo que não pensa e que jamais ousaria dizer. Trata-se de uma psicanálise ao contrário, na qual o texto suprime o subtexto. Se de um lado prevalecem as aparências, de outro exerce-se a censura dissimulada e em nome do bem.

Um abismo divide hoje a nação em duas margens diametralmente opostas e ideologicamente inconsistentes. Resta ao cidadão indignado protestar contra esse ou aquele sem saber exatamente porque. Em vez de esquerda e direita, a escolha deve ser entre aqueles que roubam e aqueles que não roubam –  sendo estes a grande minoria.

No fundo, a política é prima-irmã da paixão. Ambas, quando misturadas, geralmente fazem estrago. A explosão será em ignomínia e ignorância, desenhando um cenário trágico e confuso, no qual todos os atores gritam e quase ninguém tem razão.

Além dos lulistas que ululam, é também obvio ululante a ira dos bolsominions que se acham donos da verdade. Graças a tal radicalismo temos aí um governo macarthista, disposto a perseguir qualquer cidadão que use cueca vermelha. Há que se criar uma terceira via ou, como diria Guimarães Rosa, uma terceira margem política, pelo bem da nação.

“Grande parte da imprensa perdeu-se entre o ativismo e a efêmera torcida por esse ou aquele lado”Grande parte da imprensa perdeu-se entre o ativismo e a efêmera torcida por esse ou aquele ladoO atual estado de coisas resulta da falta de respeito e de civilidade entre os extremistas. Se de um lado um ministro da Fazenda se esforça em consertar o que recebeu em frangalhos e seu colega insiste em fazer Justiça, de outro jogam-se pedras a esmo, só por jogar.

Em vez de construir uma oposição propositiva, a turma da “resistência” faz de tudo para atrapalhar o país. No outro extremo, elementos do governo costumam tumultuar o quadro com declarações infelizes, muitas vezes irresponsáveis – a começar pelo próprio presidente e seus pimpolhos.

No meio do caminho há um clima de prorrogação. Um terceiro turno das eleições que já foram democraticamente encerradas. Militantes infantilizados de ambos os lados pouco ou nada contribuem para o avanço da realidade nacional.

Falta ao nosso homem público a vocação da grandiosidade. Afinal, quem seria hoje a reserva moral do país? Não há na pátria um só cidadão capaz de silenciar os idiotas e falar ao coração das massas? Nossa suprema corte mais parece uma passarela de egos num mercado persa do que propriamente a casa da Justiça. Até quando?

Para complicar a cena, grande parte da imprensa perdeu-se entre o ativismo e a efêmera torcida por esse ou aquele lado. Falta o contraditório nas denúncias e a consistência teórica na maioria das críticas. As redes sociais, enquanto isso, formam a grande Babel dos incautos a ecoar ofensas gratuitas.

O quadro que se pinta resulta da paixão cretina e cretinizante pela política no seu sentido mais rasteiro. Falta-nos a Política maiúscula de um Rui Barbosa. Do ponto de vista dos partidos e dos políticos (com raras exceções) o que temos hoje denigre a imagem do país diante do espelho.

*Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor, tem 44 livros publicados, o mais recente dos quais é ‘A Turma da Savassi’ (Editora Miguilim).

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