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04/05/2021 | domtotal.com

Espanha boicota estudantes brasileiros

Por causa da pandemia, novas restrições do governo interrompem até cursos de doutorado em universidades

Alunos estão proibidos de entrar no país por restrições sem data para serem suspensas
Alunos estão proibidos de entrar no país por restrições sem data para serem suspensas

Júlio Bonatti*

No último dia 20 foi publicada uma nova decisão do Conselho de Ministros espanhol prorrogando as proibições de voos procedentes do Brasil e da África do Sul. Desde o dia 3 de fevereiro deste ano começou a valer a primeira restrição mais severa imposta a esses dois países pelo governo espanhol, estando permitidos apenas voos destes países ocupados com cidadãos e residentes da Espanha ou de Andorra, bem como voos com escalas inferiores a 24 horas. Esse fato pode passar como mais uma medida governamental entre tantas outras promulgadas cotidianamente para conter o avanço do coronavírus. Todavia, se olharmos mais a fundo, vemos que ele suscita alguns questionamentos.

Entende-se perfeitamente a preocupação do governo espanhol com o perigo das novas cepas do coronavírus catalogadas como variantes brasileira e sul-africanas, embora seus casos detectados em solo espanhol sejam mínimos em comparação com a variante britânica. 

Certamente, poderíamos questionar que há mais interesse do governo espanhol em liberar a entrada de voos provenientes de países como o Reino Unido, Estados Unidos, entre outros, em comparação com os do Brasil e África do Sul, devido a critérios materiais que diferenciam a natureza dos próprios viajantes, uma vez que está em jogo um maior potencial financeiro para gastos em diversos setores da economia. Um dado curioso sobre isso é que o governo espanhol não prevê endurecer restrições a entradas de turistas da União Europeia.

Mas esse não é o ponto central que queremos chamar a atenção. O maior problema consiste em um verdadeiro desrespeito do governo espanhol para com cidadãos brasileiros e sul-africanos que necessitam viajar a Espanha neste momento e possuem autorização para isso. Cabe notar que mesmo outros cidadãos não-espanhóis, que porventura se encontrem nesses países, estão afetados por essas limitações. O fato de não haver uma data concreta para o término dessas restrições, já chegando à quinta decisão de prorrogação, impossibilita o planejamento adequado da vida das pessoas que estão no Brasil ou na África do Sul mas possuem compromissos essenciais das mais variadas naturezas para serem resolvidos em território espanhol. Cria-se uma situação de total indecisão e instabilidade, onde as pessoas que estão hoje no Brasil ou na África do Sul não podem organizar sua vida em seu país, pois estão em vistas de ir à Espanha, tampouco podem dar seguimento a seus planos e atividades, uma vez que as restrições não fixam uma data concreta.

A título de ilustração, trago aqui o meu caso específico. Sou aluno do curso de doutorado em Ciências Sociais na Universidade de Valência, possuo visto para estância de longa duração como estudante e já havia me programado, com passagem comprada e local reservado para ficar na Espanha no início de fevereiro deste ano, exatamente quando se iniciaram as novas restrições. Há diversas atividades acadêmicas que já estão acontecendo de forma presencial, principalmente disciplinas que constam como obrigatórias, das quais não poderei participar, o que afetará significativamente assim a minha formação na universidade. Enfim, há casos inclusive de cônjuges que estão separados por um dos companheiros não poder viajar devido a essas restrições.

Tendo em vista todas as medidas profiláticas de cuidado em viagens internacionais e mediante apresentação de teste RT-PCR negativo, sabemos que em muito se previne a transmissão do coronavírus, independentemente de suas variantes. Esperamos, portanto, que o governo espanhol possa rever o método das decisões dessas restrições impostas ao Brasil e à África do Sul, deixando de lado quaisquer possíveis resquícios de preconceito e, no mínimo, apresentando um cronograma de abertura com datas definitivas para que as pessoas desses países possam voltar a planejar suas vidas dignamente, a despeito de todo o contexto de pandemia global.

*Júlio Bonatti, 32 anos, é doutor em Linguística pela UFSCAR. Realizou uma parte do projeto como pesquisador visitante na School of Languages and Applied Linguistics da Open University, Inglaterra. Possui mestrado e graduação em História pela UNESP. Atualmente é pesquisador da área de Ciências Sociais na Universidade de Valência, Espanha, onde realiza sua segunda tese de doutorado. É membro da International Association for Discourse Studies.

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