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16/06/2020 | domtotal.com

Racismo e marketing

Banimento de 'E o vento levou' pela HBO Max cheira a jogada oportunista

Mammy, a ama-escrava, fala o que pensa e xinga o capataz de 'lixo-branco'
Mammy, a ama-escrava, fala o que pensa e xinga o capataz de 'lixo-branco'

Rosangela Petta*

Foi esquisito. Esquisitíssimo. Gerou enorme perplexidade, dentro e fora das redes sociais. Mas, para tentar entender a escalafobética decisão da HBO Max de retirar o clássico ...E o vento levou (1939) de sua grade de filmes, analisemos o calendário dos fatos, todos ocorridos neste insano 2020:

25 de maio: Um homem negro de 46 anos, George Floyd, agoniza e morre estrangulado por um policial branco que ajoelhou no pescoço dele numa rua de Mineápolis, estado de Minesota, Estados Unidos.

26 de maio: O assassinato covarde de Floyd gera uma cadeia crescente de protestos, que se expande mundo afora nas semanas seguintes. Pela primeira vez a revolta contra a opressão de brancos sobre negros e outras etnias alcança dimensão global e grita que não suportamos mais a aberração do racismo. Manifestantes chegam a derrubar estátuas de antigos traficantes de escravos (em várias cidades da Inglaterra), pichar o bronze de Padre Vieira (em Lisboa) e decapitar o mármore de Cristóvão Colombo (em Boston).

27 de maio: A WarnerMedia entra no mercado de streaming e lança para o público americano nova plataforma de filmes e séries, a HBO Max.

9 de junho: À noite, quinze dias depois do crime e treze após o lançamento da HBO Max, o jornal Los Angeles Times publica em sua versão digital uma carta enviada por John Ridley, roteirista premiado com o Oscar 2014 de melhor roteiro adaptado, por 12 anos de escravidão. Na carta (publicada na edição impressa no dia seguinte), Ridley saúda a estreia da HBO Max e, “como assinante e cineasta”, pede que ela retire ...E o vento levou de seu catálogo. O argumento, que soou desafinado para quem ama cinema, é de que o filme suaviza a condição dos escravos no século XIX e “romantiza os confederados” — grupo de grandes fazendeiros de seis estados do sul dos Estados Unidos, formado em 1861 para resistir à abolição da escravatura e à modernização político-econômica defendida pelos ianques do norte, presidente Abraham Lincoln à frente, levando à guerra civil da Secessão (1861-1865).

10 de junho: Menos de 24 horas depois da reclamação de John Ridley, a HBO Max anuncia que baniu ...E o vento levou de sua grade de opções. Replicando os argumentos do roteirista em nota à imprensa, avisa que o filme só voltará a ser ofertado aos assinantes quando puder ser acompanhado de uma revisão crítica da escravidão.

E, assim, a morte de Floyd e a onda de protestos parecem ter sido tomadas como oportunidade de marketing. Pois a atitude da HBO Max só faz sentido como calculada e oportunista jogada mercadológica.

Recém-chegada para tentar um naco do bilionário mercado do audiovisual em streaming — tarefa dificílima, onde há anos lidera a gigante Netflix, seguida por outras poderosas como Amazon Prime e Disney+ —, instantaneamente a HBO Max ficou conhecida não só por seu público-alvo inicial, mas em todo o planeta. Em menos de um mês de lançamento, o factóide da HBO Max já rendeu mais em propaganda e visibilidade do que poderiam imaginar seus executivos poucos meses atrás. Parece que pouco importou à empresa gerar suspeita de censura interna, desconfiança sobre o que pode vir mais adiante e, nesse imbróglio, até mesmo desviar o foco da verdadeira e legítima luta antirracista.

Até o cine-militante Spike Lee, professor da NYU, foi contra a retirada do filmeAté o cine-militante Spike Lee, professor da NYU, foi contra a retirada do filmeA carta de John Ridley e a ação da HBO Max, aliás, surgiram muito bem casadas. É só a gente se perguntar: se está tão convicto de que ...E o vento levou é racista e reacionário, por que Ridley pediu que fosse deletado apenas pela HBO Max e não por todas as outras plataformas que o disponibilizam, incluindo canais alternativos de filmes cult?

Tudo isso, na melhor das hipóteses. Na pior, Ridley e os bambambãs da HBO Max subestimam o público. Não acreditam que o espectador possa entender o contexto que a própria obra oferece ao construir seu universo ficcional. Desprezam o velho jogo do “era uma vez” em favor da realidade histórica. Presumem que estão mais capacitados para avaliar o que as pessoas conseguirão entender do que elas próprias.

Até o mais ativo cine-militante do combate ao racismo, Spike Lee, se pronunciou a favor da acessibilidade da audiência a ...E o vento levou, no programa The view, da FoxNews. Lee — que também ensina cinema na Universidade de Nova York — lembrou que exibe a seus alunos “o primeiro filme racista”, o longa Nascimento de uma nação (1915), que lançou a base da linguagem cinematográfica. E que seu premiado Infiltrado na Klan (2018) abre justamente com uma das cenas mais impressionantes de ...E o vento levou: a protagonista caminhando num campo de corpos mutilados, sob a bandeira confederada em farrapos.

O efeito da decisão da HBO Max, porém, foi atiçar a curiosidade: ... E o vento levou subiu para o topo de vendas do e-comerce da Amazon na semana passada, tanto o filme quanto o livro. Escrito por Margareth Michell e publicado em 1936, o romance, já na primeira frase, não deixa dúvidas quanto à ironia e ao tom de crítica da narrativa: “Kate Scarlet O’Hara não era linda, mas os homens não sabiam disso.” Já a ama-escrava de Scarlet, Mammy, não se furta a dizer exatamente o que pensa, a ponto de chamar o capataz da fazenda de “lixo branco” — um caráter bem menos pacífico do que afirma Ridley. De mais a mais, livro e filme jamais pretenderam tratar do flagelo da escravidão. Muito menos glamurizar o círculo de sinhôs e sinhás. Bem ao contrário: tal cenário serve somente como premissa do enredo, o desenho inicial de uma situação que sofrerá uma força contrária para que se estabeleça, como se diz na técnica literária, um conflito. O plot é , na verdade, um mundo que é destruído para dar lugar a uma nova (mas não perfeita) ordem social.

Se a dobradinha John Ridley-HBO Max foi mera coincidência (hum-hum, tá)... bem, mesmo assim, o caso é preocupante. Porque denota limitação cultural, falta acentuada de sensibilidade e de intimidade com o fazer artístico. Desse jeito, a manifestação de ambos é mesmo de espantar. Mas tem jeito de ser reparada. Podem se dar o trabalho de prestar mais atenção ao filme, até o fim de suas quase quatro horas de duração. Inclusive, já a partir do título que adianta o final da história: um vento de mudanças que varre, sem dó, o até então confortável modelo social, político e econômico de um bando de latifundiários provincianos e escravocratas. De quebra, ganharão o prazer de assistir à conjunção de elenco afiado, direção de arte, iluminação e fotografia icônicas, diálogos espertos e a verossímil construção de personagens demasiadamente humanos.

*Rosangela Petta, paulistana, é jornalista, consultora em comunicação e escritora. Em mais de 40 anos de imprensa, trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, revista IstoÉ e TV Cultura de São Paulo, entre outras. Foi professora de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

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