SuperDom Arte e Cultura

09/10/2020 | domtotal.com

Eterna chanchada

'Estranho país onde o fundo do poço é apenas uma etapa'

Um lugar onde políticos conspiram pelo progresso do subdesenvolvimento
Um lugar onde políticos conspiram pelo progresso do subdesenvolvimento

Marco Lacerda*

Na chamada ‘grande mídia’, a Globo foi a única a omitir-se na cobertura de mais um escândalo de plágio, dessa vez por conta do currículo fajuto apresentado por Kassio Marques como candidato ao STF. Varreu pra debaixo do tapete a notícia, amplamente divulgada no resto da imprensa e nas redes sociais, de que a dissertação de mestrado do desembargador, na Universidade de Lisboa, tem trechos inteiros copiados de artigos publicados na internet por um advogado.

Será que a tão falada dívida da emissora com o INSS interferiu na sua linha editorial? Agora sim a base eleitoral bolsonarista poderia bradar ‘Globolixo’ em alto e bom som nos quatro cantos do país. Mas não, pode ter mudado subitamente de postura e passará a chamar William Bonner de gatão e Renata Vasconcelos de gatinha manhosa.

A julgar pelo andar da carruagem entre os excrementos da política brasileira, não causará espanto se Bolsonaro e Rede Globo se associarem numa joint venture como aliados nas eleições presidenciais de 2022. A família Marinho faria piqueniques nos jardins do Palácio da Alvorada, enquanto o clã Bolsonaro praticaria tiro ao alvo contra as obras de arte do instituto cultural mantido pela família global no Cosme Velho.

Contrariados diante desse novo cenário, Edir Macedo, Damares e Everaldo fariam despachos em frente ao Palácio do Planalto, cantando ‘Brasil acima de tudo e Oxumaré acima de todos’. Com muita pinga, frango e farofa.

Os membros da linhagem 01, 02, 03 e 04 - os que não estiverem na cadeia - seriam promovidos a chefes de cozinha, respectivamente, do MacDonald´s, Burger King, Kentucky Fried Chicken e Pizza Hut. 

Pazuello reapareceria no Haiti como auxiliar de enfermagem de um hospital de campanha. Numa volta por cima espetacular, Carlos Alberto Decotelli retornaria à cena com uma série de workshops baseados na máxima: ‘Todo homem nasce original e morre plágio’. Com Joe Biden na presidência dos EUA, Weintraub seria rebaixado a office boy no Banco Mundial. Salles se converteria num intrépido boiadeiro numa das fazendas de Gilmar Mendes no Mato Grosso, até ser atingido no peito por uma flecha perdida. Paulo Guedes brilharia como chefe de contabilidade dos supermercados EPA, lendo Keynes escondido, pela centésima vez.

Ernesto Araújo seria nomeado embaixador do Brasil no Complexo do Alemão. Michelle passaria a mão nos R$ 89 mil depositados por Queirós e se exilaria num acampamento hippie na represa de Guarapiranga. Depois de causar mais estragos ao turismo do que o coronavírus – com aquela live épica, cantando ‘Ave Maria’ –, o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, partiria para a carreira solo com shows de patinação no gelo em países do hemisfério norte localizados no Nordeste do Brasil.

Agarrado ao seu patuá de urgências, Augusto Heleno sairia nu cantando a Internacional Comunista, em tupi-guarani, nas cidades-satélites do Distrito Federal, até cair dentro da cova onde estava sepultado há anos, antes de ser resgatado por Bolsonaro pra cantar ‘Palpite infeliz’ em cerimônias de gala e galinha no Planalto. 

Quanto a Bolsonaro, provavelmente venderia a alma pro diabo e com o dinheiro montaria uma barraca - em sociedade com Toffoli, Alcolumbre e Maia - pra vender cloroquina em alguma feira do Tajiquistão, comandado com mãos de ferro, há quase 30 anos, pelo colega Emomali Rahmon. E la nave va...

*Marco Lacerda é jornalista e escritor

Comentários