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06/04/2021 | domtotal.com

Governo Bolsonaro prejudica imagem do Brasil no exterior, avalia Guilherme Casarões

Política externa é marcada pelo alinhamento a Trump e declarações polêmicas deixaram o Brasil mais distante de suas tradições diplomáticas

A imagem internacional do Brasil no exterior sofreu abalos nos últimos anos.
A imagem internacional do Brasil no exterior sofreu abalos nos últimos anos.

O Brasil não vai passar a ser bem visto pelo mundo e nem a relação do governo com o chamado Centrão vai melhorar com a saída de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores. A afirmação é do cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Guilherme Casarões, em entrevista exclusiva ao canal O Planeta Azul.

A imagem internacional do Brasil no exterior sofreu abalos nos últimos anos. Parte disso é consequência de uma política externa que apostou num alinhamento automático com o governo Trump, potencializando uma polarização política que afastou nosso país de outras nações importantes.

A forma de tratar a pandemia também vem prejudicando nossa imagem internacional. A recente troca ministerial, que incluiu o alto comando das Forças Armadas, colocou um degrau a mais na escalada da crise política, segundo Casarões.


Uma política externa marcada pelo descarte do multilateralismo, pelo desmonte da antiga máquina burocrática do Itamaraty e por declarações que deixaram o Brasil mais distante de suas tradições diplomáticas e mais perto da diplomacia de países teocráticos do Oriente Médio foram as principais consequências do governo Bolsonaro até o momento. No longo prazo, os desdobramentos mais perenes da política externa dos dois últimos anos serão um Itamaraty "menor", com atuação diplomática fragmentada pelo país, e um incentivo ao preconceito contra chineses dentro do Brasil.

Para Casarões, Araújo era um dos responsáveis pela derrocada da imagem do Brasil no exterior. Mas o responsável, como é visto no exterior, é o próprio presidente Jair Bolsonaro. E essa imagem mudará pouco enquanto ele permanecer no governo.

Segundo o cientista político, o presidente sofreu uma derrota do na queda de braço com o Centrão. Houve um desgaste com esse grupo, que foi acelerada pela maneira como Bolsonaro conduziu as tensões criadas com a China. Mas, a demora na compra de vacinas e a condução da pandemia no Brasil pesaram muito no desgaste da imagem de Araújo.

Ao mesmo tempo em que o governo tentativa mudar a sua narrativa se dizendo preocupado com a pandemia, o chanceler seguia boicotando a entrada do Brasil no consórcio Covax.

Houve mudanças importantes, sob o ponto de vista do controle do executivo no governo. O general Braga Neto no Ministério da Defesa mantém a estreita relação do presidente com o comando das Forças Armadas. Na secretaria-geral da Presidência, que faz a articulação com o Legislativo, foi escolhida uma representante  do Centrão, a deputada federal (PL-DF) Flavia Arruda. Ela é casada com José Roberto Arruda, ex-governador de Brasília que foi condenado por corrupção após ser flagrado recebendo propina.

Para Casarões, no cenário internacional, o Brasil deve tomar cuidado, pois Bolsonaro foi o único líder mundial a apoiar publicamente e fazer campanha para Trump, que perdeu as eleições. O presidente eleito, Joe Biden, vê o Brasil e Bolsonaro com desconfiança. E o mais preocupante, com a atual condução da pandemia, das políticas ambientais que entram em conflito com o mercado e a política internacional, o Brasil pode facilmente entrar na lista de "inimigo externo" dos EUA, uma figura historicamente usada pelos governantes norte-americanos para justificar diversas medidas de bloqueio econômico.

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