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08/04/2021 | domtotal.com

O vírus da tristeza infecta os jovens

A pandemia provocou uma queda geral no moral, especialmente entre as mulheres e os jovens

Para as pessoas com saúde mental já debilitada, o impacto da epidemia é dramático
Para as pessoas com saúde mental já debilitada, o impacto da epidemia é dramático

Elsa Sabado*

“A situação está saindo do controle. O telefone não para de tocar. Na semana passada, ainda tive que redirecionar três ou quatro pessoas para outros colegas”, conta Claire, psicóloga em Poitiers, na França. E isso vem acontecendo desde outubro. Um efeito colateral do sucesso da série “En thérapie”? Infelizmente, as causas parecem ser mais profundas: a pandemia teve um efeito prolongado sobre o moral da população.

Um amplo estudo sobre a saúde mental dos franceses que compreende o primeiro confinamento, realizado pelo Inserm (Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale) e cujos resultados acabam de ser publicados pela DREES (Direction de la Recherche, des Études, de l'Évaluation et des Statistiques), mostra o seguinte: a depressão é geral. Em maio de 2020, 13,5% das pessoas com mais de 15 anos apresentavam síndrome depressiva, contra 10,9% em 2019 e 7,3% em 2014.

Perda de interesse em fazer as coisas, tristeza, dificuldades para dormir, dificuldades de concentração: alguns dos sintomas que constituem a síndrome depressiva aumentaram na população. “Todos os meus pacientes dizem que o moral não está bom. Mas para quem já estava doente, as coisas são ainda piores”, resume Céline Charbit, clínica geral do subúrbio de Lyon.

Claire não diz outra coisa: “As síndromes depressivas estão sempre ligadas a um problema interno do paciente que já existia antes da pandemia. Mas a Covid disparou os sintomas”. Em questão, o fim dos subterfúgios como as férias, as saídas com os amigos para beber, o esporte.

“As pessoas ficaram frente a si mesmas: onde estou com meu trabalho, com minha vida amorosa, com meu papel de pai. E isso pode ter sido muito difícil”, continua a psicóloga Caroline Hoffstetter.

A impossibilidade de se projetar e as incertezas quanto ao futuro também são suspeitas de serem a fonte desse oceano de lágrimas.

Outra pesquisa com clínicos gerais no período de novembro a dezembro parece confirmar o desconforto: 72% dos entrevistados acreditam que os pedidos de cuidados para estresse e ansiedade ou transtornos depressivos são mais frequentes do que antes da epidemia. Proporção que aumentou em relação a meados de abril de 2020, data de uma pesquisa anterior sobre o mesmo assunto, “o que talvez reflete a persistência de um acentuado sofrimento psíquico na população em geral”, sugere o estudo.

Jovens e mulheres na linha de frente

“O hospital-dia que eu frequentava diariamente fechou. Meu ritmo mudou completamente, eu dormia entre 6 e 15 horas. Eu não podia mais ver meu psicólogo, e meu psiquiatra apenas uma vez por semana. Isso me deixou deprimido novamente e tive que voltar ao hospital durante dois meses”, explica Stan, na casa dos trinta anos.

“Tive um câncer de mama em 2019. Terminei a quimioterapia em janeiro de 2020 e parei de tomar os antidepressivos. O início do confinamento foi difícil. Eu estava sozinha em Paris, sem poder ver meus pais, muito idosos e, portanto, em risco, eu mesmo em risco e recebendo a RSA (renda de solidariedade ativa). Mas foi o segundo confinamento, em novembro, que me levou a retomar a medicação, porque a solidariedade existia muito menos do que no primeiro confinamento”, testemunha.

A pesquisa do Inserm também mostra que os jovens foram os mais afetados por este surto de sintomas, em particular com a duplicação da taxa de pessoas com estado depressivo entre 15-24 anos de idade entre maio de 2019 (10,1%) e maio de 2020 (22%). Outra pesquisa, Coviprev, indica que esse alto nível de depressão persiste entre os jovens de 18 a 24 anos na época do segundo confinamento, após diminuir durante o verão. E mesmo que seja menos pronunciado, encontramos a mesma tendência entre as pessoas de 25 a 44 anos.

“Esta prevalência de síndromes depressivas entre jovens estudantes ou não pode ser explicada pelos problemas de emprego e de precariedade financeira, porque os “bicos” realizados pelos jovens no início da vida profissional foram os primeiros a desaparecer. Soma-se a isso o fato de morarem mais frequentemente sozinhos, em espaços pequenos, e de modo geral ainda não estarem muito envolvidos em grupos de trabalho ou associativos, por exemplo. Os jovens estudantes sofreram o fechamento total da universidade”, explica Rouquette.

A depressão entre os jovens se assemelha a um tsunamiA depressão entre os jovens se assemelha a um tsunamiEntão Sacha, estudante em L3 de história [um ano de aprofundamento], viu-se afundar desde o início do ano letivo. “Eu estava em um ensino a distância ininterrupto. A gente não se dá conta dos repousos que constituem os intervalos entre as aulas e as discussões no final do dia. A carga de trabalho se acumulou, me preparei para os exames como uma imbecil, me empolguei e em janeiro meu corpo disse pare. Minhas costas simplesmente enrijeceram. A médica diagnosticou um burnout e me segurou por mais três semanas”, disse Sacha. “Normalmente, quando o moral de um de nós está baixo, os amigos estão sempre lá para motivá-lo. Aí eu vi tantos amigos ficarem deprimidos ao mesmo tempo, abandonarem a escola e começarem a tomar remédios”.

“Os estudantes que recebo têm o sentimento de usurpar seu lugar e se perguntam quanto vale seu ano, seu diploma”, testemunha Claire, que tem grande parte dos pacientes estudantes.

or outro lado, as pessoas entre 45-65 anos viveram melhor o período, ajudadas, sem dúvida, segundo Alexandra Rouquette, por uma inserção mais sólida na vida profissional e social, e por menos incertezas financeiras devido às medidas do governo. Da mesma forma, embora se pudesse temer o seu isolamento, os maiores de 65 anos não sofreram, caso acreditarmos na pesquisa do Inserm, de grande depressão. “Devemos acreditar que o confinamento também provocou um estreitamento dos laços familiares e da solidariedade”, pensa.

Os dados são baseados em respostas individuais sobre a frequência com que o entrevistado foi incomodado nos últimos quinze dias por diferentes problemas, referindo-se a sintomas clínicos de depressão. Esses sintomas são: falta de interesse ou prazer em fazer as coisas; tristeza, depressão ou desespero; problemas de sono (insônia ou hipersonia); fadiga ou falta de energia; perda de apetite ou comer demais; baixa autoestima; dificuldades de concentração; lentidão psicomotora ou, ao contrário, agitação.

Uma pessoa é detectada como tendo síndrome depressiva se relatar ter sido incomodada por pelo menos dois dos oito problemas mais da metade ou quase todos os dias, e quando ao menos um desses sintomas é um dos sintomas marcadores do episódio depressivo caracterizado (“pouco interesse ou prazer em fazer as coisas” ou “tristeza, depressão ou desesperança”).

Segunda categoria da população particularmente afetada por este aumento das síndromes depressivas: as mulheres, das quais 15,8% sofreram desta melancolia durante o primeiro confinamento, contra 11% dos homens. A taxa chega a ultrapassar os 25% entre os de 15 a 24 anos, ante 10% em 2019.

“As mulheres geralmente são mais propensas à depressão. Mas a crise sanitária ampliou o fosso em relação aos homens, de 3,2 para 4,8 pontos percentuais. Podemos lançar a hipótese de que isso esteja relacionado ao aumento da carga mental ligada à necessidade de cuidar dos filhos durante o teletrabalho, ou à exposição permanente às violências domésticas”, avalia a pesquisadora.

Psicotrópicos em alta

Outros fatores estão associados às síndromes depressivas e são específicos da crise econômica e sanitária: ver a situação financeira se deteriorar (especialmente quando o padrão de vida já era baixo), morar em um apartamento sem varanda ou ter morado fora de seu local habitual de residência (um quarto das pessoas nesta situação apresentava sintomas de depressão).

Outra sentinela da saúde mental é o consumo de medicamentos psicotrópicos. 10% das pessoas entrevistadas pelo Inserm declararam consumir tais moléculas durante o confinamento; destas, 11% (ou cerca de 1% da população total) dizem que nunca o fizeram antes. O sistema nacional de dados de saúde também confirma que os ansiolíticos e os hipnóticos também foram prescritos e consumidos com mais frequência durante e após o desconfinamento do que antes.

Este é, para a médica Céline Charbit, o indicador mais revelador. “Retomamos ou mantivemos os tratamentos com pacientes que os interromperam ou pensaram em interrompê-los”. O consumo de álcool, por outro lado, manteve-se estável.

Diante deste mal-estar vital dos jovens que agora parece se assemelhar a um tsunami, Emmanuel Macron anunciou a criação, no dia 21 de janeiro, de um “Cheque de Apoio Psicológico” destinado a estudantes e que financia três sessões de 45 minutos de até 30 euros por sessão. A Federação Nacional da Mutualidade Francesa anunciou no início de março que suas organizações logo se encarregariam de quatro consultas por ano, de até 60 euros. Essa criatividade política atesta uma necessidade social cada vez mais premente, e à qual o sistema de atendimento psiquiátrico francês não está adaptado.

*Reportagem é de Elsa Sabado para Alternatives Économiques. A tradução é de André Langer

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