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06/05/2021 | domtotal.com

Crônica de um adeus proibido

Só os muito próximos se despedem do ente querido, cujo corpo precisa sumir do mundo o mais rápido possível

O luto daqueles que perderam amores, muitas vezes sem direito a um adeus sequer
O luto daqueles que perderam amores, muitas vezes sem direito a um adeus sequer

Fernando Portela*

Morrer é desagradável, mas o ritual que se segue poderia compensar.

Amigos, sócios, colegas, fãs jamais perdoariam o falecido e sua família, se saíssem à francesa. É preciso despedir-se da pessoa querida ou importante por meio de um evento, divulgá-lo, e até desfrutá-lo. Vinte e quatro horas, no mínimo, de um adeus comovido. Às vezes, socialmente obrigatório. 

Mas hoje, com a catástrofe da Covid 19, todos os adeuses estão proibidos. Só os muito próximos se despedem do ente querido – cujo corpo precisa sumir do mundo o mais rápido possível. 

Cemitérios lotados, mas covas quase desertas. Velórios? Talvez nos crematórios, com algum tempo de espera que o caixão desça, ao som de ave-marias ou similares.

Marido, mulher, filhos etc., perplexos, violentados. E alguns comprometidos para sempre na sua saúde mental.    

O ausente talvez nem ligasse para ritos ou despedidas chorosas, mas todo um extenso grupo social de suas ex-relações, discordariam. E, na circunstância, é esse grupo que manda.

Naquele momento único, o extinto é o principal personagem da trama: fez surgir uma viúva ou viúvo; um ou mais órfãos; deixou na incerteza empregados e colaboradores; obrigou credores e devedores a recálculos; consternou relações emocionais eventualmente secretas. Desestruturou. Provocou. Sublevou. Ou trouxe a paz, em vários casos.

Por tudo isso, ao longo da história da humanidade, é preciso atilar, da forma mais sábia possível, ao desfecho de uma vida. 

Agora não, com milhares e milhares de brasileiros: é correr de um hospital ou de casa para um cemitério, com passagem por um velório curtíssimo, o mais rápido possível. Caixão fechado, obrigatoriamente. Toques físicos, beijos na testa, interditados. Distanciamento social indispensável: todos a alguns metros do caixão, na não-cerimônia relâmpago.

Mariza Leite da Costa, psicoterapeuta psicanalítica, acentua o absurdo do drama:

“A separação da pessoa querida pela morte, a realidade da perda, a consciência de que aquela pessoa, antes parte da nossa  vida, já não existe mais no mundo externo, acontece realmente no enterro ou cremação.

E assim, a dor da perda, a entrada no período do luto, que pode durar muito tempo, precisam ser choradas, faladas, divididas nos rituais do velório, com outras pessoas queridas, em especial as que também já sofreram perda semelhança. Aí se inicia o árduo trabalho emocional da aceitação da ausência física e a paulatina descoberta de que somos capazes de carregar os mortos queridos, vivos  dentro das nossas mentes.”

Mas, se nada disso acontecer, e as pessoas queridas sumirem da nossa vida de forma abrupta? Como os sobreviventes conseguiriam organizar-se mentalmente?  

A terapeuta responde:

“Na  complexidade da dor mental, o trabalho do luto pela morte de um ente querido começa pouco depois da partida. Cenas da eventual doença, ou da morte súbita etc., começam a ser revividas, podendo desencadear sentimentos de culpa, negação. Podem ser depressivos, maníacos e provocar o isolamento.  As pessoas têm necessidade de descarregar, por meio do pranto, das palavras, sua dor pela perda real sofrida, e, nesse processo,  a presença de sobreviventes reais e a ajuda recebida do mundo externo, são imprescindíveis para o restabelecimento dos processos de recriação - e a esperança retorna.

Mas, se o isolamento e o viver em um mundo artificial e irreal predominam, a aflição da perda, o desespero, o caos interior podem alcançar seu ponto culminante.”

Em suma, se somos proibidos de nos despedir dos seres amados, podemos adoecer e até morrermos simbolicamente.

Toques de fada

Vamos, então, recordar nossos adeuses aos entes queridos antes da pandemia. E sentir, até, por que não?, saudades deles. Com o fim da tragédia mundial, certamente estarão de volta, por exigência da nossa própria humanidade.

Antigamente (como se menos de dois anos fosse um passado longínquo), o adeus mais ou menos definitivo de alguém era, claro, muito diferente de um lado do mundo para outro, variando conforme a cultura, a ideologia, o interesse... Poderia durar menos de 24 horas, assim como se estenderia por um ano inteiro, caso de algumas tribos indígenas brasileiras; poderia custar quase nada ou milhares de dólares. O ponto comum, universal, é que aquela despedida não deixaria de ser feita, com cerimônia simples, complexa, pobre, rica, como for, a fim de manter nossa estrutura psicológica.

Vale a pena relembrar o que faziam os japoneses, por exemplo. O invólucro do falecido era preparado sob as regras da tanatopraxia, técnica de acondicionamento dos corpos, cada vez mais difundida no Ocidente. Com a extrema delicadeza que caracteriza muitos aspectos de sua cultura, os técnicos japoneses manuseavam o ente como se moldassem origami. Diante da família, purificavam e maquivam o eterno adormecido até torná-lo mais belo do que em vida e – por que não? – atraente.

(Há um filme de dez anos atrás praticamente sobre esse assunto: “A Partida”.)

O produtor de arte e cultura Jo Takarashi, que por 30 anos dirigiu o setor na Fundação Japão, de São Paulo, não entende de morte mas é professor de estética. Diz ele que para não ficarem no plano da realidade, “que é crua e sem arte”, as pessoas se entregam às cerimônias. “E os japoneses são craques nisso”.

“É preciso alavancar aquela realidade ao plano ficcional, um passaporte de sublimação das emoções. ‘Kata’ é o nome que se dá às formas, às formalidades de todas as cerimônias japonesas, que vão do chá ao judô. É palavra homófona de ‘katari’, o narrador, o interlocutor, o mestre de cerimônias, ou seja, no caso da morte, do embalsamador. O ‘noukan-shi’, o maquiador de cadáveres   do filme ‘A Partida’ é, por assim dizer, um mestre de cerimônias, que veste e prepara o falecido para a grande viagem; e a maquiagem é aquela que melhor cairá àquele corpo; elevará sua dignidade e o proverá para novas andanças - estratégias de ressurreição que só acontecem no plano ficcional”.

“No passado”, esclarece Jo, “eram os familiares que se encarregavam desse trabalho. Hoje, há um ‘mercado da morte’, próspero e de grande profissionalismo (à espera do fim da pandemia). “Segundo a imprensa japonesa, gera US$ 20.000 por defunto”.

O rito, ainda segundo Jo Takarashi, “é mais forte do que o fato da morte em si, que é fato consumado. O cerimonial continua gerando vida, economia, empregos, ilusão, ficção e é o que parece importar, de fato, aos que ainda estão vivos”.

Pegar e beijar

(Contardo Calligaris, psicanalista italiano, escritor, colunista, agitador cultural, o chamado “homem do mundo”, há décadas morando no Brasil, estava muito vivo e descontraído quando deu essa entrevista. Contardo morreu de câncer há alguns meses, sob choro intenso de seus muitos admiradores. A minha intenção era sair um pouco da estética oriental – enfim distante – e encarar a latinidade. Nesse caso, peninsular, emotiva, gestual.)

Contardo falava sobre o trato do morto no Brasil, estranhando um pouco a extrema rapidez (atenção: pré-Covid) com que o “problema” era resolvido por aqui.

“O velório é rápido demais. Quem leva a culpa é o clima. São desculpas”.

O enterro, então, é num já, ele achava. E aí Contardo voltava à Itália, aos lutos que testemunhou em família.

“Não me lembro de menos de 48 horas de vigília diante do morto. Eu sempre consegui me despedir de todos os membros da família que se foram. O velório era feito no quarto da pessoa – ou melhor, em cima da cama. O corpo era lavado pelos mais próximos. Com um pano úmido, em geral perfumado. Se fosse homem, era vestido com seu melhor terno e sapatos; camisa social e gravata. Não se compara ao belo ritual dos japoneses, nos cuidados do toque no corpo. Mas eu tocava. Mais do que isso: beijava os meus mortos”.

O psicanalista lembrava algo mais ou menos óbvio de que talvez não nos tenhamos dado conta, já que nossas recordações de velórios são muito doídas ou constrangidas.

“Quando está sendo velado, o morto ainda não partiu. Só vai mesmo à hora de fechar o caixão. É por isso que o rito - e o tempo do rito, sobretudo - são tão importantes. No Brasil, a despedida é empurrada pra frente, para o futuro sem o morto. Não sei se funciona. Acredito que não”. 

Contardo ia além da cerimônia final de despedida. Acreditava em um luto melhor trabalhado, psicologicamente, quando a memória do que se foi é estimulada por fotografias espalhadas pela casa, além de objetos que pertenceram ao finado.

“Ele estará associado ao passado e é mais saudável que não se tenha medo do passado”.

O psicanalista também achava estranho que as pessoas tenham medo dos mortos. Dos seus e dos outros. Os falecidos voltariam para nos assustar. Ora, ora.

“Eu adoraria que minha mãe e meu pai voltassem. Por que uma ideia assim é aterrorizante? Deveria ser prazeroso conversar com eles. No entanto, o medo é maior. Bem. Haveria explicações antropológicas para esse pavor. Os estruturalistas diriam que a oposição vida versus morte é forte demais. Será?”

Tanta alegria, quanto riso

A Itália repete, com maior intensidade, o que ocorre em toda a Europa rica. 

A tradição suíça, por exemplo, mantinha o corpo na casa, mais precisamente na sala, durante três dias. (Há velórios profissionais, que poderão ser a regra no futuro).

O clima ajuda tão longa exposição. As pessoas vão e vêm. Beliscam um salgadinho, tomam um vinho. Alguns ficam mais tempo. O vinho sobe à cabeça. De repente, uma risada. Outra e mais outra. Não há desfeita. Se não gostassem do morto e não o respeitassem, não estariam ali.

Uma outra forma europeia de dar adeus ao ente querido é a sala hiperrefrigerada do hospital onde o corpo permanece à disposição dos visitantes, com hora marcada. Nesse caso, há os que ficam uma semana. Vinho e acepipes. Um soluço aqui, outro ali. Nas conversas em voz baixa, haverá risos contidos, também.

Após o enterro ou cremação, algumas famílias recebiam a parentela e os amigos para jantar (ou jantares) em homenagem ao viajor. O evento(s) poderia(m) ocorrer na casa ou em espaços ecumênicos. Sempre obedecendo a uma natural hierarquia: no caso de vários jantares, primeiro são recebidos os familiares mais próximos e amigos muito íntimos; depois, os conhecidos. O convite é feito em papel nobre com letra trabalhada. Pessoal e intransferível.

Nessas ocasiões, pode-se diversificar a oferta de bebidas e, sem a presença teoricamente inibidora do falecido, os sorrisos, risos, aplausos, brindes e até vivas são bastante comuns. Mais uma vez, não há o menor desrespeito.

Claro que a extensão das despedidas com bufê depende das posses da família. Sem poder aquisitivo, ficaríamos apenas com os petits fours e um vinhozinho – álcool é que não pode faltar.

Na Europa nem tão rica, como em uma igreja ortodoxa nos arredores de Moscou, por exemplo, quem não conhece os costumes e olha de longe, poderia imaginar a ocorrência de uma feliz reunião no templo. As pessoas se vestem com muitas cores e entoam cânticos de quase alegria. As babuchkas, então, parecem  exuberantes nos seus trajes típicos. O visitante, tentando descobrir qual é o rito, entraria na igreja e acabaria tocando no caixão do ente querido. Ele ainda observará que ninguém usa preto. Ali não há tragédia. E até a tristeza se disfarçava de sortilégio.

Uma refeição cerimonial

Trabalhar os mortos é especialidade de índio. Quem não viu e reviu filmes sobre o Quarup, o ritual que acontece em várias tribos da região do Alto Xingu, entre julho e setembro, todos os anos?

É um evento coletivo em que todos os mortos do período são chorados e homenageados. A preparação do ritual leva quinze dias para juntar alimentos e preparar objetos. Participam centenas de índios. Há danças e lutas corporais, saudando os convidados.

O Quarup é a cerimônia fúnebre mais plástica e teatral de todas, mas está longe da dramaticidade do ritual fúnebre dos antigos Pakaa-Novas, índios de Rondônia e da nossa fronteira com a Bolívia. Até os anos 1960, quando ocorreu o primeiro contato com os brancos, os Pakaa-Novas, também conhecidos como Warí, comiam seus mortos. Literalmente.

Aliás, para o Pakaa-Novas a morte era um processo. Se o futuro manjar estivesse muito doente, iniciavam-se os cantos fúnebres antes do arremate, quando os parentes lembravam, chorosos, os feitos do enfermo. Ocorrido o desenlace, o corpo era separado em pequenos e delicados pedaços, sendo imediatamente moqueados e servidos, acompanhados de porções discretas de algo próximo a pamonha assada.

Os parentes mais distantes iniciavam o ágape. Delicadamente. Nada de pegar o alimento com as mãos e muito menos de abocanhá-lo sem modos, como se fosse caça qualquer. Deveria ser espetada em pauzinhos e levada a boca com polidez, urbanidade.

Após o rancho, todos os parentes iniciavam um trabalho bastante criativo: transformar, fisicamente, a fachada e a organização interna da casa do morto, além dos locais que ele gostava de visitar. Tudo isso para que o espírito não se localizasse, caso caísse na tentação de voltar à Terra.

A “pacificação” da tribo, há 50 anos,  fez com que, hoje em dia, os Pakaa-Novas apenas enterrem seus mortos. Os jovens da tribo parecem conformados com ritual tão pobre, que os índios mais velhos consideram absoluta falta de respeito. 

Quem tem medo deste assunto?

Fugindo um pouco dos rituais: há mesmo preconceito do tema morte?

Nem tanto. Hoje, temos na praça uma psicóloga superespecialista no assunto, Maria Helena Pereira Franco. Ela é professora de graduação na PUC (a disciplina chama-se “Morte e Luto”), além de ministrar, na pós-graduação, a matéria “Pesquisa e Clínica do Luto”. A psicóloga foi a primeira brasileira a ostentar o título de doutora em Psicoterapia de Pessoas Enlutadas. Não é pouco.

Mas não foi fácil, no começo; é que, no Brasil, não havia literatura do  assunto.  Aí Maria Helena partiu para a Inglaterra. E descobriu o St. Christopher’s Hospice, ou seja, o futuro do setor.  Lá, também conheceu seu mentor, o psiquiatra Colin M. Parkes, de quem é tradutora exclusiva no Brasil.

O St. Christopher’s Hospice é um centro-referência em cuidados paliativos. Lá, os enfermos graves são atendidos por equipes multiprofissionais que se dedicam a minorar todas as dores, físicas ou psíquicas, dos próprios doentes e de seus familiares.

Porque, na verdade, o luto começa muito antes do óbito.

E nem todo luto tem a ver com um óbito real, segundo a doutora Maria Helena. Numa entrevista à repórter Janete Leão Ferraz, da revista Isto É, a psicóloga respondeu assim à pergunta sobre outras perdas – além da morte - que provocam luto:

“Toda perda gera luto. O divórcio, a aposentadoria, a imigração, a mutilação, o aborto, a menopausa, a impotência”.

Bem. Aborto, mutilação, divórcio fazem sentido. Mas... imigração?

Maria Helena emendou:

“As pessoas chegam a um novo lugar, perdem suas raízes, sua identidade e sua independência”.

(Seguindo esse raciocínio, “mortos” também estariam os pais que são afastados de seus filhos por iniciativa de um dos cônjuges – acontecimento cada vez mais comum entre nós. Os filhos, sobretudo eles, sobrevivem aos pedaços, nos depoimentos do documentário “A Morte Inventada – Alienação Parental”, dirigido por Alam Minas.

A chamada "síndrome de alienação parental" ocorre quando um cônjuge resolve programar sua própria criança, de quem possui a guarda, para odiar o outro genitor, “matando-o” na mente infantil. 

É mesmo um verdadeiro assassinato. Falsas memórias são implantadas nos pequenos, inclusive com mentiras a respeito de abusos sexuais que jamais ocorreram. As crianças, no entanto, são de tais formas manipuladas que chegam a confirmar a falsa violência diante de qualquer juiz. A maioria dos juízes, por sinal, diante de denúncia tão grave, afasta imediatamente a criança do cônjuge acusado. Pode até desconfiar de calúnia. Mas, se for verdade?

É a “morte” de luto mais complexo, até porque a criança – órfã de pai ou mãe vivos - também “morre”. Anos depois surgirá como um insano qualquer, abusador, manipulador. Um morto-vivo). 

O conceito de morte e luto, portanto, pode ser bem mais extenso e, seguramente, muito mais doloroso.  

Como diz Maria Helena, “a morte é um processo e não se deve dar atenção apenas à sua hora”.

O fato é que não sabemos, ainda, como encará-la com a necessária serenidade. Estamos falando da morte em si, independente do credo que se tenha.

Segundo a psicóloga, até alguns profissionais de saúde, incluindo médicos, não vivem hoje o pós-moderno, mas o pós-humano. Parecem confiar exclusivamente na tecnologia (leia-se máquinas) para o trato de pacientes terminais. Por isso, encaram o morrer como um imenso fracasso. Deles, que não tiveram capacidade de salvar o paciente; e do morto, incapaz de reagir à sua medicação.

Há quem diga que a atual banalização da morte, herança da Covid 19, em que pessoas viram apenas números, estender-se-á a um futuro sem pandemias. Especulações, apenas.

Importante é o conceito de que a morte não traz fracasso. Nem punição. Nem nada. Deve-se apenas realizar o luto, em paz e sem pressa.   

A vida descontinua.

*Fernando Portela é escritor e jornalista. Um dos fundadores do mítico Jornal da Tarde, de São Paulo, vive intensamente os dois papéis há muitos anos. Publicou dezenas de livros, o último dos quais é “A Velha Chama e a Negra Solidão”.  

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