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09/05/2021 | domtotal.com

Dia das mães sem Dona Hermínia

Mais que uma peça, ela será para sempre a mãe favorita do Brasil

Dona Hermínia é a mãe-síntese, mescla de todas as outras e única ao mesmo tempo
Dona Hermínia é a mãe-síntese, mescla de todas as outras e única ao mesmo tempo

Alexis Parrot*

Marcelina, Juliano e Garib não vão almoçar com a mãe neste domingo. Infelizmente e a contragosto, Dona Hermínia não poderá mais estar com os filhos. E nem conosco.

Para aumentar a covardia, foram roubá-la assim de nós tão perto do dia das mães, sem nem direito a adeus.

Esta mãe era uma peça, era três filmes, era os monólogos do programa de TV, era o carro abre-alas de uma coleção de personagens memoráveis e cartão de visitas principal de seu criador. Era também a pedra fundamental de um bem-sucedido império de negócios que arrastava para a prosperidade qualquer um que a ele se associasse.

Sem precisar do suporte de uma igreja evangélica para pagar os ingressos do público, foi ela quem mais levou gente aos cinemas no país com seu terceiro filme. O visual incrementado pelos eternos bobs de cabelo envoltos por um lenço era o retrato fiel (e, porque humano, risível) do desapego em nome do outro. Em última análise, representava o amor que chamamos de materno; fiador seguro para justificar as maiores idiossincrasias e arroubos.

Nos versos de Canción tonta, García Lorca vai no cerne da questão ao imaginar um diálogo entre mãe e filho. Este afirma querer ser de prata e ela retruca: "terás muito frio". O menino segue e diz então preferir ser de água, fazendo com que a mãe repita o veredicto. Vencido, pede, afinal: "Borda-me em tua almofada." Sem pestanejar, a mãe aproveita a deixa para lançar o derradeiro bote, dizendo "isso sim! Agora mesmo!" Pelo jeito, a mãe de Lorca também era uma peça - mas qual mãe não é?  

Dona Hermínia era essa mãe síntese, mescla de todas as outras e única ao mesmo tempo. Construiu seu reinado evitando o peso do arquétipo e se mantendo distante do inferno do estereótipo. Era lapidar nas observações que fazia da vida e das coisas; complacente sem ser coruja, crítica sem ser cínica, destemperada sem perder a ternura.

Da janela do apartamento de Niterói, via o mundo pela ótica da classe média, essa fatia social cheia de falhas e de gente tão autocentrada. Como quem não quer nada, parecia rir de si mesma só para denunciar todas as nossas contradições. Encarnava os pecados e preconceitos da solene família brasileira e os desconstruía um a um com a facilidade de quem derruba um castelo de cartas.

Dona Hermínia era, sobretudo, o talento e carisma de um artista que nos olhava nos olhos para existir. Exercitava uma crítica de costumes popular e politizada, porém, camuflada por um verniz de banalidade e desimportância que nos deixava à vontade e à sua mercê.

Dona Hermínia era Paulo Gustavo, vítima fatal de uma doença inclemente que assola o mundo; transmitida sim por um vírus, mas potencializada pelo descaso e incompetência das autoridades mais graduadas dessa república de comorbidades em que vivemos, cada dia mais esfacelada.

Alvo de homenagem mais que merecida, Paulo Gustavo vai virar nome de rua em Niterói, a cidade que ele nos ensinou a querer tão bem. Já Dona Hermínia, foi se encontrar com a querida Tia Zélia. Dentro de algum tempo, começarão os relatos de que foram vistas passeando juntas no Campo de São Bento, no calçadão de Icaraí ou comprando peixe no Mercado São Pedro.

Apesar das saudades, Marcelina, Juliano e Garib seguirão com suas vidas. De tempos em tempos, se reencontrarão com as tias Iesa e Lucia Helena para lembrar da mãe. Carlos Alberto, o ex-marido, estará com eles em algumas dessas ocasiões. Um dia, se darão conta daquilo que todos nós já sabemos.

Mais que uma peça (um filme ou um personagem), Dona Hermínia será sempre a mãe favorita do Brasil. 

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista

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