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21/07/2021 | domtotal.com

Para a literatura, o novo não basta

Chega ao mercado editorial a revista Piparote, em versão impressa e on-line

O ator e diretor Roberto Cordovani assina artigo sobre Virginia Woolf na edição de estreia da revista Piparote
O ator e diretor Roberto Cordovani assina artigo sobre Virginia Woolf na edição de estreia da revista Piparote

Júlio Bonatti*

“A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus” – Machado de Assis

A Revista Piparote surge num contexto determinado pelo sentimento estético instantâneo das plataformas digitais. Ao mesmo tempo que busca ganhar espaço na materialidade do virtual, ocupando as mídias hegemônicas, reivindica também o domínio do impresso.

Para a literatura o “novo” não basta. Esta primeira edição da Revista Piparote, portanto, se presta a uma função híbrida, de manter viva a prática de leitura dos textos em seus mais variados contornos atuais, porém apresentando-se igualmente em formato físico, na tentativa de dizer que a arte está além daquilo que se pode tocar apenas com a ponta dos dedos na tela de um dispositivo eletrônico.

Das mãos que constroem a revista, tivemos a participação de autores e autoras nacionais e internacionais. Dentre os gêneros textuais que compõem esta edição, encontram-se poemas, traduções, contos, crônicas, ensaios e peças de teatro.

Há um destaque especial na Piparote à dramaturgia, tipo de escrita muitas vezes negligenciado por periódicos literários semelhantes publicados no Brasil. Nesse ponto, o presente número conta especialmente com a adaptação do romance “Orlando”, de Virgínia Woolf, feita pelo ator e diretor Roberto Cordovani, e com o monólogo “Via de Regra” da escritora e tradutora Christine Röhrig.

Salienta-se também aqui os ensaios críticos da poeta Rebeca Gelse, como: “Panorama da Literatura Infanto Juvenil”, “De Lobato a Ziraldo e o valor da imagem” e “Diversidade de recursos e gêneros atende a públicos diferentes”. De ensaios também temos os textos do linguista Júlio Bonatti, que participa com “Para gostar de filologia: um pequeno piparote” e “Política da Memória”, além de “A linguagem como descrição e desvio”, do escritor mineiro Plínio Fernandes Toledo.

A seção de poesia está servida com diversas participações internacionais, dentre elas, três poemas inéditos do escritor português Rui Tinoco; poemas do livro inédito "Osso Vazio", do poeta chinês Chiu Yi Chih; e poemas do escritor mexicano Jorge Vargas. Dos poetas nacionais, destacamos três que tematizam o trabalho, do poeta Luis Marcio Silva, que também traduz e traz à Piparote alguns poemas de Federico García Lorca, tematizando um século de sua poesia; seis poemas inéditos da escritora Elizabeth Hazin; os “Poemas de quarentena”, da poeta Ana Maria Rodrigues Oliveira; e poemas do livro "Hálux", do escritor Marcus Fabiano Gonçalves, além de alguns poemas do livro "VozTinta", do poeta Arthur Moura Campos. A seção também conta com traduções feitas pelo escritor Luis Gustavo Cardoso dos poemas No Second Troy e The Dawn, do irlandês W. B. Yeats.

Há uma especial contribuição do escritor Flávio Viegas Amoreira para a seção “Terra em Transes”, reservada à crítica de cinema, de quem ainda trazemos um texto de homenagem à atriz Cacilda Becker. A edição também conta com trechos de “Mojubá”, romance do escritor Claudio Daniel, com a crônica “Carpe Diem ou Carpir de Dia”, do escritor e professor William Pardo e com ilustrações do cartunista Céllus.

O lançamento desta edição impressa configura-se, em suma, num ato de resistência em face do momento de virada brusca que o mercado editorial experimenta, no ritmo acelerado para tornar o papel algo prescindível.

Cabe salientar aqui que, como a Revista Piparote se constitui enquanto um projeto independente, necessitamos da contribuição comunitária de leitores, leitoras e entusiastas desta iniciativa para tornarmos possível uma proposta cultural de grande valor para as nossas letras e para as nossas artes. Esse apoio se utiliza de campanha em plataformas digitais de financiamento coletivo, mas não se restringe a esse ferramental: visamos um apoio editorial mais amplo, o que tornaria de fato duradouro o propósito literário da Piparote.

Acesse aqui.

*Júlio Bonatti, 33 anos, é doutor em Linguística pela UFSCAR. Realizou parte do projeto como pesquisador visitante na School of Languages and Applied Linguistics da Open University, Inglaterra. Atualmente é pesquisador da área de Ciências Sociais na Universidade de Valência, Espanha. É membro da International Association for Discourse Studies e autor do livro Labirintos da Linguagem

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