SuperDom Arte e Cultura

17/08/2021 | domtotal.com

Lírio, um violão mineiro

Com eletrônica suíça, um grupo de músicos e técnicos criou um novo instrumento com raízes míticas na Via Láctea

Lírio pode ser desmontado e acondicionado como bagagem de mão numa mochila
Lírio pode ser desmontado e acondicionado como bagagem de mão numa mochila

Carlos Walter*

A história do violão se confunde com a história da humanidade. Afinal existem precedentes de cordas dedilhadas na mitologia greco-romana; entre os hititas, egípcios e assírios; e uma série de cordofones entre os sécs. XII e XVIII como a guiterna, o alaúde, a guitarra com quatro cordas duplas (char tar), a vihuela (fidícula), a guitarra espinela com o acréscimo da 5ª corda dupla e a guitarra de Miguel Garcia (ou Pe. Basílio) com 6 cordas simples; estas últimas provavelmente utilizadas pelos Jesuítas no Brasil no processo de catequização dos Indígenas.

Já no séc. XIX o austríaco Johann Stauffer e o espanhol Antonio de Torres Jurado realizaram modificações estruturais e revolucionárias que culminaram no violão. Desde então luthiers do mundo inteiro vem aprimorando esse arquétipo. Um violão de 6 cordas de nylon normalmente possui escala de ébano ou jacarandá com 19 trastes, mão com tarraxas, trastes de alpaca ou cromo-níquel, braço de cedro ou mogno, caixa de ressonância em forma de oito com interpretações estéticas de toda sorte (representações simbólicas do infinito ou, até mesmo, das silhuetas de uma mulher), cavalete, faixas laterais e fundo em jacarandá, rastilho de osso, tampo de abeto alemão ou cedro canadense, em que pese a gama de nuances (escala suspensa ou semielevada, double top, tampo em treliça, tarraxas rolamentadas, soundport, armrest etc).

Buscando outros paradigmas de estética, ergonomia e sonoridade, o luthier Gianfranco Fiorini e os violonistas Aliéksey Vianna e Carlos Walter, ambos mineiros, desenvolveram um violão com as seguintes particularidades:

- leveza e possibilidade de ser desmontado e acondicionado como bagagem de mão numa mochila de viagem com vários compartimentos para objetos pessoais e medidas dentro das dimensões pré-estabelecidas pelas empresas de transporte aéreo, terrestre, marítimo e ferroviário, que se transforma em bag ou semicase quando está montado;

- escala com ajuste manual e instantâneo de altura das cordas;

- apoio ergonômico para perna regulável em 3 (três) alturas;

- escala cromática expandida nas regiões aguda e grave, mediante chave ou capo trasto articulável, somatizando 26 (vinte e seis) trastes. Na 6ª corda, por exemplo, é possível adicionar as notas mi bemol e ré sustenido por meio de uma chave móvel;

- caixa acústica preparada para abrigar um microfone interno e amplificar o som do instrumento com supressão de ressonância ou microfonia;

- jogo de tarraxas rolamentadas;

- utilização de madeiras não convencionais e não ameaçadas de extinção na estrutura do instrumento.

Os criadores do Lírio: Matthias Grob, Carlos Walter, Aliêksey Vianna, Gianfranco FioriniOs criadores do Lírio: Matthias Grob, Carlos Walter, Aliêksey Vianna, Gianfranco FioriniE para completar contém uma eletrônica desenvolvida pelo engenheiro suíço Matthias Grobb da Paradis Guitar – fundada por ele e pelo luthier Rolf Spuler (in memorian) –, com circuito ativo contendo microfone, efeitos wooDi (que processa analogicamente as características da propagação do som na madeira, fazendo com os piezos de captação soem mais macios e naturais) e polybass [que adiciona nas cordas graves uma oitava abaixo, fazendo com que a 4ª, 5ª e 6ª cordas soem com o peso de um contrabaixo], 6 (seis) captadores piezo (captação hexafônica) para cada uma das cordas, 6 (seis) potenciômetros [volumes para piezo, microfone e polybass, grave e agudo, sintetizador], 2 (duas) saídas p10, uma mixada e outra para microfone ou polypass, 1 (uma) saída GK de 13 (treze) pinos que disponibiliza o som analógico de cada captador separadamente (além do som de todos eles mixados no chamado Pin 7), bem como transforma o instrumento num controlador quando conectada a um conversor/interface midi a partir da qual conseguimos fazê-lo repercutir sons sintetizados de outros instrumentos (de sopro, tecla, percussão...), escrever partituras etc.

O resultado, após a fase de prototipagem iniciada há 3 (três) anos, revelou um instrumento com design, tocabilidade, sonoridade, amplificação, portabilidade e versatilidade ímpar, apontando novas possibilidades dentro e fora do universo violonístico.

Batizamo-lo de Lírio. Curiosamente o luthier Gianfranco é descendente de italianos da região de Florença e o significado do sobrenome Fiorini é Florim, termo que corresponde à antiga moeda de ouro da Florença que continha, impresso no verso, o símbolo da cidade, um Lírio. Já a gota que integra o corpo do instrumento consiste, ao mesmo tempo, numa alusão à logomarca da parceira Paradis Guitars e à deusa Hera. Reza a lenda que, ao amamentar, gotas do seu leite caíram sobre o céu e formaram a Via Láctea. Outras espargiram sobre a Terra e geraram o Lírio.

Ouça ‘Maria, Maria’, ao som do Lírio


*Carlos Walter é violonista, compositor e advogado. Mais informações: www.carloswalter.com.br

Comentários