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14/09/2021 | domtotal.com

Um roadbook latino-americano

Em seu novo livro, Leonardo Costaneto envolve o leitor como se todos fossem companheiros de viagem

Em Angie, Costaneto compartilha a descoberta da sua própria América Latina
Em Angie, Costaneto compartilha a descoberta da sua própria América Latina

João Diniz*

Leonardo Costaneto chegou de viagem e, na mala, trouxe seu novo livro, Angie, onde, mais uma vez, com relatos certeiros, nos revela cidades, personagens e situações captadas pelo olhar que observa para além das superfícies. O recorte geográfico das andanças do escritor é a América do Sul, sobretudo pelas margens do Rio da Prata, cruzando suas águas, de Buenos Aires a Montevidéu, passando pela histórica Colônia de Sacramento, para compor este roadbook ágil e empolgante, com as cores do próprio continente.

Após o lançamento de Aparecida Rainha, em 2020, Costaneto confirma seu talento e o domínio do conto, o que nos faz lembrar os textos curtos, mas densos, de Anton Tchekhov, Rubem Fonseca e Silvina Ocampo, Ernest Hemingway, entre outros, cuja escrita se aprofunda na alma das pessoas e dos lugares. Esses dois livros, apesar de autônomos, dialogam entre si como partes de um contínuo literário. Se em Aparecida Rainha Leonardo propõe um mergulho na ancestralidade africana da gente brasileira, em Angie está em destaque uma sensação de exílio e fuga.

Leonardo Costaneto é essencialmente latino-americano, coração e alma divididos entre Ouro Preto e Buenos Aires, indo além das barreiras linguísticas, políticas e geográficas, com trechos bilíngues que nos lembram que o Brasil faz parte da América do Sul. Em Angie, as personagens nos envolvem como se fôssemos todos companheiros de viagem e, nesse percurso, encontramos figuras como a do mal aluno que se transformou no rei do rodeio, do motorista de aplicativo que se torna acompanhante dos passageiros, do jovem venezuelano que sonha matar o professor, assim como a do escritor exilado e sua sugar baby, ou ainda, da baiana que se torna uruguaia vivendo em Colônia com um velho artesão português.

Ao percorrer as breves, mas nem por isso menos intensas, páginas de Angie, o leitor vai confirmar a capacidade de Costaneto para enredar o leitor, numa dicção que é negra, brasileira, latino-americana; universal. E como Hemingway, que encontra na latinidade cubana o cenário para seu mais celebrado livro, O velho e o mar, Costaneto divide conosco, a partir da sua escrita viajante, a descoberta da sua própria América Latina. Angie nos leva a lembrar a paixão e seu ocaso, como na canção homônima dos Rolling Stones, em que a sensualidade reveladora do instante justificará, até mesmo a despedida: a quebra do pacto amoroso sempre valerá a pena, se foi vivido com verdade e, mais ainda, se ao fim se tornou boa literatura.

Sobre o autor
Leonardo Costaneto é professor, licenciado em Letras (UEMG) e mestre em Educação (UFMG). É editor-chefe da Caravana Grupo Editorial e sócio da Caburé Libros, a principal livraria independente da Argentina. Além de Angie, é autor de A cidade fora da cidade: crônicas de exclusão (2019) e Aparecida Rainha (2020).


Ficha técnica
Autor: Leonardo Costaneto
Coordenação editorial: Leonardo Costaneto e Olavo Romano
Organização e Revisão: Jozilene Ivete de Oliveira
Ilustração da capa: Angie, de Fernando Pacheco, acrílica sobre papel, 2021
Capa e Editoração eletrônica: Katryn Rocha
Selo: Caravana
Gênero: Contos
Páginas: 49
Formato: 12×18
ISBN: 978-65-87260-62-4
Preço: R$ 24,90
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*João Diniz é arquiteto e professor universitário. Entre outras obras, publicou, em 2020, O livro das linhas.

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