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23/09/2021 | domtotal.com

Juliano Moreira, o médico negro pioneiro da psiquiatria brasileira

À frente de seu tempo, cientista formou bases de tratamentos e combateu teorias racistas

Retrato do médico Juliano Moreira: ideias avançadas e um lutador contra o racismo
Retrato do médico Juliano Moreira: ideias avançadas e um lutador contra o racismo

Adriano de Lavor
Radis

Um menino negro e pobre da Bahia que se torna um dos mais importantes nomes da ciência brasileira, com contribuições inúmeras para a saúde. Este foi Juliano Moreira, considerado fundador da psiquiatria brasileira, cujo nome é homenageado em diferentes instituições de saúde no país, mas que continua desconhecido de boa parte das pessoas.

Autores de dois livros sobre o cientista, Ronaldo Jacobina e Ynaê Lopes dos Santos, abordam sobre a vasta produção de Juliano, que viveu entre 1872 e 1933. Ele não somente contestou cientificamente a teoria da degenerescência racial - que, em sua época, associava doenças à mistura de raças - como deixou inúmeras outras contribuições para o campo da Medicina, como o estudo da sífilis - sua tese de formatura, defendida aos 18 anos, até hoje é uma referência no assunto — e o pioneirismo na divulgação científica, entre outras áreas. Acima de tudo, foi um terapeuta do afeto.

Ele atendeu ao telefone já empolgado, como se recebesse o chamado de um velho amigo. "Eu já esperava sua ligação", disse do outro lado da linha. Era a primeira vez que eu falava com o professor Ronaldo Jacobina, mas sua acolhida calorosa já antecipava a boa conversa que viria pela frente. Diante da atribuição de escrever um perfil do sanitarista Juliano Moreira (1872-1933), seu nome me foi recomendado pelo seu amigo Paulo Amarante, que foi seu orientador no curso de doutorado que fez na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz).

Quando eu o procurei para falar sobre Juliano, Paulo imediatamente me disse que eu tinha que ouvir o Ronaldo, que além de ser um grande entusiasta da sua história, havia escrito um livro sobre ele. Acatei a sugestão e liguei para o pesquisador baiano, mesmo antes de pesquisar sobre seu livro. Quem é jornalista sabe como é: não se perde uma fonte boa assim; melhor garantir a conversa, ainda mais quando se trata de um pesquisador, com mil e uma ocupações. A primeira ligação seria para marcar a conversa, mas Ronaldo me mostrou que não era dado a protocolos e já começou a falar sobre Juliano. Pedi a ele um tempo para me preparar e disse que retornaria em meia hora. Ele riu, assentiu e me lançou um teaser irresistível: "Meu livro tem seis descobertas originais! Aguardo seu retorno!"

Antes de perder o fio da meada, permitam-me apresentar meu interlocutor. Ronaldo Jacobina é professor titular aposentado do Departamento de Saúde Preventiva e Social da Universidade Federal da Bahia (UFBA), mesma universidade onde concluiu a graduação em Medicina, em 1978, e o mestrado em Saúde Comunitária, em 1982. Além de sanitarista, ele também é psiquiatra, tendo atuado como servidor público no Centro de Saúde Mental Aristides Novis e no Sanatório São Paulo, em Salvador, e comunicador - entre 1992 e 1997, esteve à frente do programa Rádio Saúde, na Rádio Excelsior da Bahia.

No curso de mestrado, Ronaldo pesquisou a constituição da psiquiatria na Bahia a partir do Asilo São João de Deus - que anos depois, viria se tornar o Hospital Juliano Moreira, tema para o qual se voltou no doutorado, concluído em 2001. Foi neste período que ele resolveu investigar a história do sanitarista. "Eu quis saber mais quem era o Juliano que nomeava o hospital. Foi uma viagem sem retorno”, explicou-me, animado. Ronaldo me lembrou, neste momento, que sua pesquisa foi construída a partir de muitas referências, uma delas a obra de Lima Barreto (1881-1922), em especial o romance inacabado Cemitério dos vivos, que se baseia no diário escrito entre 1919 e 1920, quando o autor esteve internado no hospício da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro.

Ao reler a obra, Ronaldo percebeu nas páginas do livro as impressões positivas de Lima acerca da bondade do psiquiatra baiano, que era diretor da instituição, e como este era um ponto fora da curva em seu tempo. Naquele período, posterior à abolição dos escravos e da instauração da República no país, seguia-se à risca por aqui as chamadas teorias raciais, importadas da Europa, que tentavam atribuir à miscigenação a responsabilidade pelas desigualdades, pela loucura e pela criminalidade.

"A mestiçagem era compreendida como responsável pela produção de um tipo híbrido, inferior física e intelectualmente”, situa a psicóloga Audrey Rossi Weyler. No artigo que escreveu para o dossiê "Psicologia e ideologia - O preconceito racial", publicado na revista Psicologia USP, a pesquisadora explica que, tomada como sinônimo de degeneração não só racial como social, era a partir da miscigenação que se previa a loucura, se entendia a criminalidade e, posteriormente, se definiram programas de melhoramento da raça”. Juliano não só não acreditava nisso, como conseguiu comprovar cientificamente que a teoria era infundada.

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AINDA DESCONHECIDO?

Voltando à nossa conversa, perguntei ao Ronaldo por que, diante de um currículo tão vasto e tão importante sanitarista permanecia desconhecido do grande público. Ele reconheceu que Juliano realmente ainda não tinha a visibilidade que merece. Disse-me que a despeito de o médico ter sido o responsável por democratizar a estrutura que humanizou o manicômio no Brasil, mesmo na Bahia muitas vezes seu nome ainda é lembrado como sinônimo de ameaça: "Eu vou levar você para o Juliano" - é uma expressão ainda usada para assustar alguém com a possibilidade de internação no hospital que leva o nome do sanitarista.

No livro que escreveu, Juliano Moreira da Bahia para o mundo — A formação baiana do intelectual de múltiplos talentos (1872-1902), lançado pela Editora da UFBA em 2019, Ronaldo apresenta a vida do cientista desde o nascimento, passando por sua formação intelectual até a sua ida ao Rio de Janeiro, quando "já estava pronto", como gosta de dizer. São tantas as conquistas e as contribuições deixadas por ele para a saúde que, a cada pergunta que faço a Ronaldo, aparecem três ou quatro em sua resposta.

"Você sabia que ele foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciência?", me indaga. "E que ele fez o discurso de recepção ao Einstein, em 1925?" O pesquisador cita inúmeros exemplos: a classificação das doenças mentais feita por Juliano, me diz, inspirada na psiquiatria alemã, foi usada até anos 1960, no século seguinte; seu estudo sobre a paranoia foi um marco; foi ele o primeiro a introduzir laboratórios dentro de hospitais. Coisas que consideramos hoje banais, mas que sem Juliano não existiriam.

Mas, para Ronaldo, a contribuição "mais fascinante" de Juliano para a saúde mental foram as mudanças implementadas no asilo. Removeu as grades, retirou as algemas que prendiam internos e instalou janelas que arejavam o ambiente; separou adultos de crianças. O pesquisador citou, emocionado, uma foto que está em seu livro onde se vê Juliano e um grupo de crianças ao redor de um gramofone. "As crianças se alegravam com sua presença", narrou o escritor, resumindo a atuação do biografado em uma palavra: Humanização. "Ele abominava a ideia de o hospital ser visto como prisão", acentuou.

Juliano Moreira (centro), com colegas no Rio de Janeiro (Biblioteca Nacional)Juliano Moreira (centro), com colegas no Rio de Janeiro (Biblioteca Nacional)

PRECURSOR DA PSICANÁLISE

Outro dado original de seu livro, me conta Ronaldo, é mostrar que Juliano Moreira foi o primeiro pesquisador latino-americano a discutir a psicanálise. Segundo ele, como o brasileiro dominava a língua alemã, poucos meses depois de Freud lançar seus livros ele já discutia seu conteúdo no asilo São João de Deus, na Bahia: "Ele não foi psicanalista, mas foi sensível para entender a contribuição de Freud para a psiquiatria". O sanitarista baiano também se destacou no estudo da ainhum (também conhecida como doença de Silva Lima, causa alteração nos dedos do pé).

A versatilidade do cientista, comentou Ronaldo, é algo que se apresenta desde a sua formação. Seus primeiros estudos foram na área de dermatologia, onde teve trabalhos pioneiros sobre leishmaniose tegumentar americana e sífilis. Em se falando da sífilis, este foi o tema da famosa "tese inaugural" de Juliano, quando concluiu o curso de Medicina. Escrito quando o pesquisador tinha apenas 18 anos, o trabalho conta com citações em sete línguas - entre elas o latim -, foi traduzido em diversos países e se tornou referência internacional no estudo da doença. Foi a observação de um componente psiquiátrico da sífilis que abriu caminho para que Juliano se interessasse pelo estudo da saúde mental, observou o escritor.

Mas há outras facetas de Juliano que não são tão celebradas, chamou-me a atenção. Em mais uma descoberta original de sua obra, ele assinalou o perfil sanitarista de Juliano. Quando se formou, aos 19 anos, ele foi designado a debelar uma epidemia de malária, em uma região chamada Jacobina. "Você vê que os astros já haviam determinado sobre o que eu iria escrever, no futuro", ri-se Ronaldo, ao constatar a coincidência com seu sobrenome. "Você imagina o vigor com que aquele jovem de 19 anos, filho de uma emprega doméstica, se dedicou à tarefa. Chegaram a desconfiar que ele estava gastando demais com remédios", disse, entusiasmado. "Ele era um sanitarista, foi discípulo de Virchow [Rudolf Virchow, patologista alemão, considerado o pai da Medicina Social], assistiu às suas aulas, na Alemanha", reforçou.

Mas para Ronaldo, embora múltiplas e inúmeras, a maior herança de Juliano Moreira é a contribuição que deixou para a saúde mental, e que anos depois foi resgatada pela Luta Antimanicomial. "O mais importante legado dele foi a orientação de não deixar que o hospital psiquiátrico se tornasse uma prisão." Ele não aceitava que o doente mental fosse tratado de forma ameaçadora e era a favor de uma assistência que respeitasse o paciente como ser humano. "Quando você reler o Lima Barreto você vai ver que ele bate forte nos médicos da época, com aquela bazófia e aquela pose francesa. Quando chega o Juliano ele reconhece nele uma figura humana que o escuta, que atende suas demandas", recomendou meu interlocutor. Segundo ele, é possível identificar a aproximação do escritor com Juliano em trechos de sua obra, muito em parte escrita graças à sua intervenção, fosse fornecendo lápis e papéis, fosse dando seu aval para que escrevesse. "Ele era reconhecido por sua bondade", acentuou.

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VATAPÁ PARA EINSTEIN

Neste momento, interrompo Ronaldo e conto a ele que, enquanto conversamos, está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, uma exposição em homenagem à psiquiatra Nise da Silveira, que registra a relação entre Juliano Moreira e Lima Barreto e onde pude ler uma frase de seu discípulo Afrânio Peixoto, que o define como "terapeuta do afeto". Ele se mostra interessado e reafirma a postura humana de seu biografado, que no período em que convive com o escritor, já tinha prestígio e renome mundial. "Juliano não sabia que estava diante de um gênio negro, que enfrentava o racismo e o preconceito racial, um homem culto sensível que narraria sua experiência de quando esteve internado", pontuou. Mas, mesmo assim, dispensava a ele "a mesma simplicidade de quem senta, ouve e humaniza as relações".

A esta altura, Juliano Moreira já havia feito inúmeras viagens ao exterior e recebido as mais altas honrarias em diferentes países. Segundo Ronaldo, ele coordenou e foi presidente de mais de 12 congressos internacionais, recebeu das mãos do imperador japonês a Ordem do Tesouro Sagrado, maior comenda do país, foi homenageado em várias universidades com medalhas científicas, mas continuava sendo o homem simples que fez questão de transferir a sala onde trabalhava para o andar térreo do hospital, onde poderia melhor atender as demandas de seus pacientes. Sua simplicidade, porém, não impediu que seu prestígio e sua formação fossem chancelados por um dos maiores cientistas do século 20, ninguém menos que o físico alemão Albert Einstein (1879-1955).

Quando visitou o Brasil, em 1925, Einstein foi recebido na Academia Brasileira de Ciências. Já era uma estrela mundial. Juliano, que era o presidente da ABC, fez um curto discurso de recepção ao convidado, destacando a influência da relatividade em várias áreas da ciência. Ronaldo contou que até hoje não teve acesso ao conteúdo da fala de Juliano, mas que supõe ter sido muito importante, já que a fala deixou Einstein impressionado. "Sabe o que aconteceu na véspera de ele ir embora do Brasil?", indagou-me. "Quebrou o protocolo e aceitou o convite de Juliano para visitar o Hospital Nacional dos Alienados". Em sua investigação, o escritor apurou que o cientista alemão ficou particularmente interessado no setor de laborterapia - a terapia pelo trabalho, outra inovação proposta por Juliano e que daria origem aos hospitais-colônia ou hospitais rurais.

Na ocasião, mais um protocolo foi quebrado, quando Einstein aceitou o convite para almoçar na casa de Juliano. Neste momento, o médico já estava casado com Augusta Peick, enfermeira alemã que conheceu durante sua estadia em um sanatório na cidade do Cairo, para tratar da tuberculose. "Você imagina que, sendo casado com uma alemã, ele serviria ao convidado uma comida alemã, mas ele oferece sabe o quê? Um vatapá, uma comida afro-baiana!", diverte-se Ronaldo, contando-me que mais tarde, lendo a biografia do físico, descobriu que ele havia registrado ter comido "uma comida brasileira com muita pimenta". "Eu desconfio que ele sentiu os efeitos", ironizou, supondo que repercussão teria hoje, já que os jornais da época não deixaram barato e publicaram: "O pai da teoria da relatividade conheceu o absoluto: o vatapá".

Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro (Wikkicommons)Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro (Wikkicommons)

RESERVADO E TRANSGRESSOR

O episódio curioso foi o mote para que Ronaldo destacasse que, a despeito do tratamento recebido por Juliano em sua terra natal, ele continuava amando a Bahia. "Ele saiu magoado da Bahia, que fechou os campi para ele, um reflexo do racismo deste país perverso", contou, revelando que Juliano se mudou para o Rio de Janeiro mesmo antes de ser nomeado diretor do Hospital dos Alienados. Antes disso, ele montou um pequeno consultório em Botafogo, até ser nomeado por J.J. Seabra [então ministro de Viação e Obras Públicas]. "Seu amor pela terra continuava", assinalou.

Neste momento, coloco ao meu interlocutor que percebo outra característica nos relatos e na obra de Juliano, para além de sua bondade. Digo a ele que o psiquiatra me parece um homem reservado e transgressor, ao mesmo tempo. "Exatamente!", diz-me empolgado. "De sua forma, educado e sutil, ele era um homem muito à frente do seu tempo", defendeu, o que se comprova nos temas que elegeu pesquisar, nas mudanças que conseguiu implementar. "Daí a reforma que fez no manicômio. Era uma nova maneira de lidar e de olhar", exemplificou. Para ele, Juliano foi um homem culto, de múltiplos talentos, que teve que enfrentar muitas adversidades, ressaltou.

"Preciso contar algo fundamental, porque deus está nos detalhes e o diabo nos pormenores”, me preparou Ronaldo. Ele relembrou que Juliano era filho de Galdina, empregada doméstica, e do português Manoel, funcionário municipal, que não o assume como filho de início. Galdina convida então o Barão de Itapuã, que era seu patrão, para ser padrinho de Juliano. O barão, na verdade Adriano Alves de Lima Gordilho, obstetra e professor da Faculdade de Medicina da Bahia, incentiva os estudos do menino, que se inspira no padrinho para seguir a carreira médica. "Pense aí nele, com 14 anos, negro, na escola mais elitista que existia, onde todos eram filhinhos de papai. Não sei nem se ele tinha algum colega negro", relatou-me o escritor.

O impacto foi severo, no primeiro ano, e Juliano foi reprovado em física e obteve notas mínimas nas outras disciplinas; no segundo ano - Ronaldo explica que o curso não era semestral, naquela época - as suas notas foram básicas, até concluir sua tese com distinção e citações em sete línguas. "Acho interessante não romantizar a sua biografia, nem negar os fracassos que teve que enfrentar em sua história", ressaltou, destacando que seu trabalho final foi citado por estudiosos no mundo todo, sem que soubessem que havia sido escrito por "um pivete da Bahia".

Mesmo assim, Juliano ainda correu o risco de não ser aprovado, logo depois, no concurso que fez para professor da mesma Faculdade de Medicina onde havia se formado. "Ele foi avisado que seria rifado no concurso, porque três dos examinadores eram racistas”. Sabendo disso, o amigo Afrânio Peixoto mobilizou os formandos para que fossem assisti-lo, já que as provas eram públicas e mesmo os exames escritos eram lidos.

Ronaldo se empolga ao me contar que os alunos explodiam em aplausos após as apresentações de Juliano, que obteve 15 notas 10 dos avaliadores. "Mesmo os escravocratas foram capazes de reconhecer o gênio e o aprovaram em primeiro lugar", contou-me. Disse ainda que Juliano agradeceu “à mocidade acadêmica”, em uma fala em que critica: "Há quem receie que a cor da pele seja nuvem capaz de marear o brilho desta faculdade, mas o negror está na subserviência", teria dito. "É como você me disse: ele é transgressor, educado, mas muito duro. você captou um dado fundamental dele."

Encerrei a conversa feliz por ter conhecido Ronaldo, com muita vontade de ler o seu livro, e de saber mais sobre Juliano Moreira. Diante da conversa gravada, decidi relatar nossa conversa subvertendo o formato tradicional de entrevista, incluindo sensações e observações. Antes de escrever, no entanto, acatei a sugestão e tirei da estante o Lima Barreto esquecido. Ao folhear suas páginas, aleatoriamente o vejo descrever o primeiro encontro com o médico: "O diretor nada disse, e eu percebi; mas foi preciso ele vencer, com a sua doçura, a sua paciência e a simplicidade de sua alma, a indelicadeza desse seu hospitalizado. Hei de falar mais longamente sobre ele, que é uma interessante figura que conheci".

Comecei então a escrever estas linhas, com a certeza de que são sobretudo os encontros os responsáveis pela boa saúde mental. Em silêncio, agradeço a Ronaldo, Juliano e Lima Barreto pela ótima conversa que tivemos.

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JULIANO MOREIRA, UMA VOZ DISSONANTE

ENTREVISTA COM YNAÊ LOPES DOS SANTOS, PESQUISADORA

Um menino negro e pobre da Bahia que se torna um dos mais importantes nomes da ciência brasileira, com contribuições inúmeras para a saúde. Este foi Juliano Moreira, considerado fundador da psiquiatria brasileira, cujo nome é homenageado em diferentes instituições de saúde no país, mas que continua desconhecido de boa parte das pessoas. Com o intuito de reparar este erro, a pesquisadora Ynaê Lopes dos Santos, professora da disciplina História da América no século 19, no Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), escreveu o livro Juliano Moreira: o médico negro na fundação da psiquiatria brasileira, lançado em 2019 e disponibilizado gratuitamente no site da Eduff (https://bit.ly/36RL93G).

"Todo mundo já ouviu falar de Juliano Moreira, sobretudo quem é da área de história das ciências, da psicologia e da psiquiatria, mas geralmente não sabe nem que ele era um homem negro, nem a importância efetiva que ele teve na constituição do campo da psiquiatria no país", justificou Ynaê, nesta entrevista. Na conversa por telefone, a historiadora falou sobre a vasta produção de Juliano, que viveu entre 1872 e 1933, e destacou a importância que teve na desconstrução da teoria da degenerescência racial - que, em sua época, associava doenças à mistura de raças.

O cientista não somente contestou cientificamente esta tese disfarçada de racismo, como deixou inúmeras outras contribuições para o campo da medicina, como o estudo da sífilis - sua tese de formatura, defendida aos 18 anos, até hoje é uma referência no assunto - e o pioneirismo na divulgação científica, entre outras áreas. Mestre e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Ynaê mergulhou na história de Juliano com o interesse de registrar a vida de um dos mais importantes intelectuais do período republicano no país e acabou descobrindo um terapeuta do afeto, um homem reservado e comprometido que revolucionou a saúde mental, mas que no cotidiano também era reconhecido por sua extrema bondade. Nas palavras do escritor Lima Barreto, "um homem que conseguia ver e enxergar o indivíduo", como revelou Ynaê, nesta entrevista.

Atualmente concentrada na escrita de um livro sobre a história do racismo no Brasil e na produção de uma pesquisa sobre intelectuais negros nas Américas, Ynaê partiu da vida e da obra de Juliano Moreira para também refletir sobre a atual situação do racismo no país. "Juliano Moreira é uma exceção, com sua história incrível e maravilhosa, mas é a confirmação de toda a negação. Tudo o que ele era, era negado aos homens negros, por serem homens negros. E isso não mudou, porque essa é a estrutura do racismo."

Em 2020 você lançou o livro Juliano Moreira: o médico negro na fundação da psiquiatria brasileira (Eduff). Por que decidiu biografar o Juliano?

Quem me apresentou o Juliano Moreira foi minha mãe, há uns 15 anos. Ela trabalhava no Museu Afro-Brasil e eu ainda estava no mestrado. "Que história incrível!", eu pensei. E fiquei com aquilo guardado na cabeça. Em 2015, a Capes abriu um edital sobre personagens da história republicana no Brasil. O livro é resultado da minha pesquisa individual, que está em um projeto sobre os personagens negros que fizeram parte da história da República brasileira de uma forma bem central, mas que muitas vezes permanecem desconhecidos. Foi assim que eu adentrei no mundo do Juliano Moreira, que foi também a melhor forma de eu entrar no mundo pós-abolição — até então eu trabalhava só com a história do Brasil e das Américas no período da escravidão.

Pensando no Juliano ainda como uma figura desconhecida do grande público, como foi levantar informações sobre ele?

Existe muita coisa, mas eu tive muita dificuldade, porque boa parte do material sobre ele está num arquivo na colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, de forma muito pouco organizada. Juliano foi um homem que produziu uma quantidade colossal de pesquisa, atravessou todas as grandes questões da época dele - sobretudo as questões relacionadas ao universo da ciência e da psiquiatria. Sua produção acadêmica é algo impressionante, mas parte dela está nesse arquivo que, quando eu comecei a pesquisa, estava todo desmontado. Eu teria que ter uma equipe para me ajudar a organizá-lo, mas infelizmente a gente não tinha verba para isso. Então eu consegui fazer uma pesquisa a partir da documentação que eu encontrei em Salvador, e algumas coisas que estavam na Faculdade de Psicologia da UFRJ. Também tive acesso a muita coisa da hemeroteca digital, graças à digitalização dos periódicos da Biblioteca Nacional. Mas ainda tem muita coisa para pesquisar, é apenas uma ponta de iceberg. Ele é um colosso.

E mesmo com uma produção vasta e importante, ele ainda permanece desconhecido...

Pois é. Todo mundo já ouviu falar de Juliano Moreira, sobretudo quem é da área de história das ciências, da psicologia e da psiquiatria, mas geralmente não sabe nem que ele era um homem negro, nem a importância efetiva que ele tem na constituição do campo da psiquiatria no país.

No seu livro, você apresenta Juliano Moreira como um dos primeiros homens a apontar que a problemática racial no Brasil (e no mundo) foi e é uma questão social, e não biológica. Essa realidade persiste?

De certa forma, sim. Juliano Moreira foi um homem negro que conseguiu ocupar um lugar de destaque na sociedade, se transformou num dos maiores cientistas do país - se não o maior - e também no diretor do maior hospício do país. Ele também foi responsável pela implementação das políticas públicas em relação às doenças mentais, ocupou um espaço de poder até a sua morte, mas curiosamente as análises que existem sobre ele geralmente não tocam nesse papel central que ele tem, de ser uma voz dissonante dentro da intelectualidade brasileira. Ele foi um intelectual, um cientista, que não só foi contrário à teoria da degenerescência racial, como comprovou sua teoria do ponto de vista científico. Ele antecipou, no final do século 19, questões que só seriam tratadas efetivamente na segunda e na terceira décadas do século 20. Ele era um homem do seu tempo, mas que fez uso deste duplo lugar, de homem negro e de alguém que conseguiu ocupar estes espaços, para pensar o mundo a partir de uma outra perspectiva - uma perspectiva que depois a ciência mostrou que é a correta. Só que, do ponto de vista sociológico, o racismo é uma realidade que nos estrutura e que está arraigada na falsa ideia de uma supremacia branca, que pode se dar tanto do ponto de vista biológico, como se acreditou durante muito tempo, como do ponto de vista cultural, social, dos ideais civilizatórios. Juliano também questionou isso dentro da própria ciência.

Juliano Moreira foi precursor e seu trabalho influenciou muita gente, como Nise da Silveira. Você identifica hoje trabalhos ou abordagens, na área de Saúde Mental, que dão continuidade ao seu legado?

A própria ideia da colônia, de pensar que as doenças mentais não se manifestam da mesma forma que outras doenças, que precisam de um cuidado específico, isso quem efetivamente implementa dentro do campo da ciência no Brasil é o Juliano Moreira, por meio da reforma que ele faz. Ele faz também uma distinção efetiva entre raça e as doenças, não atribui as doenças a raças, algo que muitos dos colegas dele faziam. Também é uma herança dele a ideia de que havia possibilidade de reinserção dos doentes mentais na sociedade. O projeto das colônias parte desse pressuposto: há a possibilidade de uma reinserção, claro que diferenciada, mas a possibilidade de uma convivência social. Ele a propõe de uma forma um pouco mais controlada, porque também não podemos tirar o Juliano do seu tempo. Ele acreditava no higienismo, ele era um sanitarista. Mas, de certa forma, ele subverte essa lógica ao pontuar a necessidade do olhar cuidadoso com o indivíduo. Isso é algo que sempre chamou atenção das pessoas próximas a ele. Quando eu fui ler o que foi produzido sobre o Juliano Moreira na época do seu falecimento, as palavras que eu mais encontrei é que ele era um homem bom. Isso dito também pelos pares, como Afrânio Peixoto [Médico, político e escritor (1876-1947)], que era um entusiasta dele, amigo próximo e discípulo. Ele formou toda uma escola de psiquiatria no Rio de Janeiro, homens que vão ocupar cargos importantes na implementação de políticas públicas no Brasil nas décadas de 1930 e 1940. O Lima Barreto [Jornalista e escritor carioca (1881-1922)], que foi interno mais de uma vez, chamou atenção para esse lado da bondade do Juliano Moreira, um homem que conseguia ver e enxergar o indivíduo.

Na exposição A Revolução do afeto, realizada no Rio de Janeiro, há uma frase do Afrânio Peixoto que define Juliano como "o terapeuta do afeto"...

Concordo! Durante a reforma do prédio onde hoje é o Pinel, no campus da Praia Vermelha, no Rio Janeiro, ele abriu mão da sala da diretoria, que era suntuosa, e pegou uma sala pequena, no andar térreo, onde as portas estavam sempre abertas, para que os doentes não tivessem nenhum tipo de vergonha ou se sentissem impedidos de entrar em contato com ele. Ele era realmente do afeto, daquilo que realmente afeta, que transforma.

Durante a sua pesquisa sobre a vida do Juliano, algo mais te chamou atenção em relação à personalidade dele? Algum caso curioso que ilustre como ele era e com quem convivia?

A minha pesquisa foi feita num período relativamente curto, não deu para dar conta de toda a vida do Juliano Moreira, que foi um homem de muita produção. Mas, no levantamento que fiz nos periódicos que estão na Biblioteca Nacional, eu percebi que ela era um homem que circulava muito, que viajava muito, representava o Brasil numa série de congressos, mas eu quis privilegiar esse aspecto que curiosamente é um dos menos trabalhados, que é o lugar dele como questionador da teoria da degenerescência racial. Sobre isso, tem um caso muito curioso que é quando ele e o Nina Rodrigues — que havia sido professor dele - já eram professores da Faculdade de Medicina no Rio. O Juliano era recém-empossado e o Nina já era um homem de destaque no cenário nacional, um dos mais importantes médicos brasileiros. Eles entraram num embate sobre o caso de um rapaz diagnosticado com esquizofrenia, que é filho de uma mulher negra e de um italiano. Juliano não creditava à raça negra a condição da esquizofrenia, ao passo que o Nina era taxativo de que o rapaz havia herdado essa condição do tronco materno, negro, africano, "degenerado". Juliano não aceitava. Neste período, ele viajou à Europa para se tratar da tuberculose e participar de congressos, quando mudou o roteiro e foi até à vila italiana de origem do pai desse rapaz esquizofrênico. Como era uma vila pequena, ele rapidamente identificou pelo sobrenome a família e observou que duas tias e um primo desse rapaz também tinham um quadro de esquizofrenia. Ele concluiu então que não era a raça negra "degenerada" que determinava a manifestação da esquizofrenia, mas que havia uma questão biológica. Eu gosto muito desse episódio porque mostra o lugar que o Juliano ocupa como voz dissonante dentro da própria ciência. Não era um historiador questionando, era um cientista que explicava que aquilo que as pessoas imaginavam ser racial era, na verdade, um construto social, que tinha uma história específica. Ele recorreu à história, às mazelas criadas pela escravidão no Brasil, para entender a condição do negro naquele momento no final do século 19 e começo do século 20 — uma perspectiva muito pouco utilizada na época.

No livro você também destaca a contribuição que Juliano deu à área de divulgação científica, contribuindo com inúmeros periódicos nacionais e internacionais, fundando publicações. Você consegue imaginar como ele lidaria hoje com as redes sociais e outras tecnologias de comunicação e informação digitais?

Ele era um homem muito zeloso com a metodologia da ciência, mas ao mesmo tempo um grande difusor da ciência. Então eu acho que ele conseguiria fazer um belo trabalho de divulgação científica, criterioso, mas que pudesse chegar às pessoas. De forma geral, e em parte entendo, os cientistas estão lá com as questões pautadas para o mundo em que eles vivem. Poucos se preocupam em fazer esse "meio de campo" e nós estamos pagando um preço caro por isso, que é justamente o negacionismo. O negacionismo está muito arraigado na profunda ignorância que as pessoas têm do que é a ciência, de como ela funciona, e o lugar que muitas vezes os cientistas ocupam é o de não contato com a população - ou de um contato muito hierarquizado. Talvez o Juliano Moreira pudesse fazer essa correlação, trazer a coisa criteriosa da ciência, mas ao mesmo tempo aproximá-la da população em geral.

Juliano é mais conhecido por sua atuação na área da Saúde Mental, mas deixou inúmeras outras contribuições para a ciência. Que outras contribuições dele você destacaria?

Juliano era um pesquisador multi, coisa que não existe mais no Brasil e nem no mundo! Eu destacaria a psicanálise. Quem introduziu os estudos de Freud no Brasil foi o Juliano Moreira. Também os estudos da sífilis. A tese que ele escreveu para poder se graduar como médico foi muito bem recebida - fora do Brasil, sobretudo -, onde ele já questionava a ideia de raça. Outra contribuição, sem sombra de dúvida, seria essa relação afetiva e afetuosa com a experiência das doenças mentais. Na verdade, ele entendeu as doenças mentais não só dos pontos de vista científico ou social, mas fez uma fusão entre eles. Ele foi um homem que fez uma análise conjuntural e sociológica das doenças e dos doentes, mas entendendo que o uso da ciência pode transformar a realidade.

Você escreveu uma carta para o Juliano, onde revela sua curiosidade em saber qual seria a opinião dele, se vivesse os dias de hoje, sobre as "insanidades desse mundo". Você o questiona se a loucura seria chave para explicar esta realidade atual ou seria "mais uma desculpa para acobertar aquilo que sabemos que nos estrutura há tanto tempo". Você imagina que resposta o Juliano te daria?

Ele escolheria a segunda opção, sem dúvida. Juliano sabia que a loucura é só uma desculpa para acobertar o que a gente conhece e sabe que está aí, que é o racismo. Ele era um homem tão perspicaz que ele sabia disso, falava sobre isso do ponto de vista científico, mas não entrou num confronto aberto como seus pares; por outro lado, ele trouxe essas questões para o seu cotidiano e conseguiu implementar mudanças significativas que só um homem que pensa como ele poderia implementar; ele soube como fazer o jogo, porque entendia como se estruturava o racismo. Ele era um homem negro! E acho que esse lugar muitas vezes é retirado da população negra, sobretudo daqueles que constroem os lugares na intelectualidade, impedindo a possibilidade de olhar de forma muito mais crítica para a realidade brasileira, justamente por estar nesse lugar da discriminação.

Juliano poderia representar o que as mídias hoje apresentam como uma "história de superação", muitas vezes usada para negar a existência das desigualdades e da exclusão. Você concorda com isso?

Eu vou fazer uso do bom e velho ditado popular: As exceções confirmam as regras. Juliano Moreira é uma exceção, com sua história incrível e maravilhosa, mas é a confirmação de toda a negação. Tudo o que ele era, era negado aos homens negros, por serem homens negros. E isso não mudou, porque essa é a estrutura do racismo. Só que hoje isso ganhou as mídias digitais. A gente observa hoje é que algumas personalidades são "eleitas" e têm uma voz ativa contra o racismo, mas de certa maneira essas pessoas estão dentro da própria lógica racista. Isso é uma coisa perversa, porque você também tem que se fazer ouvir, então é um jogo que tem que ser jogado. Nós vivemos uma estrutura racista e não há outra alternativa. A gente tem que construir uma alternativa, mas por enquanto não há nenhuma outra. Eu entendo muito essas personalidades, que têm uma ação destacada, mas o debate tem que ser estrutural. O racismo é um jogo de poder que cria uma série de ônus para a população negra e para as populações indígenas ou não brancas, e bônus para as populações brancas. O que a gente precisa entender é essa outra parte; o racismo aparece como um problema do negro, mas é problema de todo mundo. A questão é que quem sofre com racismo são os negros, e sofrem porque os brancos ganham com isso, mesmo não tendo consciência. Tem quem tenha essa consciência, e tem quem não tenha. Por isso é tão difícil ser antirracista, porque ser antirracista é ser contra o sistema, é ser contra a ideia de norma, daquilo que a gente entende como normal. (Entrevista por Adriano de Lavor, da revista Radis)

Material originalmente publicado pela Radis

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