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10/10/2021 | domtotal.com

Bonecos de ventríloquo

Bolsonaro pode até estar mais comedido, mas as barbáries do seu governo continuam a todo vapor

Queiroga faz gesto obsceno no dia em que o país chega ao indecente número de 600 mil mortos pela Covid-19
Queiroga faz gesto obsceno no dia em que o país chega ao indecente número de 600 mil mortos pela Covid-19

Mary Zaidan*

Desde a tal “declaração à nação” redigida pelo ex Michel Temer, o presidente Jair Bolsonaro vem mantendo “o calor do momento” sob controle. Esbarra nos paus, mas tem evitado derrubar a barraca por cima de si. Suas mentiras e as barbáries praticadas por seu governo, no entanto, continuam a todo vapor. Além dos disparates da ministra Damares Alves, abilolada conhecida, as imbecilidades de Bolsonaro agora ecoam via ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

Na sexta-feira, dia em que o país chegou ao indecente número de 600 mil mortos pela Covid-19, Queiroga, que já havia exposto seu lado sabujo com o gesto obsceno contra manifestantes em Nova York, abusou do direito de falar asneiras. Para se opor ao uso obrigatório de máscara e lambuzar as botas do chefe, comparou a proteção facial ao uso de preservativo, como se um vírus solto no ar, que infecta coletivamente, tivesse alguma semelhança com a transmissão de HIV e outras doenças venéreas. “Eu vou fazer uma lei obrigando as pessoas a usar preservativo?”.

Não bastasse, engrossou o desdém com que o governo trata a pandemia. “Do coração morrem 380 mil todo ano”, disse o ministro, que antes de sucumbir a Bolsonaro presidia a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Registre-se: as cardiopatias eram responsáveis pela maioria das mortes por doenças no Brasil até 2019, quando perderam a liderança para a Covid.

Para completar, arrumou uma argumentação canhestra - falta de registro definitivo - para excluir a CoronaVac do cardápio de compras do governo federal no próximo ano. No mesmo dia da nova patacoada brasileira, a CoronaVac, aprovada há meses pela OMS, se tornou uma das vacinas válidas para entrada de turistas nos Estados Unidos.

Tratado por Bolsonaro como “vachina”, o imunizante do Instituto Butantan tem apenas um defeito: foi obtido por João Doria, o inimigo-mor. O governador de São Paulo pode até ser criticado pela publicidade exagerada em torno da vacina, mas tem o mérito - e isso ninguém tira dele - de ter iniciado e mantido, quase sozinho, o abastecimento de doses nos primeiros meses da imunização nacional. Pela lógica bolsonarista, merece ser punido.  

Imbatível nas estultices, Damares encerrou a sexta-feira com mais uma das suas. Instada a falar sobre o veto abjeto de Bolsonaro aos absorventes para mulheres pobres, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, saiu-se com a pérola: “A gente tem de decidir: a prioridade é a vacina ou é absorvente?”.

O país sabe como são as decisões do governo. Preferiu cloroquina no lugar de vacina.

Aliás, mesmo sem previsão orçamentária, motivo alegado para o veto aos absorventes, o governo Bolsonaro antecipou gastos de quase R$ 90 milhões para o ineficaz kit Covid. Tampouco havia previsão de recursos para as motociatas de campanha, que consumiram mais de R$ 3 milhões.   

Não faltam exemplos de decisões nefastas, como a inclusão do santuário ecológico de Fernando de Noronha no leilão de áreas para exploração de petróleo, iniciativa que, felizmente, fracassou. O investidor, ao contrário do governo, passou a temer o impacto de danos ambientais à sua imagem, além, claro, de fugir dos riscos jurídicos e das instabilidades políticas e econômicas do país.

 Outro exemplo recente de decisão infame foi o corte no orçamento de Ciência e Tecnologia que, de acordo com nota divulgada pelas entidades do setor, alcançou 92% dos recursos previstos para bolsas e pesquisas. Dos R$ 690 milhões, restaram apenas R$ 55,2 milhões. Ironicamente, quase a mesma quantia que o ministro da Economia Paulo Guedes mantém nas Ilhas Virgens - U$ 9,54 milhões, R$ 51,8 milhões ao câmbio de hoje.

O rol de decisões avessas ou que, como Damares e Queiroga, misturam propositalmente bugalhos e alhos é gigantesco. Trata-se de um governo que desmonta, desmantela e nada põe no lugar - na Saúde, na Educação, na Cultura, no Meio-Ambiente...Uma desconstrução cotidiana.

O presidente boquirroto pode até estar mais comedido, mas nem por isso menos danoso.

*Mary Zaidan é jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia e Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Escreve às segundas-feiras no Dom Total  

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