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05/08/2019 | domtotal.com

A beleza que nos pertence

A beleza das coisas só existe no espírito de quem as contempla.

A beleza existe em tudo, no bem como no mal. Mas só os artistas e os poetas sabem encontrá-la.
A beleza existe em tudo, no bem como no mal. Mas só os artistas e os poetas sabem encontrá-la.

Por José Tolentino Mendonça*

Eu gosto de pensar que a mesma raiz etimológica conecte, em grego, o adjetivo “belo” (kalós) e o verbo “chamar” (kaléo). A beleza, portanto, assim aparece como um chamado. Toda vocação humana é a resposta para a atração de algo (ou de alguém!) que nos chama. Sem esse apelo fundamental, a nossa vida ficaria desprovida de motivação e cada vez mais distante de sua realização autêntica.

A verdade é esta: se a alegria do encontro, se a surpresa de uma paixão, de um "que lindo!", exclamado com o coração, não precede as renúncias ou os sacrifícios, estes só gerarão tristeza, rigidez, rigor e frustração.

A vida não começa com a ética, mas com a estética. Procede não por obrigação, mas graças à força da atração. A beleza desperta a alma para agir.

Na vida, não se avança por decreto. Como na parábola de Jesus, o ponto de transformação é a descoberta da pérola escondida ou o tesouro no campo. Somente assim experimentaremos que "onde está o nosso tesouro, lá estará também o nosso coração".

A vida humana não é estática, mas sim extática. A vida é êxtase, movimento, desejo de se juntar ao objeto de amor. Consuma-se por uma paixão que brota de uma beleza capaz de nos iluminar. No entanto, pertencemos a um tempo e a uma cultura que parecem ter renunciado à beleza. Para redescobri-la, provavelmente teremos que abraçar o silêncio e a lentidão dos caminhos menos frequentados.

Vivemos em uma sociedade onde tudo é descartável e onde o consumismo nos faz viver mais rápido do que deveríamos. Zygmunt Bauman define essa modernidade como uma sociedade baseada na fragilidade das relações humanas.

Tudo flui muito rápido e escapa das nossas mãos, porque não nos esforçamos para contê-lo. O belo e o novo são valorizados como um reflexo do consumismo puro; é algo etéreo que é adorado e mais tarde descartado.

As pessoas obcecadas com esse tipo de relacionamento interpessoal, baseado apenas na aparência impecável, estão condenadas a ficar sozinhas. A beleza pessoal é uma recomendação maior que qualquer carta de referência.

Seu relacionamento será breve, durará o tempo que dure sua juventude. No entanto, o verdadeiro problema está nesse vazio interior, na baixa autoestima e na dependência absoluta das opiniões alheias.

Esses relacionamentos que não duram muito tempo procuram somente o prazer momentâneo. A beleza dever ser muito mais do que o aspecto físico; deve ser uma atitude diante da vida.

*O comentário é de José Tolentino Mendonça, poeta e teólogo, publicado por Avvenire.

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