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08/07/2019 | domtotal.com

Banzé no Curral D´El Rey

A conturbada transferência da capital de Minas Gerais, de Ouro Preto para Belo Horizonte.

Minas importava europeus para 'branquear' a raça escurecida por excesso de sangue africano.
Minas importava europeus para 'branquear' a raça escurecida por excesso de sangue africano.

Por Marco Lacerda*

A história que vou lhes contar é baseada no testemunho de uma família negra que trabalhou para a minha família há mais de um século. Tudo começa com a chegada dos primeiros imigrantes italianos a Belo Horizonte, em 1892, quando isso aqui ainda era conhecido como Curral D´El-Rey, porque aqui ficava o curral onde o gado pernoitava e era arrecadado o imposto devido ao rei do Portugal. Era um tempo em que os cães latiam sem trégua nas ruas e soprava um vento que, segundo os nativos, carregava o germe da loucura.

Minas era uma espécie de terra prometida habitada por grande número de escravos trazidos da África. Para cá vinham também bandeirantes, mercadores e aventureiros em busca de ouro e lucros fáceis. Na época, o governo oferecia passagem e pagava as despesas de translado a qualquer estrangeiro, de preferência europeu, interessado em imigrar para o Brasil e trabalhar nas obras da nova cidade, Belo Horizonte, que seria construída para substituir Ouro Preto como capital.

Aproveitando a oferta, meu tataravô, Vicenzo Zanchi, um calabrês condenado em sua terra à forca e à prisão perpétua, simultaneamente, desembarcou no vilarejo acompanhado da irmã, Sophia, trazendo uma fortuna de origem ignorada. Instalaram-se numa casa cedida pelo governo no bairro de Santa Tereza, na época conhecido como o bairro dos imigrantes. À noite, Vicenzo enchia a cara no Clube Rose e frequentava o Hotel Monte Verde, a casa de prazeres onde Curral D´el-Rey perdia a virgindade. Nas ruas, participava de serenatas ao luar com sua possante voz de barítono e um mau hálito que nem gargarejos com creolina conseguiam debelar. Sua pièce de résistance era Vieni sul mare, canção napolitana que, mais tarde, tornou-se o hino Oh! Minas Gerais e que Vicenzo cantava com ímpeto de fazer tremer as fundações da serra.

O casamento entre parentes era comum entre os habitantes do Curral, principalmente nas classes abastadas, para reter os grandes patrimônios em família. O costume foi adotado pelo primeiro proprietário do lugar, João Leite da Silva Ortiz, paulista, sobre o qual muito se fala mas não se pode provar nada – a não ser que casou com uma prima, Isabel Bueno, e o exemplo passou a ser seguido como se fosse moda.

Largo da matriz da Boa Viagem no Curral D´El Rey, 1894.

Para proteger a desaforada fortuna trazida da Itália, Vicenzo foi mais longe: casou-se com a própria irmã Sophia, uma mulher atormentada pelo presságio de que um pavoroso deslizamento de terra faria a Serra do Curral desabar, soterrando a capital que acabara de surgir, num espetáculo dantesco só comparável aos que se veriam muito mais tarde nos filmes de Cecil B. de Mille.

Influenciada pelos negros do lugar, Sophia, que sempre fora uma mulher de convicções católicas, converteu-se à fé iorubá e passou a praticar ambas, sem nenhum critério. Andava pelas ruas carregando uma mala de ebós – sal grosso, búzios, velas de sete dias, trevos, pés de coelho e galhos de arruda em quantidade suficiente para redimir Sodoma e Gomorra. Gritava, para quem quisesse ouvir, que o presidente Afonso Pena abrira as portas de Minas aos imigrantes europeus não para ajudarem a construir a nova capital, mas para “embranquecer” a raça local escurecida pelo excesso de sangue africano. Juntos, Vicenzo e Sophia tiveram seis filhos, seis pequenos calabreses que, ao abandonarem as tetas maternas, passavam a ser engordados com uma dieta implacável à base de leitão à pururuca no café da manhã e pizza de torresmo nas demais refeições. Com o tempo, a dieta, além de fazê-los alcançar níveis de obesidade que os impedia de sair de casa, pois não cabiam nas portas, fez surgir pelos de porco em seus corpos, como castigo pela perversão da família. Num deles, o pequeno Alberto, a camada de pelos tornou-se tão espessa que o menino adquiriu feições de uma ratazana medonha que atacava as visitas nos saraus promovidos em casa por Vicenzo Zanchi. O menino acabou detido numa jaula no quintal.

Alheios às consequências cármicas do seu comportamento, os moradores do Curral D´el-Rey seguiram acasalando-se num desvario de incestos que chegou a provocar a intervenção da Igreja para conter aquela conduta biologicamente reprovável. Mas a própria Igreja, que sempre condenou tais atos, foi obrigada a ceder e abençoar aquelas uniões espúrias, pois de outra forma os lares não se formariam ou dariam origem a pecados igualmente inconvenientes, como o concubinato. A certa altura, os pares românticos mais invejados do Curral D´El-Rey eram formados por filhos de um mesmo ventre e já não era possível dizer quem era filho de quem nem com quem, pois todos eram idênticos.

Naquela época já se sabia que casamentos entre consanguíneos produzem uma gente apática e sem interesse pelo trabalho. E trabalho era o que não faltava. Havia uma cidade inteira a ser construída e a letargia dominava a mão-de-obra. Com a ajuda de seus manuais de alquimia, Vicenzo inventou uma emulsão capaz de incrementar a vitalidade mas que, nos primeiros dias de uso, causava perturbações do juízo que levavam muitos a se atirar em precipícios ou a se despedaçar contra os postes nas ruas. Fosse por apatia ou loucura, as mortes eram frequentes e o cemitério em frente à Matriz da Boa Viagem ficou pequeno para enterrar cada nova perda. Os defuntos ainda estavam quentes na cova e já se tinha de desalojá-los, às vezes em decomposição, para enterrar mortos mais recentes.

Cabana de escravos em Minas, tela de Johann Moritz Rugendas.

Seja como for, animados pelo estimulante, àquela altura já chamado de “bebida do demônio”, os moradores do Curral D´El-Rey abriram ruas e avenidas, construíram pontes, ergueram palácios, igrejas, parques e entregaram a nova capital pronta para ser inaugurada no prazo acertado: 12 de dezembro de 1897.

Desde cedo a população acotovelava-se na Praça da Estação, à espera da comitiva oficial que presidiria a solenidade. Depois de desembarcar do trem, a delegação comandada pelo então presidente de Minas Gerais, Crispim Jacques Bias Fortes, subiu a pé a Rua da Bahia, a caminho da Praça da Liberdade, futura sede do governo. Os moradores de uma favela das imediações – uma das primeiras do país – acenavam com lenços brancos numa entusiasmada saudação aos visitantes ilustres. Irritada com aquela demonstração de subserviência dos pobres da época, Sophia Zanchi abandonou por um momento o cortejo, arrancou do sutiã seu patuá de urgências e gritou para os descamisados: “Minas trabalha em silêncio, gentalha!” Estava lançado o slogan que tornaria os mineiros conhecidos no resto do país.

Numa aparição especial lá estava o tataravô do cacique Juruna, que, partindo da Amazônia, atravessou o país a nado, saltando de cipó em cipó, até chegar a Minas. Compareceu ao evento fantasiado de índio Sioux. Usava um fabuloso cocar de penas de pavão de Krishna e levava a tiracolo um conjunto de arco e flecha em prata de lei, cravejado de turquesas importadas do Arizona.

No trajeto até a Praça da Liberdade, um percurso de 2 quilômetros sob um sol de Senegal, muitos fraquejaram. Mas a qualquer sinal de fadiga, Vicenzo Zanchi sacava da mochila um de seus xaropes revitalizantes e ordenava aos abatidos que tomassem todo o conteúdo do frasco de um só gole.

Prédio dos Correios, avenida Afonso Pena, 1910.

O primeiro a ingerir a poção mágica foi o chefe do cerimonial do Palácio da Liberdade, que acabara de fazer uma operação para mudar de sexo e, em homenagem à nova cidade, exigia ser chamado de Novorizontina. Sob efeito do xarope, Novorizontina perdeu a cabeça, arrancou da bolsa uma garrucha de bom calibre e abriu fogo a esmo, antecipando em mais de um século o lançamento do movimento LGBT. Como comandante supremo da comitiva, o presidente Bias Fortes ordenou: “Todos ao chão!” E os integrantes do cortejo deitaram-se de bruços em plena Rua da Bahia, certos de que eram alvo de um atentado terrorista de dissidentes de Ouro Preto contrários à mudança da capital para Belo Horizonte.

Deitado na rua, o doutor Bias Fortes percebeu que Novorizontina tentava refugiar-se numa casa da vizinhança, segurando o trabuco numa das mãos e uma sombrinha aberta na outra: “Tenha piedade, dona Novorizontina! gritou o presidente de Minas, com um rosário nas mãos e o fraque manchado de lama. “Como se não bastasse querer nos matar, a senhora comete o mau agouro de entrar numa casa com uma sombrinha aberta!”

Tarde demais. Encurralada, Novorizontina arrastou o cônsul da França como refém e exigiu que o governo francês revelasse ao mundo a fórmula de Chanel nº 5. Temendo que o segredo do seu perfume favorito fosse desvendado em público, a primeira-dama de Minas, dona Adelaide Bias Fortes, fez uma pose transcendental, recitou o mantra da decolagem e alçou voo num monoplano Bleriot – a asa-delta da época – com destino ignorado. Aterrissou numa plantação de alface pouco adiante antevendo a manchete dos jornais no dia seguinte:

PRIMEIRA-DAMA INVADE HORTA
Teme-se levante pela reforma agrária

Ao ver ruir a festa que planejara com dedicação milimétrica, o vice-presidente de Minas corria em círculos com os braços voltados para as alturas. Alvoroçadas pelos disparos de Novorizontina, as galinhas da cidade, que repousavam reflexivas ao sol, começaram a jogar-se estabanadas de seus poleiros, soltando cacarejos histéricos. Os filhos obesos do casal Vicenzo Zanchi rolaram ladeira abaixo feito pipas, até chocarem-se contra postes e explodirem, lançando muçarela e torresmo a dois quilômetros de distância.

Bar do Ponto, local de encontro de funcionários público, 1920.

Os ânimos só se apaziguaram com a intervenção enérgica de Sophia Zanchi. Depois de dominar Novorizontina com um golpe de caratê, tirou de sua nécessaire de ebós uma poderosa água-benta – a primeira arma na luta contra o demônio – e, com uma seringa, injetou-lhe uma overdose do líquido sacramental nas veias. Em seguida, amarrou o transexual num poste com uma longa tira de linguiças que trouxera de casa para ofertar ao poeta Augusto de Lima, um dos mais eloquentes defensores da mudança da capital.

A falta de sentido histórico de Vicenzo Zanchi teve o seu momento de esplendor quando ele, interrompendo o ritual da cerimônia de inauguração, aproximou-se do doutor Bias Fortes e abriu aos seus pés os originais de uma ideia que tivera num dos seus delírios megalômanos. Zanchi comprara todas as terras disponíveis ao redor da serra do Curral e, com a ajuda de engenheiros italianos, elaborou um projeto audacioso que previa a canalização das águas dos rios Doce e Paraibuna num único curso de águas caudalosas que iam indo, indo, crescendo, subindo, engrossando, agitando-se, seguindo com fúria de afundar Titanic, até desembocar majestoso sobre a serra do Curral, inundando a região da cidade hoje conhecida como bairro das Mangabeiras e formando uma réplica, em tamanho natural, de Niagara Falls.

Aterrorizado diante daquela alucinação, o doutor Bias Fortes jogou a papelada pelos ares, não sem antes ordenar a Vicenzo Zanchi que abandonasse os festejo e retornasse ao seu país de origem o mais breve possível. Na encrenca que se formou, o tataravô de Juruna disparou uma mangueira de incêndio e o jato d´água, de tão poderoso, atravessou as paredes do Palácio da Liberdade com um estrondo de guerra, desmontou a banda de música que se apresentava ao lado e arrastou pelas ruas toda a ilustre comitiva que participava do evento.

Sobre Sophia Zanchi ninguém sabe ao certo que fim levou. Uns dizem que se entregou a um desatino de práticas espirituais africanas aprendidas por correspondência e acabou louca. Abandonou de vez as obrigações domésticas e era vista às tardes no salão nobre do Grande Hotel, no centro da cidade, acompanhando Vicenzo Zanchi ao piano, interpretando a versão original de Oh! Minas Gerais. Em 1908, o hotel pegou fogo e o piano despencou até o andar térreo, mas continuou tocando por conta própria em meio às chamas e continuou a tocar por muitos anos sem a presença de um pianista. Os corpos de Vicenzo e Sophia nunca foram encontrados.

Este texto é baseado em documentos históricos do Arquivo Público Mineiro. Alguns personagens e passagens são fictícios.

Sala de aula do Grupo Escolar D. Pedro II, década de 1930.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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