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15/07/2019 | domtotal.com

A ilha que abandonou o tempo

O lugar mais feliz do planeta abandonou o compromisso com horários.

Os habitantes de Sommar passam os dias quase em total escuridão ou em plena luz.
Os habitantes de Sommar passam os dias quase em total escuridão ou em plena luz.

Por Marco Lacerda*

O tempo parou na pequena ilha de Sommar, ao norte do Círculo Polar Ártico, na Noruega – considerado um dos países mais felizes do mundo. Neste pedacinho de terra cercado de água por todos os lados, vivem pouco mais de 300 habitantes que decidiram abrir mão dos relógios porque os consideram desnecessários. Por lá, as pessoas passam boa parte de seus dias quase em total escuridão ou em plena luz e suas vidas se desdobram com tanta tranquilidade que eles consideram um contratempo serem reguladas pelos relógios.

No final de maio, os moradores convocaram uma assembleia que tomou uma decisão talvez única no mundo: eliminar os horários. De acordo com o relato do canal de televisão pública do país, o NRK, o acordo consiste na abolição da rigidez na medição do tempo.

Sommar tem nesta época cenas inéditas a altas horas de sua madrugada ensolarada. "No meio da noite, isso que as pessoas da cidade poderiam chamar de duas da madrugada, você pode ver crianças jogando futebol, pessoas pintando suas casas ou cortando a grama e adolescentes nadando", disse o propulsor da ideia, Kjell Ove Hveding, de acordo com a CNN. "Nosso objetivo é proporcionar o máximo de flexibilidade, 24 horas por dia, sete dias por semana. Se você quiser cortar a grama às quatro da manhã, faça-o."

Um símbolo da anulação dos horários previsto na iniciativa consiste em que os visitantes pendurem seus relógios na ponte que separa a ilha do restante do município a que pertence, Tromsø. É um gesto de imitação de outros lugares no mundo onde os turistas deixam cadeados. Se nessas cidades o gesto é para significar sua passagem pelo local, ou para fazer juras de amor, em Sommar será para se livrar de todo o compromisso com horários. Alguns dos relógios de pulso já pendem do parapeito da ponte.

Livres do compromisso com horários

Em plena madrugada crianças jogam futebol no verão de Sommar.

Apesar da concordância geral, alguns moradores duvidam de seu sucesso. A ilha agora se aproxima da estação do ano com 69 dias de quase plena luz. O NRK apresenta o depoimento de uma moradora, recepcionista de um hotel. "Acho que a ideia é emocionante, mas também sou um pouco cética", diz Malin Nordheim. "Vai ser um desafio para os hóspedes quanto aos horários de entrada e de saída e os de abertura do bar e do restaurante."

Os defensores dessa democrática eliminação do tempo afirmam que a ideia recebeu aplausos de outros lugares no remoto, quase desértico, norte da Noruega. Ainda assim, falta dar o salto legislativo e eles pretendem apresentar a iniciativa no Storting, o Parlamento nacional. Para isso, vários moradores se reuniram com os deputados para lhes entregar suas assinaturas e conversar sobre as implicações práticas da decisão coletiva.

 Nenhum deles acha difícil superar essas questões: "Para muitos de nós, ter este acordo por escrito não passa de formalizar algo que praticamos geração após geração”, disse um dos deputados. Se a iniciativa prosperar, será preciso ver como será aplicada depois do verão, quando forem retomadas as aulas nas escolas e, no decorrer do ano, nas suas 69 onipresentes noites.

Os moradores tomaram uma decisão inédita no mundo: eliminar os horários.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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