SuperDom Dom Maior

15/07/2019 | domtotal.com

Psicopatas com muito afeto

Hoje me pergunto: nós, fundadores do 'Jornal da Tarde', éramos levemente psicopatas?

A equipe de 'psicopatas light' que deu projeção nacional ao mítico Jornal da Tarde.
A equipe de 'psicopatas light' que deu projeção nacional ao mítico Jornal da Tarde.

Por Fernando Portela*

Tínhamos, quase todos, 20 e pouquíssimos anos. Não imaginávamos que construiríamos um mito do jornalismo brasileiro, apesar de sentirmos que ali havia um time bem entrosado e que – fundamental ao bom produto – divertia-se com o trabalho.

No entanto, sobre os méritos e glórias do Jornal da Tarde, o vespertino que a S.A. O Estado de S. Paulo lançou em 1966, vamos parar por aqui. Já se escreveu muito sobre isso. O assunto é outro.

Hoje me pergunto, tanto tempo depois: nós, fundadores do JT, éramos levemente psicopatas?

Fomos chamados de tudo, naquela época, sempre com a ressalva de que tínhamos talento: hippies, adolescentes mal resolvidos, irresponsáveis, subversivos. Mas talvez fôssemos algo mais sério, ao inventar, com enorme criatividade (modéstia à parte), situações constrangedoras a que os mais novos, e os recém-chegados, em especial, eram submetidos.

Confesso que participei de várias maldades, sempre movido pelas melhores intenções: como chefe de reportagem e depois editor, preocupava-me muito (eu e outros “veteranos” de 22, 23 anos) com a eventual ingenuidade dos “meninos” (alguns chegaram com 16 à redação). Ora, quem colhe informações, mais tarde levadas ao público, precisa de astúcia, desconfiômetro, e até ouso afirmar que um transtornozinho de personalidade paranoide não iria mal. Bom repórter não confia sequer em sua genitora. Mas, para alcançar essa condição, o candidato precisava ser “batizado”.

(Não posso citar nomes. As vítimas não gostariam e alguns algozes ficariam frustrados de tê-los esquecido neste pequeno relato. É que foram muitas, muitas obras, algumas primas.)

Houve quem dissesse que essa história de transformar ingênuos em espertos era apenas pretexto para exercemos nossa mal disfarçada psicopatia. Nego com veemência.

Mas é verdade que fiquei com pena de alguns garotos, como o coitado escalado no plantão de sábado para descobrir o que afinal acontecia em um sobrado do bairro da Bela Vista. Um telefonema anônimo nos contara que havia por lá um movimento estranho, vaivém de homens em condutas suspeitas. Ótima ocasião para que um foca, como chamávamos os novatos, treinasse sua perspicácia.

A cândida criatura chegou à rua, estranhamente deserta, postou-se na calçada oposta, observando o tal sobrado, andando de um lado para o outro. Não apareceu ninguém, nem na casa, nem na rua. Aí tomou coragem e foi bater à porta do sobrado, que logo se abriu e vários braços grosseiros o pegaram pelo pescoço, puxando-o para dentro. Foi jogado ao chão com violência e imediatamente revistado. Boa parte da polícia política estava ali à espera de terroristas, como eram chamados os grupos armados de esquerda. Vivia-se em pleno regime militar e essas emboscadas eram comuns. Aquele sobrado servia de “aparelho”, ou esconderijo.

O problema foi retirar o foca da cadeia, convencer o delegado-chefe da operação de que se tratava de um frágil e inofensivo – e um pouco abusado, reconhecemos – estagiário do Jornal da Tarde. Levou horas de trato diplomático. Não sei se o rapaz ficou mais esperto depois disso, porque desistiu rápido do jornalismo e voltou para o seu estado natal.

Já com um outro deu certo: foi escolhido para cobrir um crime ocorrido na periferia. Um fotógrafo já estava no local, onde havia um cadáver e vários policiais. O fotógrafo era dos nossos e pedimos que desse um trato no foca a caminho. Mas não imaginávamos o tamanho da maldade articulada junto com os policiais – que adoravam participar desses jogos vorazes.

Puseram o cadáver de pé em um armário, e deram um jeito para que o inocente o abrisse. Poucas pessoas neste mundo receberam um cadáver no colo, saindo de um guarda-roupas.  Esse foca tornou-se um dos mais espertos da turma. No entanto, reprovamos a brutalidade da experiência.

Certa vez nos chegou um telegrama muito estranho do correspondente de uma cidade do interior, dizendo que havia por lá uma menina perdida ao lado de um coiote. Coiote? Pegamos o desventurado da vez, fizemos uma vaquinha miserável entre nós, demos a ele o suficiente para a passagem de ônibus de segunda, dois sanduíches e uma noite num pardieiro ou bordel. Ele ligou já tarde, depois de um dia exaustivo.  

“Identificaram a menina.”

“E o coiote?”

“Os investigadores garantem que é cachorro.”

A busca sincera do aprimoramento profissional, usada como justificativa para essas torpezas do bem, acabou desvirtuada por alguns arrivistas, e a psicopatia generalizou-se. Assim, um colega recém-casado saiu de carro da igreja, em direção à lua de mel em Paraty, sendo perseguido na Dutra inteira por um colega que não só se hospedou no mesmo hotel, como passou a noite batendo à porta dos nubentes.

Meses depois, o autor da indignidade recebeu o troco no próprio casamento, quando as escadarias da sinagoga, onde ocorrera a cerimônia, foram cobertas de urubus, e traques explodindo nos pés dos convidados, além de um menino de 10 anos  pulando no colo do noivo aos gritos de “papai!”

Foi uma produção cara. Não é fácil conseguir quem capture urubus e os mantenha engaiolados por um tempo. O rabino, próximo de um infarto, amaldiçoou até a última geração de todos os participantes da brincadeirinha.

Chegou uma hora em que respeito e limites foram superados de vez e as infâmias voltaram-se até contra os veteranos. Um deles, fotógrafo, viajou ao Recife para trabalhar com um grupo de repórteres. Cometeu o terrível erro de entrar em coma alcoólico e deitar-se nu na cama do hotel. Os olhos do pessoal brilharam: um corpo inerte à disposição. Armaram, então, uma cena que não posso descrever, de tão politicamente incorreta, mas garanto que aquele corpo foi trabalhado com enorme competência. Ao acordar-se e sentir-se estranho, a vítima assustou-se: “O que é isso em mim? O que é isso?” Um dos rapazes foi escalado para revelar a devastadora intromissão. Disse, de uma forma mais coloquial, algo como “velho, foste violado...”

Dizem que, até hoje, o escândalo promovido por aquele senhor é comentado no hotel. Ele tentava agredir os colegas enquanto exigia que o(s) violador(es) se identificasse(m).

Éramos psicopatas? Não estou certo. Tratávamos algozes e vítimas como irmãos. Sempre! Diria até que nos amávamos tanto.

Mesmo quando a coisa saía do controle. Apareceu uma estagiária mais velha, uns 40 anos, de uma ingenuidade doentia, e que precisava ser salva. Foi logo convocada para separar textos, nacionais e internacionais, vindos dos teletipos, aparelhos telegráficos de antigamente que abasteciam as redações de notícias. Trabalho fácil: apenas classificar o que era economia ou esportes ou artes etc.

Boa parte das matérias, no entanto, era produzida por nós mesmos, em pelo menos três línguas, e a cândida senhora lia, em primeira mão, matérias emocionantes como a invasão da Bolívia por “bolotas voadoras”. Chegou a ligar para casa do dono do jornal, denunciando os colegas que não davam a mínima para a notícia do século. Foi o primeiro revertério que sofremos.

Mas houve um segundo golpe mais grave. Aquela mesma senhora havia escrito um livro que vamos chamar ficticiamente de O analista. Num dos telegramas falsos, inventamos que no estado de origem dela, o livro, junto a outras obras subversivas, pornográficas e satânicas, havia sido queimado em praça pública por hordas de conservadores furiosos. Por pouco ela não teve um chilique.

A ingênua era bem relacionada, socialmente, amiga do governador do seu estado. E ele, para azar nosso, visitava a empresa naquele exato momento, ao lado de toda a direção, inclusive os proprietários. A estagiária sabia da visita e, indignada, pegou o telegrama falso, invadiu o salão nobre do prédio e quase o esfregou na cara do governador, bramindo: “Tocaram fogo n’O analista! Terra de índio! Aquilo é uma terra de índio!”

Lembro-me de que nossa comissão de crise, encarregada de explicar o contratempo e pedir desculpas ao governador, teve uma surpresa com a reação do político: ele se dobrou de tanto rir. Mas ninguém o chamaria de psicopata por causa disso.

*Fernando Portela é escritor e jornalista. Um dos fundadores do Jornal da Tarde, vive intensamente os dois papéis há muitos anos. Publicou dezenas de livros de ficção adulta, juvenil e infantil; reportagens; pesquisas históricas; e paradidáticos. Acaba de lançar seu quinto livro de contos adultos, A velha chama e a negra solidão, pela Desconcertos Editora, de São Paulo (http://www.desconcertoseditora.com.br/index.php)

Comentários
Instituições Conveniadas