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22/07/2019 | domtotal.com

Os versos mais exagerados

Um passeio por algumas das mais tresloucadas declarações de amor.

Em suas canções, Vinicius de Moraes jurou amor eterno a umas 25 mulheres.
Em suas canções, Vinicius de Moraes jurou amor eterno a umas 25 mulheres.

Por Sérgio Vaz*

Adoro os exageros. Não propriamente os materiais, os físicos, tipo soco demais, tiro demais – mas os que não ferem ninguém, a não ser os cultores do pouco, do mínimo.

The Rockies may crumble, Gibraltar may tumble, they’re only made of clay. Muito diferente de our love, que is here to stay.

Ah, que maravilha o sujeito dizer que as Montanhas Rochosas podem desmoronar, o rochedo de Gibraltar pode tombar, porque, afinal de contas, são apenas feitos de barro, bem ao contrário do nosso amor, que está aqui para ficar.

Florbela Espanca, então, ia logo para cima da Divindade: “Tu és como Deus, princípio e fim”.

Florbela escrevia na última flor do Lácio, inculta e bela. Dizem que os latinos são assim exagerados, passionais. Interessante, porque não me consta que Ira Gerswhin, autor daqueles versos a respeito da durabilidade das Montanhas Rochosas, de Gibraltar e do amor do sujeito que canta a canção seja propriamente um passional latino.

Nem tem nada de latino outro judeu, nascido na Rússia, Irving Berlin, que, entre as suas cerca de 3 mil canções, escreveu que days may not be fair always, That’s when I’ll be there always. Not for just an hour, Not for just a day, Not for just a year, But always. Não por apenas uma hora, não por apenas um dia, não apenas por um ano – mas sempre. Sempre. Eu vou te amar para sempre.

Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo em “Os Guarda-Chuvas do Amor”, de 1964.

Esses animais bípedes sem pluma que se consideram a mais perfeita das criações sempre proclamaram esse tipo de juramento – eu vou te amar para sempre – mesmo sem ter a menor idéia do que significa o conceito “sempre”.

Há os que dizem que vão amar sempre e mesmo depois que o sempre tiver desaparecido. Mesmo que a vida acabar e existir alguma eternidade além dela. Bob Dylan escreveu que if there is eternity I’d love you there again. Se existir eternidade, eu te amaria lá de novo.

Diante de tantos exageros de artistas que não têm uma gota de sangue latino sequer, parece um exagerozinho bem pequeno o italiano Pino Donaggio dizer que eu que não vivo mais uma de hora sem você, como posso viver uma vida inteira sem você?

E quando Pablo Neruda diz que pode escrever os versos mais tristes esta noite, por pensar que não tem, por sentir que a perdeu, exagera na beleza do versos – mas fica anos luz atrás de exageros da lógica como os de Ira Gerswhin e Irving Berlin.

Vinicius de Moraes, carioca a não mais poder, um tipo muito peculiar de latino, soube cultivar como poucos a relativização das coisas. Reduziu o infinito a uma chama que é eterna apenas enquanto dura. Belíssima sacada para racionalizar o fato de se casar com uma dezena de mulheres. Eu sei que vou te amar por toda a minha vida, por toda a minha vida eu vou te amar. O puto do poetinha disse para umas 25 mulheres que as amava para todo o sempre – e elas ficaram felizes da vida.

Vinicius é grande. Exagero é como ele mesmo. Analisemos isto aqui: Eu sem você / Não tenho porquê /  Porque sem você / Não sei nem chorar / Sou chama sem luz / Jardim sem luar / Luar sem amor / Amor sem se dar.

Ah, meu, isso é o exagero do exagero do sujeito se declarar uma absoluta porcaria, um nada, uma pustema, a poeira do cocô do cavalo do bandido: o apaixonado simplesmente admite que não existe sem a amada. Não é coisa alguma – sequer o cocô do cavalo do bandido.

"Amor, Sublime Amor" terá remake de Steven Spielberg este ano.

Briga de foice é saber quem conseguiu compor o apaixonado mais babaca, mais nada, mais pustema, mais poeira do cocô do cavalo do bandido – se Vinicius ou se aquela espécie de Vinicius do plat pays que tinha les cathédrales pour uniques montagnes – um país tão plano que as catedrais eram suas únicas montanhas, o belga Jacques Brel.

Para pedir que a amada não o deixasse, Brel colocava seu apaixonado na posição mais humilhante que pode haver no mundo:

Je ne vais plus pleurer / Je ne vais plus parler / Je me cacherai là / À te regarder danser et sourire et  / À t’écouter chanter et puis rire / Laisse-moi devenir l’ombre de ton ombre / L’ombre de ta main / L’ombre de ton chien.

Meu Deus: o cara balbucia que não vai mais chorar, não vai mais falar porra nenhuma, vai apenas se esconder para ficar vendo a amada dançar e sorrir, para escutar a amada cantar e rir – e suplica para que ela permita que ele vire a sombra do ombro dela, a sombra da mão dela, a sombra do cachorro dela.

Caceta! Nenhuma mulher, nenhum homem, ninguém em sã consciência poderia aceitar manter uma relação com uma pessoa que se humilha esse tanto!

Quel horreur!

Talvez a canção exagerada mais suave, mais doce, seja aquela que o então garoto Bob Dylan compôs, entre um protesto contra a injustiça social e outro protesto contra a injustiça social, e que fala assim: There’s beauty in the silver, singin’ river / There’s beauty in the sunrise in the sky / But none of these and nothing else can touch the beauty / That I remember in my true love’s eyes.

Na sua única canção que Elvis Presley gravou, o jovem Dylan admitia que há beleza no rio límpido que canta, num alvorecer – mas nada disso, e nada mais que possa existir no mundo sequer encosta na beleza dos olhos da amada.

Ah, minha amada, que olhos os teus – mas aí voltamos a Vinicius.

Os exageros dos poetas não têm fim.

Me sinto tentado a dizer que o poeta é um exagerador, chega a exagerar a dor que deveras sente – mas aí acho melhor parar.

"Casablanca", com Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, de 1942.

 

*Sérgio Vaz é jornalista, ex-Estadão, Agência Estado,
Jornal da Tarde, revistas Marie Claire e Afinal.
Edita os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

 

 

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