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05/08/2019 | domtotal.com

Enxuga os meus olhos

Um relato sobre as condições desumanas e a barbárie do cotidiano nas prisões brasileiras.

Prisões existem para recuperar pessoas, não para transformá-las em monstros.
Prisões existem para recuperar pessoas, não para transformá-las em monstros.

Por Marco Lacerda*

Até uma certa altura da caminhada, desviar-se da rota era habitual na vida de Pacha. Passou anos perdendo-se nos caminhos do mundo até descobrir o rumo de volta para casa. Voltar para casa passara a ser sentar-se com a coluna ereta e acompanhar a própria respiração. Assim ele encontrava o seu centro de gravidade, sua casa. Foi o único fruto que Pacha colheu nas muitas estradas por onde andou, uma forma milenar de meditação conhecida como zazen, que ele aprendera em mosteiros da Ásia e da Califórnia.

Zazen era o único bem que Pacha levava em sua bagagem de andarilho sem rumo, além da mochila onde carregava uma muda de roupa, um saco de dormir, três tijelinhas (uma para comer, uma para beber, outra para servir) e um exemplar surrado de “A Desobediência Civil”, de Henry David Thoreau, que o acompanha desde a adolescência, que pautou sua vida e que se manifestará ao longo desta reportagem.

Pacha sabia, desde a partida, que não havia luz no fim do túnel em que se metera. Se um homem marcha numa cadência diferente da de seus companheiros, é porque ouve outro tambor. Assim era Pacha, estrangeiro num mundo onde o caos se estabeleceu e os homens há muito deixaram de viver, apenas suportam sua existência em resignado desespero. Estranho na realidade em que nasceu, uma sociedade devastada por corrupção, violência e medo, onde o povo já não se eleva ao padrão dos seus melhores integrantes, mas degrada-se ao nível dos piores.

A metade da população carcerária brasileira está armada.

Pacha foi seguindo seu destino de caminhar aonde a estrada leva. Bandeira ao vento que não separa paz de sofrimento, compreendeu, como Thoreau, que o único lugar digno para um homem justo é a cadeia. Era uma tarde de chuva escura quando deu entrada em um complexo prisional nos cafundós do Brasil, famoso por abrigar a fina-flor da bandidagem do país, parida nos cafundós da miséria, filhos do descaso, do abandono, do ódio - retrato nítido da injusta organização social de uma nação sem rumo. Pacha levava em segredo uma sentença auto-imposta: passar o resto da vida naquele lugar.

Não foi difícil driblar as regras da colônia penal, tão podres e inúteis quanto seus inquilinos. Não há scanners corporais ou funcionários treinados para controlar entradas e saídas. Permite-se a entrada de bebida alcoólica, drogas e avalanches de telefones celulares. Com eles, os presos divulgam nas redes sociais as condições desumanas em que vivem, para que todo o mundo veja – como as imagens de uma tarde sangrenta em que, durante uma rebelião, presos de uma milícia eram decapitados enquanto membros da facção rival passeavam ao redor da barbárie, com celulares nas mãos, filmando o que restara da vítimas. No mesmo dia, em entrevista a um canal de TV, um presidiário deu uma bofetada na cara do Brasil: “Presídios são construídos para recuperar pessoas como eu, que pago por crimes que cometi, não para me transformar num monstro”, disse.

Dezenas de presos se amontoam em celas imundas e promíscuas.

Pacha chegou ao local imbuído do espírito de um voluntário disposto a ensinar meditação zen aos presos que se interessassem, como um instrumento de pacificação e harmonia. Chegara o momento de dividir com outros o grande bem que guardava. Aquele parecia ser o lugar certo, um morredouro de gente, um lugar esquecido no mundo, habitado por homens sem nome, sem rosto, sem destino, excluídos da sociedade.

Enquanto caminhava pelos corredores do presídio, no mesmo fim de tarde em que chegou, Pacha observa dezenas de presos se amontoando num corredor, formando uma longa fila que terminava em uma mesa servida fartamente com 150 linhas de cocaína. Um a um, os presos aspiram todo o pó, em meio a um clima de festa e ostentação, em plena luz do dia.

Embora as celas sejam planejadas para acomodar dez detentos, dentro delas acotovelam-se trinta, às vezes cinquenta. Quando Pacha entrou pela primeira vez na sua, todas as camas e espaços no hão estavam ocupados. O prisioneiro novato desenrolou seu colchonete num canto apertado, achando normal que o último a chegar fosse menos favorecido. Sua atitude surpreendeu os demais. Pacha mostra-se desde o começo um cara simples, determinado a cumprir seu tempo em paz, sem provocar marolas sem bancar o importante. Evita palavras e gestos inúteis, não se queixa do trabalho. Sem alarde, impõe com calma autoridade sua maneira pessoal de ver e fazer as coisas.

No início, surpreende a todos que nunca aceite uma partida de baralho ou de porrinha, prefere ficar no seu canto lendo e escrevendo, mas não hesita em dar uma mãozinha quando alguém precisa de ajuda numa carta para a namorada, para a mãe ou para algum advogado. Fica evidente que por trás daquela figura serena esconde-se uma montanha inabalável.

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo: 816 mil presidiários.

“Esbarrei com homens fracos e maus que roubaram, mataram e agora são torturados pelo Estado nesses calabouços sórdidos”, Pacha escreveu em seu diário. “Sou irmão deles, pobre como eles, sacudido pelos ventos funestos de outras prisões, aquelas que construímos para nós mesmos pela vida afora. Ouço o seu clamor desde sempre, companheiros, hóspedes das masmorras. Não os julgo. Sou um de vocês”.

Uma noite, quando escrevia em seu diário à luz de uma vela, foi interrompido por Dondo, um companheiro de cela: “Você é escritor, não é? Porque não escreve a minha história? Daquela dia em diante, Pacha não teve mais sossego. Logo teria material suficiente para muitos livros, nenhum deles com final feliz. Ouviu, entre outras, histórias sobre a saga de uma quadrilha de milicianos que aterrorizaram o Rio de Janeiro, mataram rivais e policiais sem piedade e, como consequência, foram condenados a penas que vão de vinte anos a perto de prisão perpétua. 

Conheceu a triste desventura amorosa de Mussoco, 23 anos, o detento que, à espera da libertação que se aproximava, há semanas enchia o saco dos companheiros ao descrever, passo a passo, o caminho que o levaria à noiva. Na véspera do grande dia recebe uma carta em que ela confessa ter-se juntado a outro homem. Pacha tentou confortá-lo, mas calou-se ao ouvi-lo dizer: “Eu dei a ela a única coisa que eu tenho: meu coração”. Naquela madrugada, enquanto todos dormiam, Mussoco matou-se usando os trapos sujos que forravam seu colchonete para improvisar uma forca no teto da cela. A realidade é um fardo que nem todos conseguimos carrega sozinhos.

Um dos presidiários com quem Pacha logo passou a se entender melhor era Cachongo. Aos 32 anos o cara era um gigante de cabeça raspada que já passara 12 na cadeia e admitia ser um homem cercado de crimes como os habitantes de uma floresta vivem cercados de árvores. Madrugador, Cachongo logo se interessou por aquele estranho exercício que Pacha praticava diariamente antes do amanhecer.

Celulares e drogas circulam livremente nos presídios.

Fosse verão ou inverno, mesmo quando o termômetro na cela subia acima dos 40 graus ou despencava abaixo de zero, lá estava Cachongo, seguido de outros presos, de short e camiseta, todos sentados com a coluna ereta diante de uma parede, ares de ascetas orientais que nada revelavam sobre seus corações de penumbras e  passados pedregosos.

Logo Quissama juntou-se ao grupo. Como o de Pacha, o dia de Quissama começava às 5h30 da manhã, quando uma sirene anunciava a alvorada num volume de fazer tremer os alicerces do lugar já meio em ruínas. Na verdade, começava mais cedo, pois, por iniciativa própria, acordava às 4h30. Enquanto todos ainda roncavam no pavilhão, sozinho, deitado como um defunto sob a coberta, Quissama observava a própria respiração. Aquele momento pertencia-lhe, ele o amava, deleitava-se com ele. Não tinha relógio, não precisava consultar a hora para saber, praticamente no minuto exato, quanto tempo lhe restava antes da sirene de despertar e do pandemônio que logo se seguia. À sua aproximação, sentia-se como um motor esperando a ignição. A sirene uivava, os carcereiros praguejavam, os ocupantes dos colchonetes de cima despencavam sobre os de baixo. Começava o corre-corre pelos corredores imundos, rumo aos banheiros, a troca de porradas sem motivo.

Hora do café da manhã. Quatrocentos delinquentes sucediam-se em vários turnos num refeitório com capacidade para apenas 100. Tilintar de colheres, sorvos de glutões primitivos, todos protegendo seus pratos de alumínio amassados e retorcidos como se houvesse o perigo de alguém roubar sua ração matinal de sopa de legumes velhos e pão dormido. Aquela alimentação respondia pelo tom cinza de suas peles e pelo cheiro doentio de suas fezes, uma dieta que, sem permitir que morressem de fome, sugava-lhes toda a energia.

Haverá novas rebeliões e massacres dentro e fora das cadeias.

Pacha sabia o que lhe esperava. Até o anoitecer era proibido de voltar ao seu pavilhão, aos livros e blocos de anotação. Tinha que dedicar-se, como os demais, a tarefas árduas, tipo arear latrinas fétidas e sem tábuas. E o fazia com a paciência budista que aprendera. Quando tinha a seu lado um companheiro, exortava: nos mosteiros budistas, quem lava as latrinas leva o nome de benji; é a última provação à qual um monge é submetido antes de tornar-se o mestre supremo de um mosteiro.

Ouvir aquilo não maquiava o cotidiano miserável de garotos com almas apodrecidas pelo passado marcado por dilacerações, crimes hediondos e pelo sentimento de que vivem num mundo ao qual não pertencem. À noite, quando as luzes se apagam e tudo se aquieta dentro do presídio, ouve-se choro e ranger de dentes pelos cantos. É o momento em que os “monstros” confinados atrás de grades podem deixar à mostra a sua fragilidade. Alguns deles, aparentemente heterossexuais, fazem sexo em seus colchonetes duros, com a proteção dos demais. De um desses, Pacha ouviu o relato que mais o impressionou e que assim anotou em seu diário:

“Zulim fora criado até os 13 anos no chão rachado pela seca do norte de Minas.

– Meus pais eram sem-terra muito antes de sem-terra virar moda – disse, referindo-se a um passado que prefere esquecer.

A família mudou-se para Belo Horizonte em meados da década de oitenta, Zulim trazendo na matula uma coleção de sonhos impossíveis; ser modelo era o mais acalentado deles. Aos 17 anos, já freqüentando saunas de programa, conheceu um traficante paulista que nas horas vagas fotografava garotos nus para revistas gays. De olho na carreira de modelo, Zulim aceitou posar sem cachê e, de quebra, concordava em que o cara fizesse sexo oral nele.

– Achava que era assim mesmo, se eu quisesse subir na vida.

As facções criminosas que se instalaram nos presídios são um dos maiores problema do século.

Quando a primeira foto de Zulim apareceu numa revista de circulação nacional, ele se transformou em atração nas saunas e boates de programa. Os melhores clientes faziam questão de ser vistos ao lado do bonitão com um par de bíceps que intumesciam ao mero erguer de uma latinha de cerveja. Num piscar de olhos passaram por um upgrade as grifes que ele vestia, as festas para as quais era convidado, as academias de ginástica que freqüentava e, claro, o preço de um programa com ele.

Zulim continuava a ser tratado como um pedaço de carne, mas os lobos que se alimentavam dela acenavam com sinais de opulência – apartamentos fabulosos, carros importados, viagens internacionais – irresistíveis para um garoto parido nos cafundós da miséria brasileira. Na vida real ele era o marginal de sempre, apenas um coadjuvante na fantasia de gente endinheirada.

– Doía ser tratado por aquelas bichas como objeto. Antes mesmo de eu tirar a camisinha, elas já tinham desaparecido da cabina da sauna.

Zulim gostava mesmo era das noitadas com amigos em botequins dos subúrbios, entre ladrões, traficantes, gigolôs, todos garotos como ele, que varavam a madrugada falando aos gritos e ao mesmo tempo, e amanheciam em volta das mesas, cegos pela bebedeira, dormindo com as cabeças penduradas para trás, entre copos pela metade e restos de comida. Garotos solitários e brutos, unidos entre si por um elo inconfessável de ternura, a quem as canções sertanejas fazem rolar lágrimas represadas e afloram uma saudade remota do único ser humano capaz de lhes inspirar algum respeito, a mãe. Aos primeiros raios de sol penduravam as mochilas nas costas e se despediam com gestos e frases próprios do grupo, hasta la vista, mano, e desapareciam nos becos fétidos daqueles bairros esquecidos, levando com eles a contradição de sua miséria bem vestida, e só voltavam a se encontrar no noticiário policial, onde o cadáver de um deles, mais dia menos dia, aparecia perfurado de balas.

Poucos meses depois de sua conversa com Pacha, durante outro confronto na prisão entre facções, Zulim foi alvejado com dois tiros nas costas. “Corri para socorrê-lo”, escreve Pacha em seu diário, “mas já não havia o que fazer. Tive tempo apenas de segurar sua mão e ouvi-lo dizer, antes do último suspiro: ‘Prisão não são as grades, liberdade não está na rua. Tem homem preso na rua e homem livre na prisão’. Depois virou para mim o rosto já quase sem vida e pediu, baixinho: “Enxuga os meus olhos”.

Zulim: da prostituição nas ruas aos crimes que o levaram à prisão, onde encontrou a morte.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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