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09/09/2019 | domtotal.com

'Fake news' se combatem na escola

Ação global contra mentiras, maledicências e caôs que viralizam na internet.

Leonardo DiCaprio, uma das celebridade que divulgaram fotos 'fake' das queimadas na Amazônia.
Leonardo DiCaprio, uma das celebridade que divulgaram fotos 'fake' das queimadas na Amazônia.

Por Rosangela Petta*

Uma boa notícia pra você aí, desalentada ou desalentado com a avalanche de mentiras, maledicências e caôs de toda espécie que viralizam na internet: seus problemas ainda não acabaram, mas não vai demorar muito. Em vários cantos do planeta, profissionais de imprensa e pesquisadores acadêmicos estão se juntando no combate às fake news com várias estratégias, e uma delas especialmente promissora: a alfabetização jornalística.

Esta é a tradução para a expressão em inglês news literacy, criada há pouco mais de 15 anos para designar programas de educação que ensinam ultra jovens a acompanhar cuidadosamente o noticiário. O objetivo é formar novas gerações de um público mais consciente, atento, com o desconfiômetro afiado.

                  O objetivo é formar um público mais atento e com o desconfiômetro afiado.

O norte-americano Alan Miller, por exemplo, ganhador do Prêmio Pulitzer de Jornalismo Nacional em 2013 pelo Los Angeles Times, está à frente do instituto News Literacy Project, com ações educativas entre estudantes americanos e canadenses. Atento ao fato de que a internet é acessada por mais de 4,8 bilhões de pessoas, “com um crescimento médio de 9% ao ano”, Miller acredita que o enfrentamento à indústria da desinformação depende da conjunção de cinco setores: governos (via respeito à liberdade de expressão), empresas de comunicação (com práticas rigorosas de verificação de fatos), consciência pública (em que cada cidadão assuma mais responsabilidade pelo próprio comportamento digital), empresas de tecnologia (evitando a “monetização de notícias falsas”, quando a quantidade de cliques vale mais do que a qualidade do conteúdo) e, principalmente, entidades educacionais (com o ensino da leitura crítica).

No outro lado do Atlântico, a poderosa e influente rede britânica BBC, cuja credibilidade ninguém discute, também resolveu prestar o serviço de alfabetização jornalística. Estendeu-o até nós, por um motivo mais do que razoável: brasileiros formam a maior audiência digital da BBC em língua estrangeira, com mais de 6 milhões de acessos aferidos entre fevereiro e março de 2019.

No dia 12 de março passado, o escritório local da BBC World News promoveu em São Paulo o evento Para além das fake news – em busca de soluções, voltado sobretudo a educadores. Foi a terceira edição do programa fora do Reino Unido, depois de Nigéria e Quênia. A ideia é estimular o espírito crítico desde cedo, mostrando como diferenciar notícia de opinião, desconfiar de conteúdos apócrifos, identificar aspas fora de contexto, alarmismos e outras arapucas da net. De manhã, houve um seminário sobre desinformação. À tarde, um workshop com 40 professores, de escolas públicas e privadas, inscritos para conhecer o projeto. “Criamos vídeos e exercícios pensando em alunos do ensino médio”, conta a repórter Paula Abramo Idoeta, coordenadora da oficina. “Mas muitos professores acharam que é possível aplicá-los já no ensino fundamental, a partir dos 12 anos. Crianças navegam bastante nas redes sociais”.

                     Esta é a primeira tentativa séria de enfrentar a indústria da desinformação.

É claro que todo esse material também está disponível, no site da BBC Brasil, para quem já deixou os bancos escolares. E, de todo modo, hoje nem é tão difícil desmontar uma mentira na internet, já que a própria oferece ferramentas pra quem fica com o post atrás da orelha. Em 2014, o buscador Google e o site Tin Eye lançaram, cada qual, o recurso conhecido como “busca reversa de imagem”: basta carregar a imagem suspeita no espaço indicado pelos aplicativos para descobrir a verdadeira origem e saber se houve, ou não, manipulação da notícia. Até então, era o usuário quem precisava, por conta própria, fazer buscas cruzadas. De clique em clique, os voluntariosos, os apressados e os ignaros desistiam de pesquisar — e os mal-intencionados esfregavam as mãos.

Dado o volume tão grande e tão veloz de fake news empesteando os meios eletrônicos, a imprensa tradicional tratou de incluir, em suas versões digitais, seções de checagem da boataria. Mas como nem todos assinam um jornal de informação, físico ou virtual, surgiram também organizações independentes de check facts, sustentadas por doações dos usuários, em sites abertos a quem possa interessar.

A Rede Internacional de Checagem de Fatos (IFCN na sigla em inglês), com sede em Tampa, na Flórida (EUA), reúne cerca de 15 grupos de jornalistas que apuram e investigam a veracidade informativa, incluída aí a agência brasileira Lupa. Este ano, a rede lançou um mapeamento global de fake news em 15 línguas, com 200 ferramentas digitais e recursos que podem ser utilizados até em salas de aula.

                    Professores acham possível aplicar o programa já no ensino fundamental.

A distorção noticiosa é tão grave que, desde o início desta década, preocupa até marmanjos e marmanjas mais instruídos, como os do Fórum Econômico Mundial. A cada reunião, a praga das fake news esquenta os debates na gélida Davos, na Suíça, e vai parar entre os principais entraves ao desenvolvimento humano. São “incêndios digitais”, como classificou o relatório de 2018, ao lado de conflitos geopolíticos, fraudes na ciber segurança, ameaças à democracia e degradação do meio ambiente.

No ano anterior, 2017, o Conselho Europeu recebeu um alerta dos pesquisadores Claire Wardle e Houssein Derakshan, ambos baseados em Londres. Trata-se do relatório Desordem da informação: rumo a uma estrutura interdisciplinar de pesquisa e formulação de políticas públicas, com as principais (mas não todas) formas de desinformar:

                       Em 1938, Orson Welles provocou histeria mundial com a divulgação de uma falsa guerra dos mundos.

Sátira ou paródia. São conteúdos criados para entreter, sem intenção de causar danos, mas com potencial de enganar. Exemplo: Em 30 de outubro de 1938, Orson Welles dirigiu e estrelou uma adaptação dramatizada do romance A guerra dos mundos (de H.G. Wells, 1898), transmitida ao vivo pela rádio Columbia. Provocou histeria em alguns bairros de Nova York com a “notícia urgente” da invasão de extraterrestres. Imagine se, naquele tempo, houvesse Whatsapp...

                     Em 1978, uma revista popular anunciava: “Elvis está vivo!”.

Conteúdo enganoso – Prática antiga, a preferida da imprensa sensacionalista, omite dados importantes que fariam o público entender, de fato, de quê trata o conteúdo. Exemplo: Um ano depois da morte de Elvis Presley, a edição de 11 de agosto de 1978 de uma revista muito popular no Brasil mandou ver na capa um “Elvis está vivo!”. Mas só lá dentro os fãs descobriram que era “em nossos corações”, com matérias especiais e pôsteres em homenagem ao Rei do Rock. Coerentemente, a revista se chamava Ilusão.

                    A notícia (falsa) de que Papa apoiava o candidato Trump causou furor nos EUA.

Conteúdo impostor – Ocorre quando uma fonte genuína, conhecida e confiável é associada a algo que não disse nem fez. Exemplo: A “notícia” de que o Papa Francisco apoiava o então candidato Donald Trump à presidência dos Estados Unidos foi a bobagem mais acessada pelos americanos na eleição de 2016. Tudo invenção de adolescentes da Macedônia, que buscavam ganhar dinheiro com audiência em escala mundial. Outra dos meninos: “Michelle Obama é homem”.

Conteúdo fabricado – 100% de araque, é feito propositadamente para enganar e causar danos. Muito comum durante campanhas políticas, em qualquer país. Exemplo: A guerra de mensagens furadas enviadas pelo Whatsapp por robôs de empresas contratadas por partidos políticos na última eleição presidencial do Brasil. 

                     As alterações são feitas sobretudo em fotos e vídeos.

Conteúdo falso – Um clássico dos apressadinhos que, fisgados pelo título, passam pra frente posts sem prestar a tenção na inverossimilhança. Exemplo: Em 2018, alguns usuários do Facebook “alertaram” sobre a fabricação de alface de silicone pela rede McDonalds. Não viram que se trata de artefato feito para vitrines de restaurantes, nem calcularam que alface de verdade sai bem mais barato na hora de montar sanduíches. Há poucas semanas, celebridades como Leonardo DiCaprio, Gisele Bündchen e Cristiano Ronaldo deram um fora idêntico, divulgando fotos de queimadas de Amazônia que não são de 2019, repetindo a bobajada de que a floresta produz 20% do oxigênio mundial — e, numa dessas, em vez de ajudar, atrapalham a causa.

                  Cadê o Leon Trotsky que aparecia ao lado de Joseph Stalin?

Conteúdo manipulado – São alterações feitas sobretudo em fotos e vídeos, cujas ferramentas evoluíram do Photoshop para programas como Blue Room, de deepfake (ou mentira profunda), que substituem rostos e vozes de pessoas. Exemplo: De 1934 a 1939, Joseph Stalin tocou o terror na então União Soviética, com o Grande Expurgo. Prendeu e assassinou opositores, e ainda ordenou retoques toscos de fotos, como a que eliminou o adversário Leon Trotsky do seu lado. Para demonstrar o perigo, recentemente uma edição de vídeo fez o rosto do ator Nicholas Cage cantar The sound of music no lugar de Julie Andrews no filme A noviça rebelde.

*Rosangela Petta, paulistana que mora em Barcelona, é jornalista, consultora em comunicação e escritora. Em mais de 40 anos de imprensa, trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, revista IstoÉ e TV Cultura de São Paulo, entre outras. Foi professora de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e, na ficção, escreveu peças de teatro, roteiros de cinema e TV. É autora do romance ‘Relato das venturas, confissões e arrependimentos do Sr. João dos Matos e suas nefastas consequências’ (Editora Cintra). Atualmente, escreve para diversas publicações brasileiras e atua como coach para o domínio da escrita.

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