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16/09/2019 | domtotal.com

Canção boa não morre no ar

'Sway', que nasceu 'Quien será' e não pára de ser regravada, é uma prova cabal disso.

A versão de 'Sway' do canadense Michael Bublé faz sucesso no mundo inteiro.
A versão de 'Sway' do canadense Michael Bublé faz sucesso no mundo inteiro.

Por Sérgio Vaz*

Há canções que não duram mais que a gota de orvalho numa pétala em flor: brilham, depois de leve oscilam e caem como uma lágrima de amor – mas de um amor um tanto chinfrim, rastaquera, nada parecido com o grande amor.

E há as canções que ficam, que não passam. Que nem dor de amor, que quando não passa é porque o amor valeu.

Uau! Citei nas seis linhas acima trechos sublimes de Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Nelson Motta – mas estava pensando em uma canção cujo forte não é a poesia, e sim o ritmo, a melodia, o gingado, o swing, a coisa quente que leva ao molejo, ao mexer os quadris, à dança: “Sway”.

“Sway” é uma coisa impressionante. Em 1959, Rosemary Clooney, a tia do George fina estampa, fez uma gravação sensacional da música, acompanhada pela orquestra de Pérez Prado, o pianista, compositor e band leader cubano que passou para a História como o rei do mambo. A wasp Rosemary (wasp de branca, protestante e anglo-saxônica) botou na sua versão a coisa sanguínea que está no DNA da canção, a coisa latina, explosiva, sensual, arrebatada.

Ah, sim, latina, porque “Sway” é o jeito com que os gringos cantam “Quien será”, obra e graça de um mexicano chamado Luis Demetrio. “Quien será” originalmente era um bolero-mambo, algo, creio, que tenha um pouco a ver com o samba-canção: se o samba era mais lento, mais suave, chamávamos de samba-canção. Imagino que era o mesmo com o outro paísão grande desta nuestra América Latina, aquele, coitado, que fica tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus. Um mambo de andamento mais lento ganhava – imagino – a definição de bolero-mambo.

Não dá para saber por que, mas o fato é que o autor Luis Demetrio vendeu os direitos da sua composição para um band leader, Pablo Beltrán Ruiz. Esse Pablo Beltrán Ruiz gravou “Quien será” em seu disco de 1953, South of the Border/Al Sur de la Frontera – Cha Cha Cha. O título do álbum já indica que Pablo Beltrán queria conquistar a América – e a verdade é que conquistou.

                      Homens suspiram ao som da versão de ‘Sway’ na voz de Julie London.

Um americano esperto, chamado Norman Gimbel, pegou aquele bolero-mambo que poderia passar por um cha cha cha, jogou fora a letra “em mexicano”, como dizem os americanos broncos nos filmes de Hollywood, e criou uma outra letra, totalmente diferente. Deu ao troço o nome de “Sway” – e, raios, precisaria mesmo haver um muro, ou então o México não iria parar nunca de invadir o outro lado do Rio Grande com belas canções e filmes e atores e diretores de talento.

Norman Gimbel, é forçoso registrar, foi o cara que, nos anos 60, criou as letras em inglês para 9 entre cada 10 clássicos da bossa nova. Ganhou um dinheiro do cão por botar nas canções de Tom Jobim coisas que Vinicius de Moraes jamais havia composto. Mas isso é outra história.

Em 1954, apenas um ano depois da gravação original de “Quien será”, Dean Martin gravou “Sway”, com aquela voz absolutamente Dean Martin dele, aquela coisa que a gente não sabe bem se é de um sujeito que está começando a beber, e é um grande gozador, se é de um sujeito que já bebeu uma garrafa de uísque, e é um grande gozador – aquela coisa malemolente, nonchalant, um tanto cínica, sempre safada.

Faz tempo que conheci o disco de Rosemary Clooney com Pérez Prado, que tem um título perfeito, A Touch of Tabasco. É mesmo pimenta latina pra cima da voz gostosa da tia de George Clooney – e “Sway” é uma das faixas mais deliciosas.

Julie London, a cantora mais sensual dos anos 50 e início dos 60, linda, gostosa, rouca, gravou “Sway” no seu disco Latin in a Satin Mood, de 1963.

                      Dean Martin despacha sua interpretação de ‘Sway’ com malemolência e nonchalance safada.

Quarenta e um ano depois de Julie London fazer a homorada suspirar de tesão mundo afora com a canção, o wasp Richard Gere e a latina Jennifer Lopez se enfrentaram num salão para dançar “Sway” em Dança Comigo?/Shall We Dance (2004), que por sua vez era a refilmagem hollywoodiana do filme japonês Dança Comigo? (1996). O corpo de J.Lo dançando ao som de “Sway” é um poema shakespeariano, drummondiano.

Há os que não acreditam em vacinas, há os que crêem na Terra plana, há os que afirmam que o aquecimento global é ficção inventada pelo marxismo cultural, há os antiglobalistas. (O governo Bolsonaro consegue reunir representantes de todas essas tribos de doidos.)_

O japonês Dança Comigo?, o americano Dança Comigo?, “Quien será”, “Sway”, são, todas essas obras que provam que o mundo é global mesmo – não importa o que digam os loucos.

A globalista “Sway” continuou rolando durante estes anos todos, e o canadense Michael Bublé gravou a canção em seu álbum de 2003. Fez sucesso no mundo todo – com destaque para a Austrália.

Dois anos atrás, em 2017, outra artista canadense, a bela Diane Krall, fez uma nova gravação de “Sway” em seu álbum Turn Up The Quiet.

                      Diana Krall tem um quê sensual bem próximo de Julie London ao cantar ‘Sway’.

É por causa da gravação da senhora Elvis Costello que estou escrevendo esta bobagem, estas mal traçadas, este suelto.

Outro dia, tentando me aventurar pelo Spotify, em que, confesso, ainda sou aprendiz de iniciante, ouvi Diana Krall cantar “Sway”.

E Diana Krall canta “Sway” mais lentamente que professor de tai-chi-chuan se movimenta. A loura canadense faz uma leitura de “Quien Será” como se fosse um samba-canção da mais profunda fossa. Dolores Duran ou Tito Madi pareceriam alegres agentes da pilantragem de Wilson Simonal comparados ao tom tristonho de Diane Krall.

O fantástico é que Diana Krall tem um quê sensual bem próximo de Julie London.

E aí busquei Diana Krall cantando “Sway” no YouTube. Achei bem rapidamente: a voz dela em off, enquanto rolam imagens de cinema – uma outra Diane, a Lane, namorando um garotão bonito, e depois sofrendo desesperadamente pela ausência dele.

Minha cabeça deu um tilt. Achei que aquilo fosse um videoclipe oficial, criado para impulsionar a popularidade da versão de Diana Krall para a canção.

                         Rosemary Clooney fez uma gravação da música, acompanhada pela orquestra de Pérez Prado.

Nada! Como Mary muito bem sacou, aquilo não era um videoclipe original, muito menos oficial. Eram cenas de um filme que alguém, muito safo, pegou para misturar com “Sway” cantada por Diana Krall.

Sim, claro que é isso: uma pesquisinha bem rápida mostra que são algumas tomadas do filme Infidelidade/Unfaithfull, de 2002, que já haviam sido reunidas e editadas daquela forma. O tal clipe que eu vi é apenas a colagem daquelas imagens com a versão de Diane Krall para “Sway”.

Não vi nem quero ver Infidelidade/Unfaithfull – que vem a ser uma refilmagem hollywoodiana de A Mulher Infiel, que Claude Chabrol lançou em 1968. Vi o original, já me basta.

                     ‘Sway tem sido usada por fãs de Rita Hayworth em trilhas sonoras de vídeos da deusa do cinema.

Mas são muito belas as cenas de Infidelidade que aparecem nesse clipe que é cópia de outro clipe de imagens tiradas do filme. Não tenho muita simpatia por Diane Lane, e ela realmente faz careta demais, e mexe com os cabelos demais, mas é danada de bonita.

O fato de uma pessoa – que se assina Marie M – ter feito essa colagem das cenas de Infidelidade com a versão de Diane Krall de “Sway” só prova aquela minha velha tese: as boas canções não morrem, não desaparecem. Ficam aí, sempre – e, volta e meia, são regravadas por artistas de sensibilidade.

C.Q.D. – Como queríamos demonstrar.

Teorema devidamente equacionado e demonstrado, descobri, agora, na hora de postar este texto, mais uma característica de “Sway”: a música tem sido usada por fãs de Rita Hayworth para dar a trilha sonora a vídeos com montagens de cenas em que a maravilhosa mulher dança. Há mais de um vídeo desses à disposição do respeitável público.

‘Sway’ na versão de Diana Krall. Ouça.


*Sérgio Vaz é ex-jornalista de O Estado de São Paulo, Agência Estado e Jornal da Tarde. Trabalhou também nas revistas Marie Claire e Afinal. Atualmente, edita os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.


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