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16/09/2019 | domtotal.com

Imprensa em tempos de ódio

De oposição, a imprensa passou a ser um inimigo a ser combatido pelo governo.

Brasil:: como cobrar isenção dos jornalistas se os patrões já entregaram o ouro ao bandido?
Brasil:: como cobrar isenção dos jornalistas se os patrões já entregaram o ouro ao bandido?

Por Alexis Parrot*

A maneira como Bolsonaro lida com a imprensa, desprezando-a e desrespeitando-a diuturnamente, obrigou que cada veículo da grande mídia tradicional assumisse uma posição clara frente a ele e a seu governo, até mesmo por uma questão de sobrevivência. Depois de anos a fio promovendo campanhas difamatórias contra Lula, Dilma e o PT, as organizações Globo e a Folha de São Paulo colhem o que plantaram. De oposição, passaram a ser o inimigo declarado a ser combatido.

Tão ou mais responsável que os colegas de circulação nacional pelo estabelecimento de um clima de polarização permanente no país, o Estadão nem este status conseguiu atingir. Em um sinal inequívoco de desprestígio, o mais quatrocentão e embolorado dos diários brasileiros não merece de Bolsonaro sequer menção.

Mas o sinal de que a vaca já foi mesmo para o brejo foi o triste espetáculo que assistimos nas comemorações do sete de setembro em Brasília, por escancarar o outro lado dessa moeda, a permissividade corrente entre certa imprensa e o bolsonarismo.

Silvio Santos e Edir "Nada a perder" Macedo, os magnatas da comunicação, proprietários do SBT e da TV Record, respectivamente, estavam lá, na tribuna de honra ao lado do presidente. Como cobrar isenção dos funcionários se os próprios patrões já entregaram o ouro ao bandido há muito tempo?

É impossível não perceberem o quão tóxica é a simples presença no palanque presidencial para figuras na posição que ocupam. É como se passassem um atestado de imbecilidade para nós: fazem mesmo o que querem, atropelam a ética em plena luz do dia e não ligam a mínima para o que possa se pensar deles por isso. Abdicam de seus deveres como detentores de uma concessão pública para buscar alguma benesse junto aos poderosos do momento. 

                        Edir Macedo e Sílvio Santos ao lado de Bolsonaro no palanque de 7 de setembro.

No reino do bispo Macedo o acontecido não chega a causar espanto. É mais que sabida a denúncia feita à época pelo sindicato dos jornalistas do estado de São Paulo sobre a "pressão abusiva" da diretoria do grupo Record (TV e site) para que o noticiário privilegiasse  Bolsonaro e prejudicasse Haddad durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2018.

Sobre Silvio Santos, o fato de não dar a menor pelota para o jornalismo em seu canal de TV não diminui a inadequação de ter aceitado o convite. Ladear Bolsonaro no dia da pátria não representa nada de patriótico, apenas revoga em definitivo qualquer resto de credibilidade que os noticiários do SBT ainda pudessem ter.

A origem do jornal é a discussão política. Mesmo em tempos de crise como agora, quando busca ser mais diversificado, ligeiro e chamativo para disputar a atenção do leitor com a internet, trata-se de uma missão da qual não pode fugir. Mas como encarar a peleja quando já se negociou a alma com o diabo? 

O sentido da imprensa está no contraditório. Se não for para questionar o poder instituído, não merece o título - vira diário oficial ou assessoria de comunicação. E no front desta batalha está o repórter, a ponta mais importante de toda a cadeia de produção da notícia, mas não a única força a ser computada.

Gay Talese, em seu livro de memórias, Vida de escritor, ao se dar conta que seu papel como repórter do New York Times era bem mais prosaico do que aspirava, dá alguma pista sobre a contradição que toda redação de jornal vive ainda hoje:

                    Gay Talese dá pistas sobre a contradição que toda redação de jornal vive hoje.

"Nossos editores - todos os editores - submetiam a cobertura noticiosa a seu critério do que era justo e equilibrado, do que era muito importante, importante ou de nenhuma importância. Suas impressões digitais estavam em cada artigo, cada título, cada fotografia, cada página diagramada do jornal. Podia-se remontar tudo o que se publicava, ou não se publicava, ao eu subjetivo deles, a seus valores íntimos, a suas vaidades e cicatrizes de batalha, a sua história ancestral, a sua origem geográfica e a qualquer tipo de influência que a política, a raça ou religião tivessem exercido sobre eles."

Junte a isso toda a pressão econômica e política que sacode uma redação. Em Minas Gerais, durante administrações tucanas mais recentes, houve o caso do grande jornal que chegou a demitir jornalistas não alinhados - por exigência do governo estadual, sob pena de suspender a cota de publicidade mensal - e do tabloide que virou oposição do dia para a noite, por motivos que apenas seu dono poderia precisar. 

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. É colaborador de várias publicações brasileiras e crítico-comentarista de televisão no Dom Total, onde escreve às terças-feiras.

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