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30/09/2019 | domtotal.com

Raposa velha, malvada, genial

Chega em novembro ao Brasil o novo livro de Margaret Atwood, 'Os testamentos'.

Com 60 livros publicados, a canadense Margaret Atwood começou sua carreira em 1969.
Com 60 livros publicados, a canadense Margaret Atwood começou sua carreira em 1969.

Por Andrea Aguilar*

Na primavera de 1984, em uma Berlim ainda dividida pelo Muro, uma jovem escritora canadense começou a carreira com um romance em que imaginava um macabro regime puritano, Gilead, se impondo nos Estados Unidos, anulando as liberdades, transformando as mulheres férteis em servas, e impondo um feroz sistema de vigilância. Mais de três décadas depois de sua publicação, O conto da aia retornou às listas de livros mais vendidos, foi adaptado para uma bem-sucedida série de televisão, que já está na terceira temporada, e em todas as marchas a favor dos direitos das mulheres estão as roupas vermelhas e os chapéus brancos, descritos no romance. A distopia de Margaret Atwood (Ottawa, 1939) voltou com força, e a prolífica autora – que publicou seu primeiro livro de poemas em 1969 e tem 60 livros escritos (quase um por ano, incluindo ensaios, livros infantis, contos e até quadrinhos) – se decidiu a escrever a sequência.

O final de O conto da aia estava carregado de suspense (de fato, a última frase é “há mais perguntas?”), e a intriga sem dúvida rondou o novo romance, Os testamentos (editora Rocco). A leitura do livro antes de sua publicação deveria se realizar na sede da editora e após a assinatura de um acordo de confidencialidade, do qual não se salvou nem mesmo o júri do Prêmio Booker, que nesta semana anunciou que o livro concorre à premiação. O novo romance se passa 15 anos depois do final do primeiro, e nele se intercalam os depoimentos de três mulheres: a malvada tia Lydia, que narra sua própria história, e outras duas jovens relacionadas a Offred. Atwood conversou com a imprensa acompanhada de um de seus agentes no final de julho em Londres. No Royal Overseas Club, a poucos metros do Piccadilly, vestida de negro, com um colorido lenço de seda e tênis, se mostrou irônica e critica, não perdeu ocasião de introduzir referências a outros livros – de Requiem, da poetisa Anna Akhmatova, o compêndio de jornais The Assasin’s Cloak, e o novo romance de Salman Rushdie Quichotte, que ela chama de fan fiction. Atwood mostra uma inteligência afiada.

                   A saga de Margaret Atwood começa em uma Berlim ainda dividida pelo muro.

A senhora abre Os testamentos com três citações.

Sim, uma de George Eliot sobre como as mulheres são vistas; outra de Vasili Grossman que diz que basicamente os extremos de esquerda e direita são o mesmo, e a de Ursula K. Le Guin que afirma que a liberdade não é um presente e sim um trabalho duro. Essa última tem muito a ver com os mesmos motivos pelos quais George Orwell volta a ser tão popular. As circunstâncias que nos cercam se parecem mais aos anos 30 e 40, do que a qualquer coisa ocorrida entre essa época e agora: vemos extremismos de esquerda e direita, pensamento de grupo, polarização, demagogos tentando causar medo e ganhar poder. Assusta.

O que a levou a escrever essa sequência?

As coisas acontecem. Durante 30 anos me perguntaram o que ocorre depois, se Offred conseguia escapar, e por que se perde seu rastro no Maine.

Havia algo que queria evitar no novo livro?

Não queria que fosse chato, uma repetição de algo que já tínhamos, e uma romantização da série de televisão. Suficiente, não?

Em Os testamentos a senhora alterna vozes de mulheres com idades diferentes. Qual foi a mais complicada?

A mais fácil foi a da mulher idosa, porque me é natural ser uma "raposa velha" malvada [risos]. A mais difícil, da mais jovem.

Muda de opinião à medida que escreve?

Sempre ocorrem mudanças, porque você pensa que sabe o que está fazendo e depois percebe que não. Como na vida.

A senhora se sentiu pressionada?

Sou muito velha para isso. Os autores hoje sentem pressão aos 20 e aos 30 porque será muito determinante ao seu futuro o que ocorrerá com o livro em que trabalham. Antes, os editores tiravam tudo de um autor, funcionando ou não. Acho que Graham Greene teve pelo menos cinco livros publicados antes que seu editor tivesse lucros. Depois, quando você se transformava em alguém conhecido, como Greene, todos os títulos passavam a ser valiosos. Hoje são pagas enormes somas por livros que não conseguem fazer sucesso, e os escritores ficam paralisados. Eu comecei em uma época em que os editores procuravam autores, não livros.

A senhora escreveu que existem romances que enfeitiçam os leitores, e outros a seus escritores, e que com O conto da aia as duas coisas aconteceram. Esse livro a perseguiu?

Sim, com certeza. Há obras que resistem a ser somente livros e foi assim com esse romance. Também há personagens que escapam das páginas como Dom Quixote, que passou a ser uma metáfora e está aí dando voltas pelo mundo.

Esse é o triunfo absoluto para um escritor?

Não sei, porque por fim seu personagem pode acabar protagonizando o comercial de uma pasta de dentes. Podem acabar apropriando-se por motivos que nada têm a ver com seu livro.

                 "Gilead", um movimento puritano que transforma mulheres férteis em servas.

Ainda se surpreende com o sucesso de O conto da aia?

Sua popularidade depende daquilo que está acontecendo no mundo em geral. Nas últimas três eleições nos Estados Unidos, ela subiu, mas nos anos noventa as pessoas diziam: “É coisa do passado, nada disso aconteceu, a Guerra Fria terminou, vamos às compras”. Além disso, não fez tanto sucesso quando foi lançado.

Mary McCarthy foi muito dura em uma crítica.

Ela tinha problemas de saúde naquele momento, mas de qualquer forma não acho que teria gostado, porque fazia parte de uma geração que pensava que se havia avançado e não ocorreria um retrocesso na causa das mulheres. Fico imaginando o que ela diria hoje. Seja como for, deve-se perdoar as pessoas de certa idade, assim como a mim agora.

Em O conto da aia só havia adultos, mas no novo livro duas das narradoras são menores. Há uma mensagem para as jovens?

É muito interessante ver o que acontece com a segunda geração quando ocorre uma grande mudança em uma sociedade. O que aconteceu com os filhos dos bolcheviques ou com os dos puritanos nos Estados Unidos? O fervor costuma ser coisa dos pais. Nos anos oitenta havia filhas de feministas perguntando para que tanto alvoroço. E essa é a situação que ocorre em Os testamentos entre o personagem central e sua mãe, que ela considera ridiculamente extrema.

Discute-se sobre as “guerras morais” e sobre se esses critérios devem ser aplicados à literatura e à arte.

Esse é um presente para a direita. Quanto mais se fizer isso, mais parecerá censura e mais munição terão os ultraliberais. Se você quer dar um tiro no próprio pé, vá em frente, se aquilo que quer é uma esquerda aniquilada por censores moralistas. Já vimos tudo isso antes, veja o estalinismo. É preciso ler mais História. Você começa assim e depois acha que é necessário desfazer o que outros fizeram. Para aqueles que dizem “queime tudo”, devemos perguntar com o que eles pretendem substituir tudo. E depois que você inicia o fogo, você será o próximo a arder, porque já abriu um precedente. De qualquer forma, acredito que já passamos dessa fase, e hoje se denuncia a cultura da raiva excessiva.

*Andrea Aguilar escreve para o jornal italiano 'La Repubblica'.

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