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14/10/2019 | domtotal.com

Sorria amarelo: você está sendo cercado

A 'internet das coisas' cresce e oscila entre o aumento da eficiência e a invasão da privacidade.

IoT é a troca de dados entre dispositivos via internet, sem qualquer interferência humana.
IoT é a troca de dados entre dispositivos via internet, sem qualquer interferência humana.

Por Rosangela Petta*

À exceção de alguns sites sobre tecnologia e uns poucos da área jurídica, passou despercebido pela imprensa brasileira o Decreto nº 9854, publicado no Diário Oficial da União em 26 de junho passado, sobre o Plano Nacional de Internet das Coisas. Trata-se da intenção de fomento à criação de projetos dessa inovação. Alguém pode dizer que demorou, já que desde 2005 existe a Associação Brasileira de Internet das Coisas, fundada por empreendedores do ramo. E que pensar a vida com IoT (abreviatura de Internet of Things, na sigla em inglês) tornou-se mais que urgente: é consenso entre especialistas da ciência e dos negócios globais que, até o final do ano que vem, haverá algo como 25 bilhões de objetos funcionando na base da comunicação digital entre máquinas.

Para quem acha que o máximo do high-tech no dia a dia é o smartphone comandado por voz, uma explicação. Por IoT entende-se a troca de dados entre dispositivos via internet sem qualquer interferência humana. A comunicação se dá por meio de sensores, circuitos eletrônicos e programas que percebem o ambiente e tomam decisões automaticamente, como o reconhecimento facial. Em grande escala, a IoT pode, por exemplo, melhorar a produção e o abastecimento agrícolas, a mobilidade urbana e o atendimento hospitalar. No varejo do cotidiano, os vendedores da ideia, desenvolvida desde o início deste século, acenam ao público com uma excitante facilitação do dia a dia, aplicada a eletrodomésticos, roupas, automóveis, câmeras de segurança, e medicamentos, entre tantas outras possibilidades. Imagine uma geladeira que, por conta própria, detecta que a alface do seu estoque ficou murcha e aproveita para dizer que em tal supermercado a verdura está em oferta. É por aí. Ou um guarda-chuva emitindo alertas de manhã porque há previsão de chuva à tarde. Também é por aí.

Nessa perspectiva, viveríamos como Os Jetsons, divertida série de animação que a dupla Hanna & Barbera criou para a TV em meados dos anos 1960, com enorme sucesso. Em cada episódio, objetos cuidavam automaticamente de tarefas diárias, deixando para os personagens de classe média da “era espacial” o prazer do bate-papo, como aquele sobre a sexy atriz de cinema Gina Lollojúpiter (referência à sensual estrela italiana da época, Gina Lollobrigida).

Bacana, né? Só que nem tanto. Como acontece com toda inovação tecnológica que é logo disponibilizada, os avanços da IoT não vêm sendo acompanhados, no mesmo ritmo, de uma discussão ampla sobre os problemas que podem advir, seja quanto ao fator operacional, seja quanto ao que ela acarretará à sociedade e à cidadania. O decreto brasileiro, por exemplo, não gasta mais do que duas linhas (em dois parágrafos diferentes) para mencionar as palavras “segurança de dados” e “privacidade”; e especifica que uma certa Câmara IoT será composta por representantes dos ministérios da Economia, da Saúde,  do Desenvolvimento Regional, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e, claro, da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, que a presidirá — e ninguém dos campos da sociologia, dos direitos humanos, nenhum jurista.

Na série de TV Os Jetsons, objetos cuidavam automaticamente de tarefas diárias.Na série de TV Os Jetsons, objetos cuidavam automaticamente de tarefas diárias.É preocupante que os agentes desse tecno-mundo não se manifestem publicamente para antecipar questões éticas. Dentre elas, a defesa do cidadão-consumidor quanto à proteção de dados pessoais como preferências, estilo de vida, relógio biológico e outros inúmeros aspectos que formam aquilo que se conhece como íntimo e pessoal. Nem mesmo é levada na devida conta a cada vez mais complexa natureza humana — que falha, erra —, a despeito dos crimes cibernéticos que se avolumam desde que a internet existe.

Do ponto de vista da infraestrutura, é de se perguntar, por exemplo, se o funcionamento global máquina a máquina (conhecido como M2M) será capaz de resistir a um eventual apagão de energia em algum ponto do tráfego de dados. Ou como lidará com o desequilíbrio entre diferentes regiões do planeta, onde os extremos vão da mais veloz banda larga à total falta de sinal. Não vamos esquecer, ainda, que tudo tem seu preço, cada vez mais alto, e que a política de lançamentos de gadgets mais avançados, em curtos intervalos de tempo, provoca a obsolescência e substituição constante de dispositivos no mercado.

Do ponto de vista jurídico, a realidade mostra que leis e sanções para delitos digitais não impedem a ação de hackers que ora invadem contas bancárias, ora sequestram arquivos pedindo resgate em bitcoins, ora avacalham reputações — muitas vezes, a serviço de quem pagar melhor. Da mesma forma, não há garantias de que tanta informação não vá servir para formar cadastros negativos/positivos em planos de saúde ou alvos/perfis de eleitores em futuras campanhas políticas ou ações da esfera pública.

Já sabemos que nossa privacidade foi reduzida a muito próximo de zero, por meio da utilização de aparelhos e aplicativos que nos seguem no tempo e no espaço. Eles nos veem e nos ouvem e, no rastro dos algoritmos, quase tudo o que fazem mostra que o objetivo é vender determinadas coisas ou serviços. Fica a pergunta: até que ponto tanta intromissão digital pode dirigir nossas decisões, limitando nossa liberdade de ser e de agir segundo percepções particulares? Como sobreviverá o Eu que deseja estar consigo mesmo, pensar sem interferências externas, atuar com o direito mais que sagrado da escolha própria?

O fato é que, como destacou o filósofo florentino Nicolau Maquiavel no tratado O príncipe, quase 500 anos atrás, sempre haverá quem quer dominar e sempre haverá quem não quer ser dominado. Na contrapartida tecnológica, há pessoas querendo se proteger da penetração digital, sobretudo nos países mais avançados. São significativos os dados fornecidos pelo site Skynews, membro do The Trust Project (consórcio internacional de empresas de comunicação e jornalismo, incluindo veículos brasileiros), divulgados no início deste ano: a venda de celulares que apenas fazem e recebem chamada aumentou 5%, se comparado com 2017, enquanto a de smartphones ficou em 2%. Também nasceram movimentos de privacy activism (ou ativismo pela privacidade), como a ong britânica PI, com sede em Londres. Outro sinal dos tempos é a venda de pequenos tampões que cobrem a câmera de computadores e celulares, para que o internauta não seja observado sabe-se lá por quem, encontrados até no comércio popular da Rua 25 de Março, em São Paulo.

A profecia de Chaplin em Tempos Modernos: as máquinas quebram e podem engolir o ser humano.A profecia de Chaplin em Tempos Modernos: as máquinas quebram e podem engolir o ser humano.Para essa turma, não há “ganho de produtividade” — um dos principais argumentos da IoT — que valha sacrificar direitos. São pessoas cientes de que o controle e a consequente anulação da vontade individual é um risco. Devem ter visto o clássico de Charles Chaplin, Tempos modernos, comédia que já em 1936 criticava a automação do trabalho, com uma premissa mais do que comprovada: máquinas quebram, dão tilt e, no final, literalmente podem engolir o ser humano.

*Rosangela Petta, paulistana que mora em Barcelona, é jornalista, consultora em comunicação e escritora. Em mais de 40 anos de imprensa, trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, revista IstoÉ e TV Cultura de São Paulo, entre outras. Foi professora de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e, na ficção, escreveu peças de teatro, roteiros de cinema e TV. É autora do romance ‘Relato das venturas, confissões e arrependimentos do Sr. João dos Matos e suas nefastas consequências’ (Editora Cintra). Atualmente, escreve para diversas publicações brasileiras e atua como coach para o domínio da escrita.

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