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20/01/2020 | domtotal.com

Instantâneos de Roma nos 100 anos de Fellini

A Roma real e aquela que sempre habitou minha imaginação

Roma: 3 mil anos de arte, arquitetura e cultura influentes no mundo
Roma: 3 mil anos de arte, arquitetura e cultura influentes no mundo

Alexis Parrot*
De Roma

Logo no iniciar de seu livro O flâneur - um passeio pelos paradoxos de Paris (Cia. das Letras, 2001), o escritor e crítico literário norte-americano Edmund White declara que "Paris é uma cidade grande, do mesmo jeito que Londres e Nova York são cidades grandes. Roma é uma aldeia, Los Angeles, uma coleção de aldeias, e Zurique é uma roça."

Estando aqui, entende-se o que White quis dizer, ainda que rejeitando o tom pejorativo. Mesmo situada na rota das grandes capitais europeias, com o mesmo burburinho turístico, atrações imperdíveis e as mesmas lojas caríssimas que se encontram em todas elas (concentradas ao longo de ruas como Condotti, Borgognona e Frattina), Roma guarda algo de extrema beleza íntima, uma qualidade inexistente no cosmopolitismo.

Trata-se de uma escolha, antes de mais nada. Para começar, há a obrigação por lei de que se mantenham íntegras as fachadas dos prédios, sem mudança alguma que corrompa a aparência do momento de sua construção. E até para uma mão de tinta, as cores usadas devem ser autorizadas pelo departamento paisagístico da prefeitura. Este extremo cuidado com o visual e a unidade de seu conjunto arquitetônico mostra visão e planejamento estratégico, indispensáveis para uma cidade desejosa de manter o epíteto de eterna.

Via Condotti, onde a capital italiana exibe luxo e opulênciaVia Condotti, onde a capital italiana exibe luxo e opulênciaVias, viales, portas, piazzas e piazzetas formam um emaranhado urbanístico de confusa absorção para qualquer recém-chegado. Se, ao pedir alguma informação, alguém disser que para chegar em tal lugar é só ir reto e em frente, desconfie. Em Roma, esta instância não existe. Você sempre tropeçará em uma igreja, uma fonte ou um sítio histórico, transformando o que deveria ser direto em desvio obrigatório. E nestes desvios é bem possível se afastar do caminho previsto e se perder irremediavelmente.

Caso aconteça, aproveite. Apenas assim se descobrem as maravilhas que não estão nos guias e mapas - e Roma está repleta delas. Perdido em uma ruazinha nos arredores da Piazza Navona, de repente tromba-se com o ateliê de um velho artesão da madeira cujas reproduções do Pinóquio (veramente um símbolo nacional) em tamanhos diversos, completamente articulados, só não são mais interessantes do que o próprio artista. Sentado em uma poltrona à guisa de trono, a longa barba branca reluzindo e vestido excentricamente, aguarda os curiosos na entrada da loja para saudá-los como se fosse um monarca ou o próprio Gepetto.    

Ou ainda, a poucos passos do Pantheon, surpreende a presença da Barbiconi, uma alfaiataria eclesiástica. O que para nós cheira a inusitado, em Roma parece ser um negócio rentável - a família está no ramo desde 1800; a loja situada no mesmo lugar, desde a fundação. As ricas túnicas na vitrine, cravejadas de brilhantes e bordadas com fio de ouro, nos levam imediatamente à primeira fila da plateia do desfile de modas religioso do filme Roma, crítica ácida e hilariante de Fellini.

Na origem um bairro operário, Pigneto agora é chamado de novo Trastevere, graças à movimentada e moderninha vida noturna. Porém, ao desviar de sua viale central, tomada aos sábados por uma feira modesta, descobre-se a homenagem prestada a heróis que tombaram na luta contra o fascismo. Um percurso histórico com placas indica as casas onde moraram estas pessoas naquela vizinhança e descreve suas trajetórias. Engrossando a fileira de mártires, não me surpreendi ao ver colada na parede de um prédio de esquina a placa azul com a inscrição Rua Marielle Franco. Nada mais apropriado.

A poucos passos do Pantheon, a presença da Barbiconi, uma alfaiataria eclesiástica.A poucos passos do Pantheon, a presença da Barbiconi, uma alfaiataria eclesiástica. Ao buscar o Mausoléu de Augusto (fechado no momento devido a um grande projeto de restauração), é possível acabar dando de cara com o restaurante Il Vero Alfredo, casa comandada pelos netos do inventor do Fettuccine all'Alfredo, aquele prato deliciosamente simples que, no Brasil, infelizmente, insistem em acrescentar creme de leite na receita. Comer ali, sem dúvida, é participar de alguma forma da história da gastronomia; mas a conta é salgada. O prato clássico sai a nada módicos quase cem reais por pessoa.    

Para minha estadia romana, escolhi San Lorenzo, bairro que abriga em seu coração a quase milenar Universidade La Sapienza. Hospedado em um pequeno apartamento de um edifício típico da classe trabalhadora - com pátio interno e varais com roupas estendidas por todo canto, exatamente como aqueles que nos cansamos de ver nos filmes do neorrealismo - o acaso me reservou uma grande surpresa, logo na chegada.

Ao lado da entrada do prédio, o lendário Pommidoro; trattoria frequentada por Pasolini e onde fez sua última refeição, na noite em que foi barbaramente assassinado. Está lá, emoldurado na parede do estabelecimento, o cheque assinado de onze mil liras com que pagou uma costela de vitela e um prato de salada.        

O resultado oficial das investigações sobre a morte do cineasta é questionado até hoje - assim como sua última refeição. Outro restaurante, o Al Biondo Tevere, reclama o título para si. Pasolini teria passado por lá depois do Pommidoro, mas sem comer nada; apenas pagou um prato de massa para o garoto de programa que o acompanhava e que acabaria assumindo a autoria do crime. 

Numa rua do Trastevere, uma placa azul com a inscrição ‘Rua Marielle Franco’.Numa rua do Pigneto, uma placa azul com a inscrição ‘Rua Marielle Franco’. Querelas romanas à parte, é tão rica e variada a cultura da cidade eterna e seu impacto no nosso imaginário, que não é apenas em sítios arqueológicos e fontes que se tropeça quando nos aventuramos por ela.

Nos primeiros dias em Roma, em um passeio inocente pela Via del Corso, uma das principais artérias do centro da capital, foi necessária uma parada na deslumbrante Galeria Alberto Sordi (antiga Colonna), para fugir da chuva. Preparava-se um evento de promoção do livro de Paola e Silvia Scola, recém lançado: memórias da vida familiar com seu falecido pai, o cineasta Ettore. Convidada para um debate com as autoras, eis que surge a diva Stefania Sandrelli, radiante do alto de seus 75 anos. Emocionada, recordava os sets de filmagem divididos com o diretor, como os de Nós que nos amávamos tanto, O terraço e A família. Fico sabendo que Scola a chamava afetuosamente de "Stefanella".

Me senti um pouco como Jep Gambardella, o velho sátiro em crise existencial de A grande beleza, ao entender que em Roma é possível mesmo cruzar magicamente com Fanny Ardant em um passeio noturno pela Via Veneto e quase pegar, concretamente, na matéria de que são feitos os sonhos. Em um estalar de dedos, Stefanella se tornou minha Madame Ardant.

Roma é feita também dessa matéria e só é eterna porque consegue conjugar sem hipocrisia as agruras do tempo presente, embebidas nas tintas ocres da terracota de seu passado. É caótica, estridente, mal sinalizada, pouco iluminada à noite, seu trânsito é louco, o transporte público (insuficiente) está sempre lotado e atrasado, mas ainda assim fascina, porque surpreende constantemente - embora nem sempre acerte.

Como a força crescente da extrema direita liderada por Salvini, resultado de um sentimento xenófobo, de certa forma corrente entre os italianos. No fundo, até o turista acaba se sentindo um exilado, meio sem lugar na terra de Romulo e Remo.

O mercado de Porta Portese, vizinho do sempre animado Trastevere, foi imortalizado por De Sica em Ladrões de bicicleta, na emblemática cena em que os feirantes correm carregando suas bancas e mercadorias na tentativa de protegê-las da chuva torrencial. Hoje, ainda é uma feira quilométrica onde se vendem roupas, sapatos, bolsas e casacos de qualidade duvidosa a preços inacreditáveis de tão baratos. Difícil é ver um italiano nato responsável pelas barracas.

Da mesma forma, na célebre feira do Campo de'Fiori, quem assumiu o posto foram imigrantes da Índia, do Paquistão e de Bangladesh, em sua maioria. Aqui, não há maiores oportunidades para este trabalhador, além do comércio ambulante. Há que se perguntar para onde são levados os refugiados africanos que chegam às centenas via Ilha de Lampedusa - porque em Roma, não estão. 

No número 110 da via Margutta, a casa de Federico Fellini e sua mulher Giulietta Masina.  No número 110 da via Margutta, a casa de Federico Fellini e sua mulher Giulietta Masina.  O rione do Esquilino, uma das regiões remanescentes daquelas quatorze criadas por Augusto para dividir a cidade no século IV, atravessa profunda degradação. Suas lojas sempre vazias, com atendentes ociosos e todas vendendo praticamente os mesmos produtos são reflexo da tomada do bairro pela máfia chinesa; um problema grave cuja existência as autoridades parecem ignorar completamente.

No pólo oposto, surgem algumas unanimidades, como o amor pelos livros. A presença de inúmeras livrarias de rua em plena atividade (é obrigatória uma visita à Fahrenheit 451, no Campo de'Fiori) e o sucesso da Feira anual de pequenas e médias editoras, com mais de 400 expositores, são prova disso. As filas gigantescas na entrada da sede da mostra, o centro de convenções La Nuvola (uma caixa de aço e vidro que, literalmente, encerra uma nuvem, impressionante criação do arquiteto local Massimiliano Fuksas), são prova cabal de que leitura e palavra impressa seguem firmes como pilares da cultura romana.

E há ainda o Papa. Na oração dominical do Angelus, de uma janela do Vaticano, o Bispo de Roma se dirige aos fiéis de todo o mundo, mais especialmente a todos aqueles que lotam a Piazza San Pietro só para vê-lo. Quanto mais vai se aproximando o horário marcado do meio dia, mais cresce a expectativa. Quando ele surge, o lugar explode em emoção e energia, como um gol no Maracanã em dia de decisão; uma das cenas mais impressionantes que já vivi até hoje. Segue-se um silêncio sepulcral até o fim da mensagem, quando Francisco se despede, sempre da mesma maneira: nos deseja um bom almoço e pede que rezemos por ele.

Se todos os caminhos levam a Roma, quem me fez amá-la, mesmo antes de conhecê-la, foi Fellini. Da primeira vez em que estive aqui, há 25 anos atrás, acabei não indo ver a Fontana di Trevi, com medo que sua materialidade quebrasse a imagem que tinha dela, como a vi em A doce vida. Para terminar este relato sobre um pouco dos caminhos que tenho trilhado em Roma, retorno onde tudo começou para mim, na Via Margutta, entre as Piazzi di Spagna e del Popolo, em frente ao prédio de número 110, que foi a casa definitiva de Fellini e sua mulher Giulietta Masina.  

Ao reverenciar o Maestro, que hoje, 20 de janeiro, completaria 100 anos, declaro minha admiração a estas duas Romas que finalmente se encontram - a real e aquela que sempre habitou minha imaginação.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. É colaborador de várias publicações brasileiras e crítico-comentarista de televisão no Dom Total, onde escreve às terças-feiras. As fotos desta reportagem são do próprio autor.

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