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27/01/2020 | domtotal.com

Gritos de dor que ainda ecoam em Auschwitz

75 anos após libertação, celebrada hoje, ainda se ouvem os gritos do Holocausto.

Elie Wiesel:
Elie Wiesel: "O que vivemos ninguém saberá, ninguém entenderá".

Guillermo Altares*

Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz, sobrevivente de Auschwitz, autor de livros como Noite, Amanhecer e Dia, acabava de voltar de Sarajevo, então sitiada (em 1992) pelas hostes genocidas sérvias. Visitou Madri e falou do longo século XX, no qual a violência parecia não ter fim. Perguntado sobre o campo de extermínio nazista, respondeu: "Ainda não conseguimos abordar este tema. Fica fora de todo entendimento, de toda percepção. Podemos comunicar alguns retalhos, alguns fragmentos, mas não a experiência. O que vivemos ninguém saberá, ninguém entenderá".

Setenta e cinco anos depois da liberação do campo nazista alemão, em 27 de janeiro de 1945, Auschwitz-Birkenau gerou uma enorme produção literária e histórica, milhares de volumes em todas as línguas. Os livros sobre o campo de extermínio podem ser divididos em três categorias. A primeira, a fundamental, os relatos dos que estiveram lá, entre os quais se contam algumas quantas obras-primas, como as de Wiesel, Primo Levi (a trilogia de Auschwitz) e Imre Kertész (Nobel de Literatura, autor de Kaddish por uma Criança Não Nascida). À medida que o século XXI avança e as testemunhas vão desaparecendo, suas palavras ganham maior importância. Dentro desta categoria poderiam ser incluídos também a HQ Maus, de Art Spiegelman, ganhadora do Prêmio Pulitzer, que relata a vida do pai do autor, sobrevivente do campo, e O Diário de Anne Frank, que permite compreender o terror vivido pelos judeus europeus fora dos campos.

“Auschwitz fica fora de todo entendimento, de toda percepção”.“Auschwitz fica fora de todo entendimento, de toda percepção”.Todos esses livros de testemunhas, entre outros, são marcados pelo que Wiesel expressou: reúnem uma experiência impossível de transmitir, impossível de entender, e que, entretanto, está nas suas palavras. Além disso, 80% dos deportados que chegavam a Auschwitz eram enviados imediatamente para as câmaras de gás, e nenhum deles sobreviveu. Não existe, portanto, nenhum testemunho da experiência que mais define o horror de Auschwitz, do centro do extermínio industrial que transforma o Holocausto em um crime sem comparação na história. Sobreviveram, isso sim, alguns poucos sonderkommando, os detentos obrigados pelos nazistas a se ocuparem dos cadáveres. Dois deles deixaram suas lembranças por escrito, as quais, de novo, vão além do compreensível: Shlomo Venezia, em Sonderkommando, e Filip Müller, em Sonderbehandlung: drei Jahre in den Krematorien und Gaskammern von Auschwitz (“tratamento especial: três anos nos crematórios e câmaras de gás de Auschwitz”).

A segunda categoria se centra nos livros de história, os ensaios que tratam de reconstruir o funcionamento do campo baseando-se em depoimentos —de sobreviventes e também de algozes—, bem como em documentos. Destacam-se dois especialmente importantes: Auschwitz— the Nazis & the ‘Final Solution’ (“Auschwitz – os nazistas e a ‘solução final’”), do historiador e cineasta britânico Laurence Rees, e Auschwitz: Geschichte und Nachgeschichte (“Auschwitz: história e posteridade”), da historiadora alemã Sybille Steinbacher. Este último consegue, em 216 páginas de formato pequeno, reunir com inúmeros dados e um rigor implacável e eficaz o horror administrativo do campo. Steinbacher resume em um dado a banalidade do mal: os judeus tinham que pagar os trens que os levavam à morte, um bilhete de terceira classe, com desconto para os menores de 10 anos. As SS obtinham um desconto de grupo para transportes de mais de 1.000 pessoas, e os trens de volta, vazios, eram gratuitos. "Trata-se de um dos detalhes mais horripilantes da organização do assassinato maciço", escreve Steinbacher.

E por último estão os romances, a ficção que Auschwitz gerou, tanta que se converteu em um gênero por si só. Alguns venderam milhões de exemplares em dezenas de idiomas, como O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne, e O Tatuador de Auschwitz, de Heather Morris. Sobre estes dois livros, o Memorial de Auschwitz, que se ocupa da conservação e gestão dos restos do campo de extermínio, patrimônio da Humanidade da Unesco, desaconselhou sua leitura para entender a realidade histórica, devido aos erros factuais contidos. Outro romance, A Bibliotecária de Auschwitz, do espanhol Antonio Iturbe, também foi um sucesso internacional.

“80% dos deportados eram enviados para as câmaras de gás; nenhum sobreviveu”.“80% dos deportados eram enviados para as câmaras de gás; nenhum sobreviveu”.Trata-se de uma reconstrução rigorosa de fatos reais baseando-se em entrevistas com seu protagonista. Apesar de ser ficção, A Escolha de Sofia, de William Styron, é um grande romance sobre o Holocausto e os trágicos dilemas decorrentes do sistema criado pelos nazistas para desumanizar suas vítimas.

Ao final, frente ao silêncio da poesia previsto pelo filósofo Theodor Adorno, ficam as palavras dos sobreviventes, a viagem ao incompreensível, ao território da morte e a desumanização.

"Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último rastro de civismo tinha desaparecido ao redor de nós e dentro de nós. É homem quem mata, é homem quem comete ou sofre injustiças; não é homem quem, perdido todo recato, divide cama com um cadáver; quem esperou que seu vizinho terminasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem culpa, mais longe do homem pensante que o sádico mais atroz". (Primo Levi, É Isto um Homem?)

"Nosso primeiro gesto como homens livres foi nos lançarmos sobre as provisões. Não pensávamos em outra coisa. Nem na vingança, nem em nossos pais. Só em pão." (Elie Wiesel, Noite)

“Ao final daquele dia senti, pela primeira vez, que algo havia se degradado no meu interior, e a partir daquele dia todas as manhãs eu me levantava com o pensamento de que aquela seria a última manhã em que me levantaria”. (Imre Kertész, Sem Destino)

"Jazíamos num mundo de mortos e larvas. O último rastro de civismo desapareceu em nós”.

*Guillermo Altares escreve para El País

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