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Capas de Santa Rosa

20/07/2016 09:17:28

Santa Rosa: pioneiro e inovador no design de livros.
Santa Rosa: pioneiro e inovador no design de livros.

Por Carlos Ávila

Ele é pouco conhecido ou lembrado (mesmo entre profissionais de design ou artes gráficas no Brasil); o paraibano Tomás Santa Rosa (1909/1956) foi um dos principais capistas do país – atuou ativamente na Editora José Olympio, no Rio de Janeiro. Mas foi também pintor, diagramador, cenógrafo (responsável pelo cenário e figurinos da célebre montagem de “Vestido de noiva”, de Nelson Rodrigues, por Ziembinski em 1943), ilustrador, figurinista e até crítico de arte. Em 2016 completam-se exatos 60 anos de sua morte.

Santa Rosa ganhou este ano, merecidamente, um belo álbum reproduzindo as suas capas (cerca de 300 delas!), fruto de dez anos de pesquisas e estudos de Luís Bueno – ele assina o texto sobre o artista e as esclarecedoras legendas que complementam as imagens; trata-se de uma edição conjunta da Ateliê Editorial e do SESC/SP. Ao final do volume há uma lista de todos os livros com capas e ilustrações de Santa Rosa, lançados de março de 1933 (a primeira capa: “Urucungo”, poemas do modernista Raul Bopp) até 1957.

Esse álbum complementa, de certa forma, outro também belo volume sobre o editor José Olympio (o homem que editou alguns dos maiores escritores brasileiros do séc. 20: Guimarães Rosa, Drummond, Graciliano Ramos etc.): “José Olympio – o editor e sua casa”, organizado por José Mário Pereira (RJ, Sextante, 2008) – são mais de 400 páginas, todas ilustradas. Impossível falar sobre Santa Rosa sem mencionar José Olympio e vice-versa.

Para Laurence Hallewell, estudioso da história do livro brasileiro citado por Luís Bueno, Santa Rosa foi “o responsável, quase sozinho, pela transformação estética do livro brasileiro nos anos 1930 e 1940”; segundo o próprio Bueno, o capista foi “o pai do moderno livro no Brasil” – ou seja, estudar design gráfico no país sem mencionar o inovador Santa Rosa é impossível.

Apenas durante o ano de 1939, Santa Rosa criou 37 capas, 26 delas para livros de ficção da Ed. JO. Nesta, ele instituiu um verdadeiro padrão visual para os volumes, um layout que trazia sempre a sua “digital” – nas fontes tipográficas, nos tons das cores, na diagramação etc. Com o tempo, operava algumas revisões e modificações, aqui e ali, nos detalhes.

Uma marca forte de Santa Rosa, nas capas dos livros de ficção da Ed. JO, foi uma espécie de vinheta figurativa, que vinha logo abaixo do título, sintetizando um aspecto ou passagem do texto. José Lins do Rego – autor de “Menino de engenho” – dizia que “o mestre dos desenhos das capas passou a ser o maior intérprete de meus livros. As vinhetas de Santa resumiam a vida inteira de meus romances”.

Na capa de “A bagaceira”, de José Américo de Almeida, Santa Rosa retrata na vinheta um grupo de retirantes, com um cacto ao fundo, “destacando o conflito social que se infiltra na trama” – como observou o crítico Otto Maria Carpeaux.

Santa Rosa também concebeu graficamente a charmosa coleção Rubáyát, para a mesma Ed. JO – voltada principalmente para a poesia oriental em tradução: Omar Khayyam, Hafiz, Tagore etc. –, com delicadas vinhetas e capitulares coloridas; às vezes, todo o texto numa única cor, por ex., o azul, no volume de Khayyam, em tradução de Octávio Tarquínio de Sousa (refiro-me à 8ª edição, lançada em 49; um dos volumes originais que possuo dessa coleção).

O artista paraibano criou também capas sóbrias – sem ilustrações, dando ênfase aos nomes dos autores e aos títulos (às vezes com um pequeno signo visual abaixo, aparentado à escrita árabe) – para livros de importantes poetas brasileiros como Drummond, Joaquim Cardozo e Murilo Mendes.

“Capas de Santa Rosa” – um livro obrigatório para os que se interessam pela história da editoração e das artes gráficas no Brasil; um volume primoroso.

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