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Poesia em tom menor

21/06/2012 15:17:36

Arte menor assinala o espaço quase inexistente ocupado hoje pela poesia

O poeta Cláudio Nunes de Morais.
O poeta Cláudio Nunes de Morais.

Por Carlos Ávila

Cláudio Nunes de Morais acaba de lançar mais um livro, Arte menor, agora pela Rona Editora, dando continuidade ao seu trabalho poético iniciado ainda nos anos 1980, quando publicou Eu, pron. pess. (em edição do autor). Em 1997, saiu Xadrez via correspondência, pela editora carioca Sette Letras, que reuniu toda a sua poesia até aquele momento, inclusive seu primeiro livro. Afora isso, Cláudio vem também publicando em jornais e revistas traduções de poetas (Mallarmé, Laforgue, Éluard, Valéry etc.), dando uma importante contribuição nessa área, onde já atuam com destaque outros nomes de sua geração como Júlio Castañon Guimarães, Nelson Ascher e Paulo Henriques Britto. Arte Menor foi contemplado na seleção pública do Petrobras Cultural –– programa de patrocínios de âmbito nacional.

Nesse novo livro, Arte menor – título sugestivo e coerente para quem já definiu a poesia, anteriormente, como uma “minúscula palavra”, assinalando assim o espaço exíguo, quase inexistente, que ela ocupa hoje –, Cláudio mantém seu gosto por uma escrita requintada, o que já era a marca de seu Xadrez: vocabulário preciso e precioso, versos muitas vezes metrificados, rimas raras e inusitadas, citações e alusões (com uso peculiar das aspas e itálicos), rearticulação de formas clássicas (o soneto e a sextilha, por exemplo), humor e ironia sutis etc. Ou seja, o leitor está diante de um livro que não “se entrega” ao primeiro contato, antes exige paciência e certa persistência para a sua plena fruição.

Dividido em cinco seções ou partes (“Sem título”, “Continuação”, “Arte menor”, “Aquém e além” e “Da história”), Arte menor agrupa poemas, em geral, não muito longos, e, realmente, em “tom menor” – nem pretensiosos, nem sentenciosos. Vai, portanto, na direção contrária a muita coisa escrita e publicada hoje em dia por gente que segue estradas batidas, seja no estrito campo do verbal, seja no verbivocovisual, como se estivesse inventando a pólvora. Inegável no poeta de Arte menor é sua “digital”, uma dicção própria; afora sua artesania, seu domínio de língua e de linguagem.

O grande trunfo, porém, do autor em Arte menor, é a clarificação de sua poética, a busca (com resultados expressivos) de maior rendimento comunicativo, tornando seus poemas mais diretos e acessíveis, sem que o leitor necessite de informações extrínsecas a eles. Neste sentido, há uma mudança significativa em relação ao Xadrez: menos citações, menos intertextualidade. Em compensação, há mais lírica (não derramada ou convencional); a poesia se abre ao cotidiano, à memória, às viagens e paisagens, ao humor e à crítica, entrecruzando repertórios – o raro e o aparentemente banal. “A poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe. Pode fazer o seu ninho em qualquer canto.” – como afirmou Mário Faustino. Mas persistem ainda certos temas obsessivos no poeta, por exemplo, o violão (o flamenco, em particular) e a língua portuguesa (sua ortografia) – aliás, bem trabalhados, respectivamente, nos poemas “La guitarra” e “Nova Ortografia”.

A mencionada clarificação da poética de Cláudio (espera-se que ele avance mais nessa direção!) fica evidente em diversos textos como “Desenho”, com o seu “mínimo de linhas/sobre o pequeno papel”; “La guitarra”, bela definição de um instrumento onde os sons são arrancados com as unhas; “Suavemente”, onde noite e chuva atravessam versos paralelos; “Duas oitavas”, com ressonâncias camonianas, onde “completa, a cena por si mesma fala”; “Caraíva”, com sua refinada simplicidade que escorre verbalmente das manhãs até o mar; “Moral da história”, que une o barroco ouro-pretano à “singular arquitetura” de Niemeyer; “Flagrante”, que comenta e apresenta “o esqueleto/de um soneto”; o divertido “Nova ortografia” com “vogais ao vento, perdendo o acento”; o humor e a ironia de “A um atualíssimo poeta” (quem será ele?), que “devia se levar menos a sério”, ou ainda do brevíssimo poema sobre o “Cimetière Marin”, que não “valérya a pena” traduzir; “Rosa dos ventos” com seus engenhosos e sonoros quartetos, com versos de quatro sílabas; os delicados “Epigramas” que ecoam poetas de França traduzidos na Rua Guilherme de Almeida; as “Sextilhas” onde a brancura dos versos nasce e morre; enfim, os dois sonetos (“A capela”), invertidos e reinventados, com moldura bachrroca plástico-sonora.

Em Arte menor Cláudio Nunes de Morais mantém sua dicção – os procedimentos formais e os elementos semânticos que sempre marcaram seu trabalho. Mas acrescenta também novos aspectos à sua poesia, agora, sem dúvida, mais sensível e inteligível. Em tempo: simultaneamente ao seu Arte menor, o poeta lançou também Quarteto, uma reedição, revista e ampliada, de Xadrez via correspondência. Boa oportunidade para que se conheça melhor a sua trajetória poética.

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