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Cantigas de Alfonso, o Sábio

17/09/2014 06:00:14

Cantigas de Alfonso X: monumento da música medieval.
Cantigas de Alfonso X: monumento da música medieval.

Por Carlos Ávila

“Santa Maria,/Strela do dia/mostra-nos via/pera Deus e nos guia…” (Santa Maria,/Estrela do dia,/ mostra-nos o caminho/até Deus, e guia-nos). Assim começa uma das mais belas Cantigas de Alfonso X, o Sábio – o rei-poeta que compilou perto de 400 cantigas (de louvor à Virgem), durante a segunda metade do século XIII, e que escreveu muitas delas ele mesmo. Trata-se de um monumento da música medieval (e, por que não, também, da poesia?), riquíssimo, conservado até nossos dias.

Há um registro musical em CD das Cantigas (do selo Astrée) reunindo o grupo vocal La Capella Reial de Catalunya e o grupo de músicos Hespérion XX, com instrumentos de época, sob a direção geral de Jordi Savall. É um trabalho primoroso de recuperação de uma pequeníssima parte desse extenso repertório, em torno de oito cantigas – e três faixas instrumentais. Todo o brilho e a delicadeza das Cantigas parecem preservados nessa gravação, realizada em fevereiro de 1993, no “Collégiale romane” do Castelo de Cardona, na Catalunha, Espanha.

“O termo cantiga” – segundo Jesús Martin Galán, que escreve o texto introdutório do CD – “assim como também cantar ou cantica, foi amplamente utilizado no reino castelhano até a metade do século XV para designar uma composição poético-musical, seja sacra ou profana, em língua galaico-portuguesa; se opunha dessa maneira ao vocábulo decir que se aplicava a um poema não colocado em música”. O acoplamento perfeito de palavra e som (da mesma maneira como acontece nas canções dos trovadores provençais; dos quais, aliás, temos as excepcionais traduções para o português de Augusto de Campos) fazem das Cantigas de Alfonso X El Sabio um corpus poético de rara beleza, onde ressalta a variedade métrica e estrófica.

O estudo dessas Cantigas é essencial para quem queira compreender, em profundidade, a evolução da poesia em língua portuguesa – sua origem galego-portuguesa (aqui, em Minas, já contamos com o notável trabalho da Profa. Ângela Vaz Leão nessa área). O artesanato verbal encontrado nos versos dessas Cantigas – o já mencionado ajuste de palavra e som – é marcante. Os achados e soluções formais dos textos são de uma modernidade incontestável (ressoam, até hoje, em momentos pontuais da nossa poesia contemporânea e, mesmo, de nossa melhor canção popular).

Foi realmente um ato de sabedoria de Alfonso X reunir sistematicamente essas Cantigas, montando um precioso acervo que chegou até os dias de hoje por meio de manuscritos, conservados na Espanha e em Florença, na Itália. Poesia e música que soam com frescor aos nossos ouvidos, tão fatigados pelos ruídos de todo tipo a que estamos expostos na cidade grande. Cantigas que soam com a pureza e a beleza dos sons da natureza, dos sons dos pássaros, como neste CD dos grupos La Capella Reial de Catalunya e Hespèrion – uma joia rara.

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