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Crítica | Crime e Desejo

08/12/2020 11:43:30

Esse é um filme que nasceu e morreu.

crime e desejo emilia clarke

Dracarys!, teria gritado Daenerys se estivesse no lugar de Susan Smith, a famosa informante do FBI cuja vida agora foi retratada em Crime e desejo (Above suspicion), novo longa de Phillip Noyce que, mesmo tendo sido filmado em 2017 e lançado no ano passado, chega para nós somente agora, em fins de 2020.

Porém, mesmo estrelado por Emilia Clarke, a eterna Khaleesi e mãe de dragões de Game of Thrones, o filme deixa a desejar em matéria de entretenimento, proporcionando uma experiência meio entediante ao longo de seus 104 minutos de duração.

Baseada em uma conhecida história real (e por isso não terei pudores em dar spoilers), a película é focada, como já referido, na informante do FBI Susan Smith que, um dia, vê sua vida horrível sacudida por um novo desejo: o agente Mark Putnan (Jack Huston). Casada com um traficante de drogas, ela é seduzida pelo policial bonitão que está longe de ser o príncipe encantado com que ela sonhava.

Emilia Clarke dá um show a parte, como sempre, já tendo provado há muito que é um dos grandes nomes do cinema. Em Crime e desejo ela mostra mais uma vez a facilidade que tem com sotaques e, de novo (como fez em Thrones), usa peruca para ficar mais parecida com sua personagem.

Somada à qualidade da atriz principal está a excelente fotografia do filme, bem puxada para azul e o cinza, sombria igual ao mundo dos entorpecentes. A maquiagem (notadamente a de Susan) também chama a atenção: borrada, parecendo sempre ser a pintura do dia anterior – mais uma marca de uma mulher maltratada pela vida (e pelos homens). Da trilha sonora, nada a reclamar.

Ademais, Noyce sabe muito bem o que está fazendo quando abre seus planos para mostrar a decadência de uma antiga cidade mineradora (Pikeville, Kentucky) que pelo menos até à época em que se passa a história (final dos anos 1980) só tem duas fontes de renda: o negócio funerário e o tráfico de drogas.

Decadência. Essa é a palavra que define o que Crime e desejo quer mostrar. A decadência de uma pessoa que falhou como mãe; de um homem que falhou com a família e com a instituição que defendia; de uma cidade que falhou com a sociedade.

E ainda há a interessante ideia de contar essa tragédia como memórias póstumas, como se a falecida Susan, de onde quer que ela esteja e ainda muito insatisfeita, tivesse encontrado uma maneira de voltar e contar sua história da maneira como ela realmente aconteceu. E se podemos acreditar no filme, sua vida foi realmente um pesadelo. Como dito lá no começo, se Emilia Clarke pudesse invocar sua antiga personagem, teria enlouquecido, gritado dracarys e queimado tudo com seu dragão negro.

Porem é uma pena que, mesmo diante de todos esses predicados, Crime e desejo tenha pecado e se mostrado uma obra fraca no que concerne ao entretimento. Mesmo que possa encher os olhos e seja recheado de temas interessantes, é facilmente esquecível, não possuindo aquele “quê” a mais que o possa gravar em nossas mentes.

Sendo assim, para não perder a referência, me despeço com o famoso mote daquelas Crônicas de Gelo e Fogo (vulgo Game of Thrones): valar dohaerys. Todos os homens devem morrer. Crime e desejo teve vida curta. Nasceu e morreu.

Publicado originalmente em O Cinema é.

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