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Crítica | Cidade Invisível

08/02/2021 21:05:04

A diversão é descobrir quem é quem nesse lugar aparentemente tão normal quanto o nosso…

cidade invisível destaque

Depois de passear pelo exterior trabalhando em produções internacionais como a australiana Tidelands (2018) e a espanhola Alto-mar (2019), Marco Pigossi retorna ao Brasil para protagonizar a mais nova e excelente obra nacional da Netflix, Cidade Invisível, co-produzida pelo premiado e duas vezes indicado ao Oscar Carlos Saldanha. Em seu enredo muito bem trabalhado de crime e suspense, a série revive as lendas do folclore brasileiro dentro do clima sombrio que envolve as práticas e empreendimentos ambientais em nosso país – e o faz de modo genial!

Pigossi vive Eric, um policial da DPA que tem a vida virada de cabeça para baixo quando sua mulher, Gabriela (Julia Konrad), morre misteriosamente durante uma festa junina. Tudo fica ainda mais estranho quando pouco tempo depois ele encontra um boto cor-de-rosa de água doce morto na praia.

Sendo assim, a adição do elemento de fantasia na história fez com que Cidade invisível caísse certeira em meu gosto, uma vez que sou fã inveterada do gênero, que sempre dá um tempero especial em qualquer obra de ficção. O fantástico é algo que sempre me cativou bastante e sua força é inegável, ainda mais quando compõe um imaginário gradativamente acumulado pelas histórias que nossos pais e avós nos contavam desde quando ainda nem sabíamos falar ou andar. Ele está lá, nas canções de ninar e nos livros infantis, se acomodam em nossa mente, e depois nós mesmo nos encarregamos de passá-lo para frente, para nossos próprios filhos e netos.

E dessa vez, na série da Netflix, a fantasia se mistura com um ambiente muito real e contemporâneo do cenário urbano do Rio de Janeiro, sem, no entanto, perder o caráter lúdico que o folclore brasileiro possui. Interessante notar, portanto, a escolha da Cidade Maravilhosa como palco do enredo, uma vez que esse mesmo folclore possui muito mais vigor no Norte do país do que aqui pelas bandas do Sul, porém tal fato só mostra a genialidade dos criadores da série junto ao experiente e incrível Carlos Saldanha.

A sinopse da história já nos dá um spoiler de quem é um dos personagens fantásticos de nossas lendas tupiniquins: o tal boto cor-de-rosa que, de acordo com o mito, à noite se transforma num belo homem de chapéu branco que seduz as mulheres e as deixa grávidas antes de sumir. Aqui chamo a atenção para a escolha de Pigossi como protagonista. Coincidência ou não, em A força do querer, novela da rede Globo escrita por Glória Perez que foi ao ar em 2017, o ator viveu Zeca, um paraense casca grossa que namorava a espevitada Ritinha (Isis Valverde) que, por sua vez, dizia ser filha do boto.

Porém, diferente de Zeca, o Eric de Pigossi em Cidade invisível é bem menos divertido, chegando a ser chato de tão clichê e irritante, um mocinho típico sem nenhum toque de humor que lhe destaque. Mas a interpretação do ator é tão boa em meio a tantas outras atuações medianas, que não há como largar a série. Ele e Alessandra Negrini são sem dúvida o que elevam a obra a um patamar superior, pertencendo ao nível máximo de talentos da nossa teledramaturgia.

Infelizmente, não há como falar sobre outros personagens sem dar spoliers, sendo que o melhor da diversão ao assistir a série, é tentar descobrir rapidamente – uma vez que o roteiro é ágil em seus sete episódio – quem é quem. Mas não se preocupe, eles vão se revelar! Eles estão à solta na Cidade invisível.

Publicado originalmente em O Cinema é

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