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Crítica | Duas ou três coisas que eu sei sobre ela

13/01/2022 11:57:03

Adeus ao clássico.

Duas ou três coisas que eu sei dela Destaque
© Divulgação Sinny

Jean-Luc Godard é um dos diretores mais aclamados do cinema, tendo seu nome ligado diretamente a um dos mais conhecidos movimentos do cinema, a Nouvelle Vague, entre o final dos anos 50 e os anos 60. Sua obra possui clássicos como o famoso Acossado (1959), mas hoje a análise recai sobre um de seus filmes não tão conhecidos. Duas ou três coisas que eu sei dela (1967) pode não ser o mais comentado de seus longas, mas como aqueles mais célebres, revela quatro ou cinco coisas sobre o cineasta.

A história segue um dia da vida de Juliette (Marina Vlady), uma dona de casa que ganha a vida como prostituta. Os acontecimentos cotidianos são intercalados com reflexões sobre a Guerra do Vietnã e outras questões contemporâneas.

Enredo interessante, filme maçante. Fica óbvio, desde o início, que Duas ou três coisas que eu sei dela se encontra na fase em que os filmes de Godard perderam a dramaticidade em prol de um sentido político e social. Fica perfeitamente ilustrado, ademais, o motivo de o cineasta ser tão influente sobre as gerações seguintes de diretores e o porquê de ser tão grande na história da sétima arte.

Godard era inventivo, sem dúvida, e levando em conta o filme em questão, nunca perdeu seu caráter experimentalista de fazer cinema, talvez sua maior marca como cineasta. Os personagens não são importantes, nem há um fio narrativo que faça muito sentido. Aqui, Paris se engrandece e toma conta de tudo. A todo momento a história é interrompida para mostrar imagens da Cidade Luz. Mas não aquela Paris glamourosa e iluminada que tanto encanta o mundo, mas sim uma Paris barulhenta, constantemente em obra e completamente realista. Mostra uma grua em vez da torre Eiffel, uma dona de casa lavando a louça por vários minutos em vez das chiquérrimas francesas desfilando pela Champs-Élysées. É uma Paris com pegada neorrealista.

E seguindo com sua visão de Godard em completa coerência, a trilha sonora é feita, portanto, basicamente pelo som ambiente urbano ensurdecedor, em completo contraste com a voz em off do narrador, que só sussurra e sussurra até ficar irritante. E sobre aquelas reflexões sobre a Guerra do Vietnã e outras questões contemporâneas, elas pululam de um lado para o outro quase que aleatoriamente, mas fazendo um sentido total no final, quando apontam para uma só conclusão: as tendências políticas do seu diretor e sua aversão pelo cinema clássico, especialmente aquele de Hollywood.

Assistir a Duas ou três coisas que eu sei dela é essencialmente assistir a um mestre da cinematografia fazer cinema para diretores e seus pares. Mas não se pode dizer que é um filme que agrade ao público. Ironicamente, pode-se resumir o que ele representa com uma frase clássica: era uma vez um sonho.

Publicado originalmente em O Cinema é
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