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Crítica | Uma Noite de Crime: A Fronteira

02/09/2021 16:02:28

Franquia de sucesso retorna com mais um filme aberto a várias interpretações sobre política e questões raciais.

Uma Noite de Crime: A Fronteira Destaque
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A banda Os incríveis uma vez cantou (em sua versão brasileira da canção italiana C’era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones):

Era um garoto que como eu
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Girava o mundo sempre a cantar
As coisas lindas da América

Mas quem conhece a famosa franquia de ação/terror criada por James DeMonaco que começou em 2013 com Uma noite de crime (The Purge), sabe que nela, as coisas na América não são tão lindas assim… E tudo por causa de uma noite por ano em que toda e qualquer delinquência é liberada. No novo longa dessa série de filmes, Uma noite de crime: A fronteira, dirigida por Everardo Gout, nada mudou muito depois que os Novos Pais da América (NFFA) são reeleitos, exceto que agora as ações de um grupo de ódio surtiram efeito e o chamado “expurgo eterno” começou. Para esse culto hediondo, uma noite por ano não era mais suficiente.

Dessa vez, a história segue um casal de mexicanos, Juan (Tenoch Huerta) e Adela (Ana de la Reguera) que chegam aos EUA para tentar viver o sonho americano. Estabelecidos no Texas, eles experienciam seu primeiro expurgo com horror e quando acham que estão seguros com o amanhecer, têm uma grande surpresa.

É claro que o adiamento do longa em razão da pandemia atrapalhou a estratégia de lançamento da película (prevista inicialmente para julho de 2020), tendo em vista que as eleições americanas ocorreram no ano passado, mas isso não tira o mérito do longa, que está aberto a várias interpretações. Ironicamente, seu lançamento ocorre logo após os recentes acontecimentos no Afeganistão.

Sendo assim, a franquia criada por DeMonaco é muito mais do que uma série de filmes que mostra uma história violenta. Focando em A fronteira, a quantidade de morte e sangue tem um contexto político e social muito bem definido em diálogos simples e eficientes, com a dose certa de profundidade, exatamente o que abre seu escopo para os vários entendimentos já referidos.

Por outro lado, a escala do enredo do filme é local e prefere se concentrar naquela parte do Texas onde se passa a história, o que não afeta em nada a percepção do terror que o país inteiro vive em decorrência do expurgo eterno. E por ser eterno, é a primeira vez nessa série de longas que a trama ultrapassa as 12 horas noturnas de crime, deixando o público ainda mais cheio de tensão como sempre acontece com essa fórmula. O caos agora se estende para a luz do dia.

Sendo assim, boas atuações e uma excelente trilha sonora reafirmam o sucesso da franquia e explicam o grande retorno de público que um filme de baixo orçamento pode conseguir. Uma noite de crime: A fronteira não foi exceção – vale muito a pena porque revela o ser humano em seu estado mais cru de natureza, completamente solto de suas amarras morais e empáticas, bestas sem qualquer nível de consciência que não seja o ódio.

E só para falar mais um pouquinho sobre a música da película, recorro mais uma vez a Os incríveis. É mórbido, mas em sua maior parte ela vem de um instrumento que sempre dá a mesma nota: ra-tá-tá-tá.

Publicado originalmente em O Cinema é
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