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Crítica | Missa da Meia-Noite

04/11/2021 12:06:37

Mike Flanagan acerta mais uma vez e traz outra excelente história para a Netflix

Missa da Meia-Noite / 2021 © debbiespahn via TMDb. Todos os direitos reservados.
© debbiespahn via TMDb. Todos os direitos reservados.

SPOILER ALERT!

É difícil falar sobre Missa da meia-noite, nova minissérie da Netflix, quando praticamente tudo o que penso sobre seu criador, Mike Flanagan, eu já abordei em meu artigo sobre ele. No texto, eu comento que o terror do diretor, que é fã ardoroso de Stephen King, é um terror sensível que mexe com muito mais do que o medo ou o asco. E a série está aí para provar tudo o que eu falei naquela oportunidade.

Em seu novo trabalho, como o próprio título da obra já revela, Flanagan trabalha com o Cristianismo de uma forma quase crua, mas extremamente inteligente e cativante. A Bíblia Sagrada é tão fonte de inspiração quanto qualquer outro livro ou história, e é dessa forma que o cenário em que o enredo acontece é uma ilha de pescadores, a profissão da maioria dos discípulos de Jesus Cristo.

Dessa vez, no entanto, o cineasta decidiu trabalhar com uma das figuras mais conhecidas do terror, uma criatura que vive no imaginário de qualquer ser humano e, talvez, um pouco mais no imaginário de qualquer cristão: o vampiro, ou pelo menos algo parecido com isso (um demônio alado que se alimento de sangue, talvez). E tudo começa quando um padre carismático (Hamish Linklater) chega à pequena ilha de Crocket, um lugar inóspito que enfrenta uma época difícil, mas tem a esperança renovada com a presença desse novo pastor.

No entanto, o padre Paul (e reparem em seu nome, Paulo!), não é a única novidade que de repente aporta na ilha. Dois antigos habitantes do lugar, Riley (Zach Gilford) e Erin (Kate Siegel), também retornam ao lar como dois filhos pródigos há muito ausentes. O primeiro volta depois de cumprir quatro anos de prisão por ter matado uma mulher num acidente, quando dirigia bêbado; e a segunda, depois de fugir de um relacionamento abusivo. Para completar, também há um novo xerife na cidade e o nome dele é xerife Hassan (Rahul Kohli), um muçulmano no meio de uma comunidade cristã. Detalhe interessante que gera diálogos extremamente intrigantes e sem dúvida bastante construtivos.

E é assim que, diante de uma fotografia deslumbrante, está armado o cenário para mais uma das excelente histórias de Mike Flanagan, uma história que não fica atrás de seus últimos trabalhos de sucesso – A Maldição da Residência Hill e A Maldição da Mansão Bly. Kate Siegel, a mulher do diretor, está de volta como sempre, interpretando a única professora do local, mas dessa vez, não é ela quem rouba a cena, mas sim Hamish Linklater com seu padre Paul e Samantha Sloyan como Bev Keane.

Bev e o xerife Hassan, aliás, são belíssimos personagens que representam o contraponto entre a religiosidade obsessiva e a saudável e seus embates são uma das coisas mais marcantes de toda a história. Já o padre Paul é algo de diferente, um líder perdido em sua mente e perdido de Deus que busca desesperadamente alguma coisa a que se agarrar, mas acaba se deparando com aquilo que não consegue entender, tentando transformá-lo em algo de bom, quando de bom, aquilo não tem nada.

E é dessa forma que Flanagan trabalha com a fé, trazendo dois inimigos de longa data para o centro de seu enredo: o padre e o vampiro, apesar de a palavra vampiro jamais ser mencionada uma única vez.

Como eu disse em meu texto sobre o cineasta, os elementos do cinema de gênero estão ali presentes porque afinal estamos falando de uma história de terror, mas o diferencial é sua habilidade em usar dele de uma forma tão sensível que ameniza o feio e o nojento. E as atuações notáveis de Linklater e Sloyan fazem todo o resto.

A trilha sonora também deve ser mencionada. Em sua grande parte ela se compõe de temas religiosos, mas ao ouvir Nearer my God to thee, o tema que os músicos de Titanic tocam quando percebem que não há mais esperança, é que nos perguntamos se a ilha de Crocket está fadada ao mesmo destino do enorme navio ou se, ao contrário, será salva por alguma intervenção divina.

Missa da meia-noite, portanto, **é uma história sobre renascimento e morte, sobre a vida e seus estranhos caminhos, sobre a fé e a esperança, sobre escolhas e decisões. É uma história que mostra que o mal existe, mas que o sol sempre se erguerá anunciando um novo dia, como um anjo incandescente que afasta as trevas e os medos que vêm com ela.

Publicado originalmente em O Cinema é
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