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Crítica | Duna

21/10/2021 09:00:54

Poucas vezes na vida testemunhei uma obra-prima como esta.

Duna Destaque
© Divulgação Warner Destaque

Não há como saber com certeza em que ano se passa a história de Duna, pelo menos não pela forma como contamos o tempo hoje. Mas é fato que os seus acontecimentos se passam muito à frente de nossa era, a estimativa chegando a mais de vinte mil anos a partir do momento em que Frank Herbert lançou seu livro, em 1965, o qual se tornaria um dos grandes clássicos da literatura de ficção científica, inspirando não só futuros escritores, como também, é claro, o cinema.

Duna teve uma tentativa de adaptação para as telonas fracassada em 1984, um filme que até hoje consiste em uma das piores dores de cabeça que o diretor David Lynch já teve em sua vida, um trauma que ele até hoje não superou. E não é de se admirar, porque traduzir na língua do audiovisual o universo que Herbert criou é uma tarefa para gente grande. Entretanto, o magnetismo dessa história é tão gigantesco, que é claro que o cinema tentaria outra vez. E tivemos sorte que dois dos grandes fãs da saga são também dois gênios, um do audiovisual e outro da música.

Com seu filme, Denis Villeneuve provou de todas as formas possíveis o quanto ama a obra de Herbert, tendo, inclusive – antes de começar seu projeto megalomaníaco -, dirigido dois longas de ficção científica para “treinar” para Duna, seu objetivo principal. Isso mesmo! A chegada (Arrival, 2016) e Blade runner 2049 (2017) são somente dois aperitivos com os quais o cineasta nos presenteou antes de nos oferecer seu delicioso prato principal, que estamos finalmente degustando agora. O outro gênio é Hans Zimmer. Preciso dizer mais alguma coisa?

Dessa forma, não é hiperbólico dizer que poucas vezes na vida tive a oportunidade de assistir a um longa tão grandioso e espetacular quanto esse. Duna é uma obra de arte em seu maior e melhor sentido, esplendoroso em sua fotografia, deslumbrante em seu figurino, arrepiante em sua trilha sonora, e magnífico quanto a seu elenco. Em outras palavras, basicamente perfeito.

Chega a beirar o impossível traduzir em palavras o que Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson e Stellan Skarsgård e outros grandes nomes conseguiram fazer nessa película. Confesso que, pelas descrições fornecidas pelas páginas do livro base, jamais teria imaginado qualquer um dos personagens sequer parecidos com os atores que lhes emprestaram suas imagens, mas a experiência foi muito além do satisfatório – foi inesquecível! Nesse ponto, peço licença para citar minha cena favorita, que foi a poderosa Lady Jessica, brilhantemente interpretada por Rebecca Ferguson, fazendo uso da Voz, um dos maiores poderes de sua ordem, as Bene Gesserit. E é por essa e outras que recomendo fortemente, a quem puder, que vá assistir ao filme nos cinemas, para usufruir da melhor experiência possível com o som. Acredite, vai fazer toda a diferença!

Voltando à análise e correndo o risco de cair no desgosto dos fãs de Duna, devo confessar que eu mesma nunca gostei da história de Frank Herbert. Reconheço a grandiosidade e a genialidade, fatos que não estão sobremaneira em discussão. Existe até mesmo importância social nesse tesouro da literatura, mas essa é uma pedra preciosa que não faz meus olhos brilharem, sendo uma riqueza que vem junto a uma leitura difícil, deveras arrastada e extremamente complexa. De outra feita, em matéria de enredo e por tudo o que já foi discorrido, a obra cinematográfica de Villeneuve oferece uma experiência bem mais satisfatória!

Sendo assim, considero que o cineasta pode se sentir mais do que orgulhoso de seu trabalho. Se Duna é a obra de sua vida, pode-se dizer que ele cumpriu seu sonho com louvor, assim como Hans Zimmer, que não fica atrás com sua música icônica.

E já que esse primeiro filme abrangeu somente a primeira metade do livro, aguardo ansiosamente pelo segundo, no qual poderemos ver mais da Chani de Zendaya e conhecer outros personagens importantes que ainda nem apareceram. Enquanto isso, ainda estou processando esse belíssimo e emocionante trabalho de Villeneuve, seu especial e delicioso prato principal.

Publicado originalmente em O Cinema é
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