Religião

23/09/2016 | domtotal.com

A Verdadeira hospitalidade bíblica: amar os imigrantes, os estranhos e os inimigos


Hospitalidade não é apenas cumprimentar e acolher as pessoas.
Hospitalidade não é apenas cumprimentar e acolher as pessoas. (Divulgação)

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj*

Algumas pessoas tem uma incrível capacidade para acolher a todos. A forma como esse tipo de pessoa age com desconhecidos, geralmente, causa-nos um impacto negativo porque pensamos que tais pessoas negligenciam a própria segurança e nos parecem muito ingênuas a respeito da onda de violência em nossa época. Somos desconfiados, não abrimos a porta do nosso lar nem a janela de nosso carro para estranhos e isso nos acostumou a não abrir nossos corações para quem pensa e age diferente de nós.

Nesse ponto cabe uma pergunta: sendo a hospitalidade uma manifestação de acolhimento ao "outro", ela deveria ser realizada apenas por quem está acostumado a ajudar desconhecidos? Ou seja: a hospitalidade é um dom natural em algumas pessoas e deveria ser exercida apenas por estas? Admitamos que, enquanto a arte da acolhida é facilmente exercida por alguns, pode ser bastante difícil para os outros. Nossas casas são uma extensão de nós mesmos, quando praticamos a hospitalidade, estamos tendo a oportunidade de compartilhar a sacralidade de nossa intimidade e isto exige de nós, antes de tudo, coragem.

Nenhum de nós há de negar que é mais fácil compartilhar a hospitalidade com a família e com os amigos que com estranhos, no entanto, a bíblia incentiva a todos a prática da hospitalidade. O texto de Rm 12,13 nos exorta "praticai a hospitalidade". O termo grego traduzido em português por "hospitalidade" é philoxenia, uma combinação de duas palavras: philos, que significa "amar alguém como a um amigo ou irmão", e xenos, que significa estrangeiro (estranho) ou imigrante (o estrangeiro residente). Embora geralmente traduzida por "hospitalidade", a philoxenia significa dispensação de afetos em relação aos estrangeiros, "amar estranhos ou imigrantes como se fosse o seu próprio amigo ou irmão". Isto significa que se deve prestar aos estranhos o mesmo tipo de amor com o qual amamos a amigos e parentes. O texto da Carta aos Romanos é ainda mais incisivo porque afirma literalmente, "prossegui na hospitalidade", ou seja, a hospitalidade não deve ser algo esporádico, mas um ato constante.

No Antigo Testamento

No antigo Oriente, a prática da hospitalidade era uma norma cultural envolta em noções de honra, característica fundamental da época na qual se deu a maior parte dos acontecimentos narrados pelo Antigo Testamento. Mas também a xenofobia estava presente na maioria daquelas culturas. Sendo assim, a hospitalidade como um desejo de hospedar, alimentar e entreter um convidado, ou como se diz hoje, de "receber convidados" era algo que se fazia com prazer, especialmente, com pessoas da mesma etnia, à semelhança do que hoje se faz com alguém da mesma classe social.

Para a cultura hebraica, o livro do Levítico (19,33-34) dá uma instrução fundamental a respeito do modo como deve ser exercida a hospitalidade: "Não oprimireis o estrangeiro que permanecer na vossa terra. O estrangeiro residente entre vós será tratado como o natural da terra; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus".

O mandato da hospitalidade no Antigo Testamento está inserido no capítulo sobre o amor ao próximo como a si mesmo, passagem fundamental que, junto ao mandato do amor a Deus (Dt 6,5), resume todos os mandamentos da Lei (cf. Lc 10,27). Que motivação o livro do Levítico nos dá para a hospitalidade? Está escrito no final do mandato do amor ao estrangeiro "Eu sou o Senhor vosso Deus". Qualquer israelita ao ler esta frase lembrava-se de Ex 20,2: "Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos fez sair da terra do Egito, da casa da servidão". Isto significa que o povo de Israel deve agir para com o estrangeiro da mesma forma que Deus agiu com eles: com acolhida e com misericórdia. A libertação dos escravos se torna uma exemplificação de que Deus desaprova radicalmente o modo como o faraó tratou os estrangeiros residentes no Egito. Os israelitas, portanto, não devem agir à maneira do faraó, mas à maneira de Deus. Os israelitas fizeram a difícil experiência de viver como imigrantes no Egito e não podem tratar os estrangeiros da mesma forma que o faraó os tratou.

O nível mais básico da hospitalidade no Antigo Testamento está expresso em Jó 31,32: "O estrangeiro não pernoitava na rua, pois as minhas portas sempre estiveram abertas ao viajante". Nos deveres para com o hóspede estava incluído: dar-lhe descanso, lavar-lhe os pés, dar-lhe alimento farto (cf. Gn 18,4-7); trata-lo como um servo trata seu senhor (Gn 18,8) e, por fim, proteger-lhe a vida a qualquer custo (Jz 19, 15-24). A violência para com os hóspedes que os textos de Jz 19,15-24 e de Gn 19, 5-9 nos dão testemunho mostra que o termo estrangeiro, geralmente, era entendido como "inimigo", a falta de hospitalidade era muito mais que xenofobia, que horror aos estranhos, era ódio intenso para com estranhos. Nesse sentido o texto de Lv 19, 33-34 pode ser lido não apenas como ordem de "amar o estrangeiro como a si", mas como mandato de amar os inimigos como a si mesmo.

No Novo Testamento

O texto bíblico de 1Pd 4,9 afirma: "Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem murmuração". Este imperativo também está vinculado à prática do amor no versículo imediatamente anterior: "Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros" (v.8). A comunidade cristã no primeiro século se tornou o laboratório ideal para o exercício da acolhida ao outro, da hospitalidade, do mandato de amar o estranho como se faz a um amigo ou a um irmão. O clássico refrão paulino "judeus e gregos", para definir aqueles que aderiram a Cristo, deve ser entendido que na categoria grego se estava mencionando todos os povos e etnias conquistados pelo império romano e que desde o século IV a.C., com as conquistas bélicas de Alexandre Magno, foi imposto idioma grego como fator de unificação do império. Portanto, ao dizer "os gregos" se estava incluindo nessa categoria um sem número de povos e de etnias. E, sendo a comunidade cristã composta de  "judeus e gregos" se tornava propícia para um grande número de conflitos, mas também para o "amor intenso de uns para com os outros", para a experiência de amar o estranho como irmão, e de fato, os cristãos se tratavam mutuamente como o termo "irmão".

Também no Novo Testamento motivação para a prática tem a ver com Deus rico em misericórdia que nos amou com intensidade (Ef 2,4) e através de Cristo, nossa paz, destruiu a inimizade (Ef 2,14) e fez de judeus e gregos reconciliados em um só corpo (Ef 2,16). Sendo assim, a hospitalidade não é apenas cumprimentar e acolher as pessoas até os pagãos fazem isto (Mt 5,47), é enfrentarmos nossos medos e a mesquinhez de nosso egocentrismo e nos tornarmos canais da hospitalidade de Deus.

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*Aíla L. Pinheiro de Andrade é licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará, bacharel, mestre e doutora em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. Membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém.

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