Religião

13/10/2021 | domtotal.com

Quando a 'vocação' impede o reconhecimento da função como um 'trabalho'

A vida sacerdotal é uma vida com mais atribuições do que se costuma imaginar

Em pesquisa, padres e freiras relataram um nível de exaustão emocional superior à categoria de policiais, executivos e motoristas de ônibus
Em pesquisa, padres e freiras relataram um nível de exaustão emocional superior à categoria de policiais, executivos e motoristas de ônibus (Unsplash/Mateus Campos Felipe)

Camila Campos Marçal da Cruz

Vivemos de tal modo que o trabalho remunerado ocupa um lugar central nas nossas vidas. Trabalhamos para (sobre)viver e trabalhamos tanto que nem temos tempo para pensar sobre o modo que vivemos (Isso não é por acaso, mas não vamos entrar nesse mérito agora). Nesse cenário, assistimos no Brasil, de um lado, um crescente movimento de pessoas questionando essa centralidade do trabalho e levantando a bandeira da busca por um trabalho que tenha propósito. Ao mesmo tempo, assistimos, de outro lado, a perda de direitos já conquistados pelo trabalhador, a precarização do trabalho e o aumento da informalidade e do desemprego.

Tal realidade - independente de qual seja a nossa situação específica - nos leva a um estado de angústia e insegurança constante. Estamos sempre com medo: seja por não conseguir um trabalho, seja de perder o emprego, seja de não dar conta por se sentir sobrecarregado de tanto trabalhar. Isso tudo, por si só, já é adoecedor. Mas será que isso acontece também quando seguimos uma vocação? Sim. Gostar da própria profissão e/ou do trabalho, não nos torna imunes aos efeitos desse contexto de instabilidade, nem aos efeitos da realidade cotidiana do trabalho em si. Na verdade, ter o privilégio de seguir uma vocação, seja ela qual for, pode ser usado, inclusive, para que determinados trabalhos não sejam reconhecidos como tal e portanto, não tenham seus direitos regulamentados. Como bons exemplos disso temos os trabalhos das mães e donas de casa e as profissões de professor e cuidadores.

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Além disso, a nossa dificuldade (ensinada) em reconhecer algumas profissões como trabalho, pode nos impedir de perceber as necessidades humanas da pessoa que exerce aquela função. Fato é que, se é trabalho, tem impacto no sujeito e na sua saúde. Para entender isso melhor, vamos esclarecer o que compreendemos como trabalho e vocação. Consideramos trabalho qualquer conjunto de atividades que uma pessoa exerça com um fim determinado ou de forma regular, seja este remunerado ou não. Entendemos por vocação, uma tendência ou chamado que uma pessoa sente para seguir uma função ou profissão específica. Agora vamos falar especificamente da vocação religiosa.

De acordo com a legislação trabalhista brasileira, pessoas que cumprem funções religiosas não configuram emprego. O que não quer dizer que as pessoas envolvidas com ele não sofram com as mesmas questões relacionadas a trabalho. E quais são as características do trabalho religioso que ficam submersas por conta do seu não reconhecimento? A vida sacerdotal é uma vida com mais atribuições do que se costuma imaginar. Além das atividades de cunho espiritual, que mais comumente associamos a eles, tais como a realização de missas, batizados, crismas, casamentos, o trabalhador religioso pode/precisa se dedicar a atividades assistenciais, tais como visita a doentes, escuta aos fiéis; atividades de ensino universitário e também voltadas para a comunidade de fiéis e à própria formação de novos sacerdotes; atividades administrativas que vão desde gestão contábil à gestão das atividades da comunidade religiosa, passando por organização de eventos, comunicação, divulgação, cuidado com a rotina da casa, entre outros.

No livro Sofrimento psíquico dos presbíteros, o autor, psicólogo William Pereira, fez uma pesquisa qualitativa com padres e freiras e os entrevistados relataram um nível de exaustão emocional superior à categoria de policiais, executivos e motoristas de ônibus. Além de todas as funções que os sacerdotes precisam exercer, paira sobre seus ombros a exigência de ser um modelo de virtude e santidade para toda a comunidade. E essa cobrança (externa e interna) começa desde o tempo de formação sacerdotal. Se não tiver muito cuidado, o religioso corre o risco de negligenciar a própria vida, espiritual-física-emocional.

Ao ingressar na comunidade religiosa, faz-se votos de realizar qualquer atividade que seja necessária, seja ela de cunho religioso ou não. Aderir a isso é um gesto de liberdade, que traz com isso uma responsabilidade com o outro e consigo mesmo. Sendo assim, precisamos estar atentos para que esse trabalho, juntamente com outros fatores, não seja um fator de adoecimento. O fato de dedicar a vida a servir, é belíssimo, mas isso não elimina automaticamente o fato de que se trata de um ser humano e que portanto, para servir, precisa se cuidar. E o que seria esse cuidado?

Esse cuidado implica em lembrar da sua própria humanidade e agir de forma preventiva, priorizando o cuidado com a integralidade da sua pessoa em todos os âmbitos da vida: cuidando da alimentação, fazendo atividade física, separando tempo para lazer, tempo para descanso, tempo para cultivo das relações afetivas, tempo para se escutar. Autocuidado engloba também estar atento aos sinais do nosso corpo e ser ativo na busca de compreensão desses sinais. Se você se sente constantemente exausto/esgotado; se percebe que caiu o seu rendimento; se se sente ansioso para executar suas funções e/ou cumprir prazos; se precisa conviver com pessoas que te colocam em situações humilhantes e constrangedoras; se identifica alguma alteração significativa no sono ou na alimentação; se não tem interesse em atividades que antes proporcionavam prazer; se se sente constantemente irritado ou sem energia… procure ajuda!

Com uma ajuda profissional, pode-se verificar quais os ajustes são necessários e possíveis de serem feitos na sua vida/rotina, que podem te trazer mais qualidade de vida e bem estar! Lembre-se: vocação sacerdotal não é um emprego, mas é trabalho (e muito)! Se cuide!



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